sexta-feira, 5 de março de 2010

Poema de amanhã

22/12/03

1

O poema de amanhã descansa em meu peito.

Em estado selvagem,

às vezes ele parte a galope pelo meu corpo,

a sua crina solta ao vento,

seus cascos ecoando no hall do meu tórax

– mesclando-se às batidas do meu coração...

... seu relincho se misturando lentamente à minha voz...


Eu o sei,

como sei o bebê que cresce na barriga da Arabela.


Eu o sei,

como sei que a noite de um dia futuro

se inicia na sombra que minha perna projeta.


2

Amanhã ele estará domado,

pastando tranqüilamente em uma folha de livro.



* Do livro Memórias à Beira de um Estopim

sábado, 30 de janeiro de 2010

Vis naturalis


Em nada me afugentarei da sanidade

se um dia amanhecermos no coração

de uma hecatombe;


se um dia as nuvens se misturarem

ao cogumelo atômico e retirar dele o ácido que

nos pulverizará como gafanhotos;


em nada abalarei meu passo

por entre as fotografias espantadas,

cravadas nas paredes

atestando o gesto inútil

dos braços levando as mãos à boca:

flash letal eternizando num álbum urbano em retalhos

a silhueta do pavor e do desespero;


em nada diluirei meu olhar

por entre a alma da cidade esvaindo pelos bueiros:

miasma insuportável atraindo os repórteres

os partidários e os urubus.


Em nada me lamentarei

se um dia acordarmos no meio da noite

e pela janela não vermos nada

além do sonho humano configurado em :


ó doce momento, te aguardo em silêncio,

pois o vislumbrei em sonhos recentes!

Te aguardo, minha insônia atesta!


Eu vi

a poeira radioativa

trazida com a brisa mais fresca da manhã:

ouvi a tosse das crianças a caminho da escola,

surpreendidas por uma coriza escarlate

que lhes manchava o uniforme impecável

a vida mesmo escorrendo até a boca infantil:

ranho que eles sorviam com a língua, em vão.


Eu vi

um rastro de lancheiras esquecidas

sendo esmagadas por paquidérmicos tanques,

devorando o trilho sinalizador da volta ao lar.


Eu vi

mãe e pai mortos no ato do beijo mecânico:

contato labial sabor margarina e desgraça

despedida derradeira

apagada da história humana

num longo segundo envenenado.


Te aguardo em silêncio, ó doce momento:

pois em meu sonho eu vi um menino

te reverter com um gesto mínimo,

pois teu barulho lhe atrapalhava a brincadeira.



______________________________________

* do livro Comerciais de Metralhadora

* poema originalmente publicado na Revista Germina:

http://www.germinaliteratura.com.br/l_rafael_nolli.htm

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

XXXVI

31/12/03

...e é, na mesa, que nos diferimos. É na ceia que nos diferenciamos. Esse ano que passa nos mostra mais uma vez que é a mesa (repleta ou escassa) que nos divide em pólos distintos.


... logo, a criança que debruça na lata de lixo estacará um instante para ver os fogos... senhor, zelai pela nossa miséria. Que as latas de lixo amanhã amanheçam repletas! Que assim seja!

Mas que seja hoje, senhor, pois esse ano-velho amanhã será tão velho quanto os ossos do peru que o cão enjeitou, e que apodrecem na horta... tão velho quanto a fome do menino de ontem, debruçado, um lixo... amém.


*

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Planos de Vôo

Imagem de Hugo Martins


1 – os motivos


Sempre haverá um rompimento

ou discussão envenenada.

Por um momento, bem sabemos,

motivo é o que menos há.


Sempre haverá uma dor de perda

que só se perdendo para esquecê-la.

E há, sempre há, motivo obscuro

nunca suposto, jamais revelado.


Sempre haverá demissão inesperada,

concepção indesejada, inoportuna,

surgida em hora ingrata pela mão de sujeito

sem-nome, sem-vergonha, sem-cara.


(Nenhum que justifique ou que explique)


2 – a forma


É público, porém limpo –

outros verão o espetáculo,

não aqueles de apreço.


(Em casa, o sangue manchará

cortinas, desvalorizará o imóvel.)


É público, porém limpo –

outros verão o show, serão

aqueles que por um ou dois dias

deixarão de dormir,

beberão café em excesso,

terão um cigarro queimando os dedos.


Serão aqueles que esquecerão logo,

que comentarão via telefone,

especularão pela mãe – pobrezinha! –

e levarão o episódio às manicures.


É público, porém limpo.

Logo a ambulância fará o seu serviço

e a chuva ou as varredeiras, o seu.


(Em casa, o sangue entupirá

o ralo e excitará o cão.)


3 – o viaduto

a) Demolir seria insano, já que é via importante que oxigena o corpo da cidade. Demolir seria pôr fim a engenharia respeitável, amputando a paisagem. Bem sabemos que sempre haverá outros métodos a serem utilizados: a corda e a faca preenchem o cardápio.

Demolir seria insano, já que é veia vital que irriga o coração da cidade. Demolir seria incinerar o dinheiro do contribuinte, aleijando o cenário. Bem sabemos que sempre haverá outras formas convidando ao ato: revólver dormindo debaixo do travesseiro, mata-rato na prateleira final do supermercado.


b) Policiar se mostra inútil – seria o mesmo que montar base sobre os ossos dos cavalos ou à estátua de um elefante cinzento.


Policiar se mostra inútil, posto que se trata de região rica em possibilidades: os rios convidam ao afogamento e as margens barrentas à decomposição.


E quando tudo estiver sitiado, sobre a cômoda desaparecerá uma dezena de comprimidos da mãe.


4 – a rota

Nenhum semáforo que avermelhe

ou placa de trânsito que obrigue


(O sol

projetando a sombra)


Caminho pouco imaginativo

de paisagem em baixa resolução


(O vento

desmanchando o penteado)



5 – instante


Último pensamento

incapaz de ser compartilhado

pela brutalidade do pouso:

nada é mais belo que o pôr-do-sol

dourando as bordas do abismo.



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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O mesmo título de uma obra de Knut Hamsum



1 {a fome}
Seria aceitável se estivéssemos
firmados em um deserto de sal
devorando o pneu dos tratores

Se fôssemos aniquilados por
terríveis gafanhotos bíblicos
estragando os olhos das mulheres

2 {a fome}
Seria aceitável se nos achássemos
em terras incultas dentando os arados
e enferrujando os ossos dos homens

Se vivêssemos sobre um chão
diurético, por décadas incontáveis
afogando as auto-estradas e os silos

3 {a fome}
Seria aceitável se nos restasse uma terra
imprestável para sepultar os chacais
dia-a-dia corroendo as mãos das crianças

Se habitássemos um solo indisposto
nauseado das sementes, asfixiando o céu
estrangulando a paisagem



* Da coletânea POETAS EN/CENA 3
Reunião de poemas de poetas brasileiros no V Belô Poético.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Estúdio Raposa - Portugal


Meus camaradas, alguns de meus poemas podem ser ouvidos na voz de Luis Gaspar, no audioblog português Estúdio Raposa. Feliz demais ao ouvir meus poemas, me deu um ânimo novo em ler, ler e produzir. Só tenho a agradecer a Luis Gaspar por esse presente! Um abraço a todos!

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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Meus poemas por aí


O mesmo título de uma obra de Joseph Conrad

Basta um instante e tudo muda
no coração da cidade.
A hemorragia de gente pára
para avistar um corpo estirado no chão.

Agrupam-se em torno da cena
pintada no asfalto com cores em excesso –
são amplificados, ecoam nas paredes:
lembram uma picada de inseto.

A sacola largada do alto do prédio
se agarra aos fios de alta-tensão –
onde a força dos rios corre
transformada em cavalos excitados –

e súbito desprende para alçar novo vôo.
Os carros voltam a gritar, impacientes,
exigindo descanso aos seus músculos de aço:
clamam pelo conforto das garagens.

O minuto seguinte, engasgado no letreiro digital,
é vomitado sobre a cabeça de todos.
Logo, a gaze encharcada começa a gotejar.
Um instante, e volta a bater o coração da cidade.



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* Dois poemas de meu novo livro, Comerciais de Metralhadora, podem ser lidos na Revista Eletrônica Paralelo 30, confiram:
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Visitem! Um abraço, meu camaradas!
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domingo, 9 de agosto de 2009

Revistas Eletrônicas

foto de l. rafael nolli






Acaba de sair do forno um novo número da Revista Diversos Afins - literatura, fotografia, ensaios e entrevistas, tudo feito com muito esmero. Vocês podem conferir um poema meu por lá: http://diversos-afins.blogspot.com/2009/07/trigesima-quinta-leva.html



Um texto muito bacana sobre minha poesia, um ensaio que muito me deixou feliz, vocês podem conferir na Revista Eletrônica Falópios (Escrito pela amiga, a escritora Larissa Marques): http://falopios.blogspot.com/2009/08/rafael-nolli.html




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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Os Agentes B

Dino Valls - la nave de los locos

para Rodrigo de Souza Leão
(04/11/1965 - 02/07/2009)


1 – TOP SECRET

O poeta trazia um chip escondido no corpo.
Aos 23 soube que era rastreado –

numa sala escura um monitor Toshiba
piscava uma luz verde que era ele:

se súbito virasse à esquerda
e corresse até o tênis acabar eles saberiam.

Mergulhar por dias em piscina, de escafandro,
ou enfiar o dedo na tomada não adiantava –

era a prova d’água, imune ao curto-circuito.

A luz continuaria piscando, indicando
aos agentes que ele estava onde estava.

Com a faca arrancá-lo seria em vão.
Outro seria posto no lugar do primeiro –

à noite, pelo pai; ou num ato violento por eles.

Novamente internado, voltaria
com a tecnologia re-implantada –

up grade da versão dois ponto zero,
mais moderna, com sinal via satélite.

2 – Fuga e outros movimentos

Certo dia, perseguido por todos,
desceu correndo os treze andares da CEF,
contando cuidadosamente cada degrau.
(Diante do impasse, quase voltou para conferir)

Os macacos em seu encalço
– mordendo o calcanhar do tênis Nike –
seria uma prévia de tantas outras perseguições.
(Análogas às exibidas na Sessão da Tarde)

Aquele era o momento de lamentar não ter fu-
gido com Rimbaud – companheiro de manicômio
onde trocavam figurinhas do time do Flamengo.
(Álbum Campeonato Brasileiro, 1989)

3 – Necrológio

Acordou vinte anos depois
– ressaqueado de Haldol –
seu nome inscrito no obituário.

Levantou da cama
– a hora havia chegado –
e comunicou a todos que iria morrer.


*

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Rodrigo de Souza Leão

Cássio Amaral, Rodrigo, Eu, Ricardo Wagner

Quando fomos ao Rio de Janeiro para tentar, sempre tentar, vender uns livros de poemas, eu não esperava nada além de uma brisa marítima soprando forte, de um trânsito infernal. Clichês pisados e repisados.
E foi nesse passeio que conheci, pessoalmente, Rodrigo de Souza Leão. Já gostava muito de sua poesia. O cara nos recebeu muitíssimo bem e nos propiciou um papo sem igual, nos mostrando uma visão lúcida sobre a poesia contemporânea. Fiquei triste quando me informaram que ele havia morrido.
A passagem na casa de Rodrigo valeu a viagem e muito mais. O podle – que não era azul – chato pra caralho, as pinturas feitas com o chuveirinho do banheiro, cigarro, cheetos e coca ligth: tudo guardado para um poema futuro.
Rodrigo deixa uma obra vasta que merece leitura atenta. Um poeta vigoroso.



MEU PAI QUE NÃO ESTÁ NA FOTO


Comi distância nas pálpebras
Fechadas de minha razão
Pude sentir a minha Loucura
Sempre sorrindo de dentadura

Oro aos sãos que me querem
Tateando o Horizonte dentro
Daquela noite eterna
Em que me deitei em mim

Pra sempre quis estrelas
Quem sabe irei ser um dia
Aquela que adiante guiará
Meu pai no mar da poesia

*Rodrigo de Souza Leão





terça-feira, 2 de junho de 2009

Retrato Falado #1

Imaginá-lo pensando em um céu esterilizado, completamente desabitado, não é exercício de muita poesia. Não há poesia alguma em vê-lo esmagado pela solidão.

Seus planos sangrentos, encharcados de crueldade, nem devem ser mencionados. Nunca matará ninguém.

É tomado de pesadelos que acorda: seus projetos de esfaquear pelas costas, incendiar casa com gasolina, atropelar e fugir, nunca sairão do papel. Logo o sangue congela nas veias.

No fundo do poço o escape que lhe ocorre é cavar.

*