domingo, 22 de junho de 2008

Variações sobre um mesmo tema

Dino Valls - Tacere

1 a)
Quisera ter sido um poeta de amor,
não sofrer visões do Pequeno Príncipe tomado
de sonhos homossexuais em meio aos baobás
ter as virgens maometanas em torno:

a inspiração morna em minha cabeça
feito um colo em que se afunda,
ou um seio onde se perde.

Quisera, sonho romântico, gonçalviniano,
ser dono dos dizeres verdadeiros sobre o amor:
não ver os olhos das mulheres com espanto
(como se fossem os olhos de Nietzsche ou o cano
de um revólver).

Acreditar, quisera tanto,
nos gozos, nos suspiros, nas declarações
não amar os homens que ornaram seus
pescoços com guilhotinas, as mulheres
que misturaram seus fogos
______________ aos fogos
das fogueiras da inquisição:
odiar para sempre a Igreja e a sua Santa Ignorância.

Quisera ter sido um poeta dado ao culto de Eros & Vênus
e não visualizar os últimos anjos que restaram
esconderem-se em meio às nuvens,
se desemplumando à seco, em desespero insano.

Quisera estar entre os laureados,
os poetas que o amor visita a pena
e o sentimento é uma constante
em seus crânios iluminados pela palavra
ser desses que os pequenos burgueses lêem à noite,
em seus quartos, depois de comerem o caviar
que o diabo amassou.



*

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A Casa

foto: Rafael Nolli

A casa

Dos homens que a ergueram
não restam sequer testemunhas:
um pó de memória que seca a garganta.

De como retiraram o barro das distâncias
e o emularam em célula não restou a sujeira
nas roupas ou o câncer que os consumiu.

De como em fornos cozinharam os miolos
e o caldo das montanhas, nada sobrou:
talvez uma cratera que junte água salobra
ou uma ficha em arquivo de manicômio.

De como chegavam em casa –
felizes por ainda terem os dentes na boca –
nada se sabe. Se há quem o recorde,
não há de dizer algo que valha.

De como suportavam as horas
tendo um copo de lágrima
e um cão para lamber as feridas das mãos
coisa alguma se relata –

ninguém anotou nada em lugar nenhum.
Por certo, os filhos dos que a ergueram
virão derrubá-la.

Disso, todos são testemunhas.



*

sábado, 12 de abril de 2008

Coletânea Trilhas

capa do Livro Trilhas - Coletânea de autores blogueiros, 2007




1) Interromperei por um tempo a publicação dos poemas da série Balada do Cárcere de Abaetetuba, para refletir melhor sobre os rumos que o poema está seguindo – venho tomando alguns conselhos com amigos, sobretudo o poeta e camarada Akira Riber Junoro, que me mostrou alguns pontos interessantes que estavam me escapando. Espero que em breve eu consiga postar o restante aqui.

2) Recebo essa semana a coletânea Trilhas, organizada pela Loba (Euza Noronha), querida amiga virtual, poetisa atuante que tem se revelado uma editora muito competente. Nesse livro se encontram três poemas meus, dois dos quais já configuraram por aqui. O outro, inédito até então, eu publico hoje.

Ps: Abraços a todos, e obrigado a Loba pelo convite. Parabéns pelo belo trabalho!


*



Bilhete Encontrado em um Buquê de Rosas

Se eu não te amasse, te mataria com prazer.
Te esqueceria numa cova rasa, em beira de estrada,
para que cães pudessem lhe desenterrar –
arrastá-la pelo asfalto em pedaços repletos de vermes
___________e de moscas.
*
Se eu não te amasse, te jogaria da ponte –
como se lê todos os dias nos jornais –
só para vê-la voar desesperada, sujar o chão
e menstruar a cara de merda dos passantes
___________e suas blusas impecáveis.

Se eu não te amasse, te sufocaria com o travesseiro
(seria perigoso dormir comigo). Te picaria
com a faca cega da cozinha. Pela noite,
prepararia uma travessa de yakisoba
__________e me tornaria canibal.

Se eu não te amasse, te atormentaria amiúde.
Faria com que Hitchcock dirigisse os teus
pesadelos. Te acordaria com sussurros de so-
cos no ouvido – se eu não te amasse,
__________seria isso que eu faria.


*

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Balada do Cárcere

andrzej jurczak


Ópera-rock sobre o Cárcere de Abaetetuba



3 – os detentos

Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu couve.

Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.

Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos

– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.

Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas

– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.

Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.

Aqui o sol é o mesmo para todos,
e o interruptor o apaga.







*

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Balada do Cárcere

andrzej jurczak


Ópera-rock sobre o Cárcere de Abaetetuba


2 – o carcereiro

Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.

(O trânsito é um problema que o incomoda:
busina, semáforo, lhe tiram do sério.)

Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.

(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)

Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.

(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)

Nada perturba o seu sono.



*

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Balada do Cárcere

andrzej jurczak




Meus camaradas, como comentado anteriormente, estou publicando hoje o poema sobre o Cárcere de Abaetetuba. Inicialmente dividido em três partes, o poema começa a tomar um corpo maior. Vejamos no que vai dar. Por fim, não custa repetir o quanto esse caso me chamou a atenção. A primeira impressão que tive foi que seria impossível não me manifestar. Refleti muito nesses dias como uma garota pode ser lançada numa cela masculina e mantida por um mês em companhia de vinte e tantos detentos... Porém, é inútil me explicar aqui: tudo que senti está no poema!
*



Ópera-rock sobre o cárcere de Abaetetuba



1 – os fatos

Tinha quinze anos e subtraíra um Rolex made
in China ou um CD by Zona Franca de Manaus.

Por isso fora jogada
numa cela úmida de suor e porra.

Uma cela ocupada por homens exemplares,
educados na arte da pederastia e da extorsão
– onde trocava um copo d’água por uma chupada.

Tinha quinze anos e roubara pouco mais
de uns reais, que não lhe pagavam a fome.

Por isso fora jogada
numa cela feita de aço, músculo, testosterona.

Uma cela abarrotada de orações sinceras,
de sífilis, de gonorréia
– onde trocava fiapos de colchão por tapas na cara.

Tinha quinze anos e roubara um pedaço de pão
ou uma carteira de couro de avestruz.

Por isso fora jogada
numa cela fedendo a desinfetante de menta e cu.

Uma cela decorada com frases de ódio
e estelares bocetas globais
– onde trocava um prato de comida por uma trepada.



2 – o carcereiro

Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.

(O trânsito é um problema que o incomoda:
buzina, semáforo, lhe tiram do sério.)

Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.

(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)

Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.

(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)

Nada perturba o seu sono.



3 – os detentos

Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu nada.

Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.

Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos

– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.

Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas

– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.

Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.

Aqui o sol é o mesmo para todos
e o interruptor o apaga.



4 – opinião pública

A língua áspera lambe a notícia
até que a menina morra envenenada

Amanhã, uma mais perversa enfeitará a página
e depois de amanhã uma nova desgraça
(nenhuma azedará o almoço).

Com um imã, afixar o jornal na geladeira
 não lhe parecerá estranho.



5 – o culpado

O dedo pode correr sobre a lista telefônica,
comer cada um dos nomes: nenhum será o dele.

O olho atento poderá sorver a página policial,
percorrer sem tropeço os livros dos cartórios.

Os passos podem excursionar pelas genealogias,
singrar das raízes profundas às folhagens.

A mão pode investir sobre todas as identidades,
freqüentar os volumes de centenas de bibliotecas.

A voz pode indagar pelas ruas, gritar nos museus,
visitar cada um dos nomes: nenhum será o dele.



6 – fim

cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível

(talvez seja o vizinho
ou nós mesmosalgo nos diz)

e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum


*

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

ORAÇÃO

Tela de Robert Rauschenberg



XIV
26/12/03


... nessa manhã amena, a felicidade está no trabalho que escraviza; o orgulho, na marmita cheia; porém possível apenas por duas breves horas de descanso e piada: arroz, feijão e quem sabe um bife...

... nessa manhã amena, Cristo está no estômago, fermentando em meio à hóstia mastigada ontem; amanhã, estará ele rodando no córrego do matadouro, em um curso que, dificilmente, encontrará o mar...

... nessa manhã amena, com ordem de supervisor, enxada, arroz com feijão, dai-nos sempre, senhores, essas duas boas horas de descanso e arroz com feijão, amém...





*

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Memórias à...

Imagem de Man Ray

.....Camaradas, escrevi esse poema no dia 14 de dezembro, a quatro anos atrás. No livro memórias à beira de um estopim ele vem germinado em outro poema, que em breve trarei para cá - ambos escritos no mesmo dia. Bom, não é segredo que estou a mais de quatro meses sem escrever um versinho que seja, então, para celebrar esse tempo passado, onde havia fartura, resolvi publicá-lo.

.....São, sem dúvida, tempos de vacas magras. No entanto, uns ventos bons sopram por aqui. Estou rascunhando um poema sobre a menina que foi trancada numa cela masculina, o caso de Abaetetuba, no Pará.
.....Essa história me assustou, com todos os seus contornos sádicos, com todas as opiniões sinceramente fascistas que vem despertando na imprensa, no seio de setores da sociedade abertamente repressivos. Tudo isso me chocou demais. É uma dessas coisas que nos tira o sono. Creio que o próximo post seja uma parte do poema, que tudo indica serão três!

.....Agradeço a todos as visitas, os comentários, o carinho! Abraços fraternos!



XLV
14/12/03


Beijos vãos em bocas pálidas
abrem em meu peito fendas e vãos.

Desejos plásticos, amores de cilício,
necessidades virtuais...

Beijos elétricos vão e vêm pelos fios óticos


num turbilhão de trojans:
vazam informações em um frio gozo,
milhares de bits escapam...

(Até que dure esse amor,
ou nos desconectemos para sempre


ou outro servidor, eu digo que te amo.)

Enquanto isso,
crianças virtuais aguardam,
armazenadas em discos rígidos,
até que tenhamos úteros sintéticos


ou as impressoras digam amém!




*

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Memórias à Beira de um Estopim

*
Marc Chagall - La caduta di Icaro, 1974
*


POEMA XXII
29/08/03

Funerais para a Poesia, viva! Enterro em caixão vazio. “O corpo se perdeu na correnteza”, dizem os homens do resgate. “O corpo? Destroçou na explosão!”, afirmam os peritos policias. O povo:
– O pouco juízo do concreto lhe baratinou as idéias.
– Ter nascido lhe estragou a vida...
Funerais para a Poesia viva! Cemitério vazio, epitáfio em branco. A Poesia morta não se cravou no mármore frio de sua própria lápide – nem, nas estrelas, foi descansar em paz. Ela atormenta-se no limbo escuro. (A utopia celeste, atômica, a massa de hidrogênio a nauseava.) Cemitério vazio: sem um único sussurro de um orador.
Um dia, ela bate em nossa janela e diz: “Voltei”. Daremos ela por assombração barata, e zás: lá vai ela de novo erguer seu vôo de Ícaro e quedar como Ismália.
Pronto, lá vai ela!




*

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Considerações a Respeito de um Homem Nu, em 1926


George Grosz - Os Pilares da Sociedade



Há alguns anos minha avó veio morar conosco. Costume antigo, sempre está contando algumas histórias, que traz fresca na memória. Todas repletas de matéria-prima para crônicas nostálgicas ou papos descontraídos em mesa de bar.

Vivendo em fazendas, ou em pequenas cidades do interior de Minas, fala de como sua avó fora laçada numa tribo de índios – não recorda o nome da tribo ou o estado onde ocorreu o fato; fala de como certa vez fora levada com suas irmãs para a cidade para verem o espetáculo do acender dos postes. A tecnologia, então, consistia numa lamparina movida a querosene e o protagonista da cena um homem qualquer, que vinha acendendo lâmpada por lâmpada, iluminando o caminho.


Recorrente em seus assuntos é uma porção de revoluções que ela presenciou. De repente chegavam homens, ninguém sabe de onde, nem servindo a que propósito, e levavam os jovens para lutas em outros cantos. Ela nunca mencionou se esses voltavam esfarrapados, mutilados ou se não voltavam nunca. Tampouco isso vem ao caso.


Era menina, e a década provável os anos 30/40. Penso sempre que batalhas poderiam ser essas, travadas nesses confins do mundo, onde a vida era completamente diferente da contada nos livros de história e nos almanaques de farmácia. Por aqui a bastilha ainda não havia caído, a Rússia sequer existia, e Napoleão, que tinha banhado o mundo com sangue, poderia tanto ser uma lenda mitológica como um santo católico.
Quase sempre concluo que se trate de disputa de fazendeiros – coronéis donos do mundo – lutando pela expansão de suas propriedades, ou promovendo um rotineiro massacre nos latifúndios vizinhos. Uma dessas aventuras, é certo, se trata da segunda Guerra Mundial. Essa, devidamente documentada, passou em sua Macondo recolhendo as motos e os veículos que supostamente seriam enviados para a Europa. Meu avô tivera a sua motocicleta confiscada. Se ela fora para a Europa servir de cavalo motorizado para as tropas aliadas ou se ficou nas mãos de algum burocrata, passeando nas ruas da capital, não é possível saber.


Porém, nenhuma dessas histórias me tocou mais que a saga de Mané Pelado. Num momento em que a ordem do dia consistia em buscar lenha nos campos repletos de cascavéis e cuidar das criações, alvo constante dos predadores naturais e das intempéries da natureza, a paz estabelecida era quebrada pela figura esguia, completamente nua, que ficava rodeando as casas e ao primeiro sinal se lançava às matas e sumia.

Por um descuido, pode parecer que estamos falando de uma assombração, que naquela época realmente existia aos montes. As histórias de lobisomem, de extraterrestres, são um caso a parte. Mané existia mesmo e tudo indica que era um louco, fugitivo de algum lugar, ou, em outra hipótese, um abandonado pela família que sobrevivera comendo raízes, roubando ranchos, capturando pequenos animais.

Mas quem era esse ser que costumava invadir as casas quando todos saíam para a colheita, ou à pesca, para beber o leite recém ordenhado? Quem seria esse homem que aproveitava os descuidos para invadir as residências, comer o pão, beber a pinga, tirar um cochilo em cama quente? Seria uma vítima dessas revoluções, com a sanidade ferida em combate diante da visão do holocausto? Seria um pensador, que um pouco atrasado, mas sozinho e com os recursos que possuía, percebera que a vida que se levava nas cidades era um câncer e o mundo caminhava para o abismo?


Conta a minha vó que, certa vez, sua mãe ao notá-lo se esgueirando nas imediações da casa atirara nele com a carabina. Ele saindo em fuga, para voltar no outro dia, é uma imagem que me impressiona muito.


O que foi feito dele, ninguém sabe. Por certo, onde caiu morto ficou até que a natureza encarregasse de consumi-lo. Encontrado por caçadores, talvez tenha sido enterrado na beira de algum riacho, num túmulo coberto de pedras que o musgo engoliu. Em última instância, pode-se crer que tenha recobrado a lucidez e retornado para casa, onde filhos e mulher já haviam se esquecido do luto.


No mais é isso, ficando cada um com o fim que mais lhe apetecer.





*

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

ENSAIO

Tela de Nelson Magalhães Filho

***


Sobre a poesia contemporânea, parte 1


Não é de hoje que a poesia tem se distanciado do público leitor. Não bastasse vivermos num país que pouco lê, há ainda, por sua vez, uma onda de poetas tomados de aversão ao leitor. O problema é sistêmico. Não há verbas para educação. Para a cultura, muito menos. A iniciativa privada, iletrada, dotada da visão mais selvagem do capitalismo, está disposta a colaborar em troca de lucros, de marketing, de maior visibilidade diante da opinião pública. A poesia que não vende, que não pode ser alvo da mais-valia, vai perdendo espaço para a auto-ajuda, sobretudo a místico-empresarial, para a vernissage produzida sobre encomenda para a coluna social – abstratos prêt-à-porte, enfeites para sala e cozinha; reminiscências pequeno-burguesas sobre os ares da Dysneilandia, e a exaltação do estado de tolerância zero nas mãos de Rudolph Giuliani.

O apego formal, a busca de uma construção rigorosa, a abolição dos sentidos, do discurso, são partes importantes no processo que está em curso e que visa tão somente expulsar a poesia da vida das “pessoas comuns”. A poesia deixou de dizer algo, para se tornar algo. Artigo de luxo, incompreensível, que tem por finalidade ser objeto de admiração para iniciados. Numa sociedade que abole o lúdico e que trancou Dionísio no porão, a poesia feita de poetas para poetas é um experimento laboratorial com um fim em si mesmo. Não serve para nada, a não ser como experimento laboratorial.

O que mais soa constrangedor nessa pretensa “nova poesia” é a aura que se defende de novidade. Não há nada de novo no front. É, quando muito, mais um retorno ao passado clássico, como houve com o Arcadismo, com o Parnasianismo, com a Geração de 45, e assim por diante. Hoje, o foco escapa “do que se diz” sendo de importância apenas “como se diz”.

Por outro lado, é bom ressaltar que não se trata – não nos enganemos – de um culto ao hermetismo de Salvatore Quasimodo ou Marllamé. Ainda que haja, sobretudo a respeito de Marllamé, uma enorme veneração, essa safra de poetas está mais próxima do acaso criativo de Jackson Pollock. Marllamé, como já foi devidamente observado por José Lino Grünewald, era antes um “autor exigente” a um “autor difícil”. O que temos no ar viciado dessa nova safra são autores apenas difíceis. Não possuem o trabalho de signos de Marllamé, muito menos a lapidação que possa revelar a idéia escondida no fundo do poema. Grosso modo, a estética – dos cosméticos – impregnou as páginas dos livros.

Retirar os méritos do Concretismo, por exemplo, ao ambicionar expulsar o elemento discursivo da poesia não é o caso. Até mesmo porque há, nessa ousadia, um momento onde o verso foi repensado. A possibilidade do debate, a abertura da discussão é sempre válida. Sobretudo no tempo onde impera a visão unilateral da mídia e a exaltação do monologismo dos sectários. Mas crer que a experiência concretista é o modelo único e correto já é outra coisa. Filiando-se a uma tradição de pensamento, o autor estará, por sua vez, excluindo as possibilidades de outras tradições. A experiência de vanguarda, nesse caso, é ainda útil e legítima, desde que diluída, assimilada a outras possibilidades.

O mundo é novo a cada segundo. A velocidade das mídias, o intercâmbio de culturas só exigirá uma poesia nova, que esteja a par de tais mídias e compreenda a dinâmica desse mundo. Mas o que se tem é uma poesia artificial, que flutua dentro de uma bolha de isolamento, respirando apenas nas páginas dos dicionários, nos manuais de transgressão etimológica. Já é mais que sabido que a “poesia destituída da realidade social não vale mais que um saco de alpiste”, como já foi dito no Manifesto Potencialista.

A incapacidade de compreender o mundo, ou o que Marx chamaria de auto-alienação, pode explicar essa onda de poetas que acreditam que Fukuyama estava, em absoluto, correto ao decretar o fim da história. O mundo está pronto e compreendido e o capitalismo já é um estado permanente e irreversível. Resta então, para esses, uma poesia que não esteja vinculada com o que acontece a sua volta, posto que nada, em tese, acontece.

Convén voltarmos a Marx, que demonstra que não basta, por sua vez, simplesmente interpretar o mundo, e sim modificá-lo. Mas isso já seria pedir demais para uma geração que voltou ao vaso grego, vazio.


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terça-feira, 23 de outubro de 2007

PÃO E POESIA: Injeção de poemas, nas artérias da realidade


“A revolução trará não somente direito ao pão, mas também à poesia”
Trotsky



Camaradas, Diovvani Mendonça, do blog Poeminhas para matar o tempo e a dor de dente http://www.diovmendonca.blogspot.com/ está a frente de um projeto muito bacana, que se chama Pão e Poesia.
O objetivo deste é publicar autores novos, nos saquinhos de pão - o cliente que habitualmente compra o seu pãozinho levará de brinde um poema. A loucura circulará inicialmente na cidade de Contagem, na grande BH, com tiragem de 300.000 embalagens! É bacana ou não é?


O movimento recebeu adesões importantes. Há uma forte participação de autores portugueses, que levarão a idéia para as padarias lusitanas.

Quem sabe o próximo passo não seja lutar para incluir livros na cesta básica?

Interessados devem enviar os seus poemas para seleção - até 30 de novembro - para o seguinte e-mail: pao.poesia@yahoo.com.br

Abraços e bom café da manhã a todos!


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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

COMERCIAIS DE METRALHADORA

Maurice Vlamick - Restaurante


Meus camaradas, está no ar a nova edição da revista Germina que trás uma seleção muito significativa de meu novo livro "Comerciais de Matralhadora". Poemas inéditos, aliados a imagens fortes. Aliás, a revista sempre foi impecável no quesito artes plástica! Estou muito satisfeito com o resultado! Visitem, tragam as suas impressões aqui para as nossas trincheiras! Abraços!



http://www.germinaliteratura.com.br/l_rafael_nolli.htm








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quinta-feira, 6 de setembro de 2007

ESPARSOS EM MAIO DE 2003

tela de Dino Valls - Retablo Grávido

1

Vencendo barreiras e himens,

galgando distâncias e reentrâncias,


superando obstáculos, seios e vaginas,

plantando pênis, semeando porra:


o sexo de ontem faz os homens de amanhã.


2

Elaborando idéias e césio 137,

construindo bases aéreas e área 51,


demolindo pastos, homens e culturas,

plantando urânio, napalm e tecidos bacteriológicos:


o imperialismo de ontem faz os revoltosos de amanhã.


3

Refugiados em florestas, haxixes e cocas,

escondidos em escombros, fuzis e desertos,


falando o latino, o soviético, o molotove,

arando terra invadida, amolando foices no escuro:


todos os caminhos que nos separam da liberdade

passam pelo cabo Horn.


4

Carregando trouxa de roupas e embargos econômicos,

superando estiagens e dívidas externas,

nós prosseguimos nos fechando.


Levando compras e ordens,

vivendo de especulações, inflações e salários mínimos,

nós prosseguimos nos escondendo.


E não haverá casa, muro ou vala,

não restará refúgio, guetos ou exílios:

e nós prosseguimos atados por correntes e nós.





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