domingo, 22 de junho de 2008
Variações sobre um mesmo tema
sexta-feira, 2 de maio de 2008
A Casa
A casa
Dos homens que a ergueram
não restam sequer testemunhas:
um pó de memória que seca a garganta.
De como retiraram o barro das distâncias
e o emularam em célula não restou a sujeira
nas roupas ou o câncer que os consumiu.
De como em fornos cozinharam os miolos
e o caldo das montanhas, nada sobrou:
talvez uma cratera que junte água salobra
ou uma ficha em arquivo de manicômio.
De como chegavam em casa –
felizes por ainda terem os dentes na boca –
nada se sabe. Se há quem o recorde,
não há de dizer algo que valha.
De como suportavam as horas
tendo um copo de lágrima
e um cão para lamber as feridas das mãos
coisa alguma se relata –
ninguém anotou nada em lugar nenhum.
Por certo, os filhos dos que a ergueram
virão derrubá-la.
Disso, todos são testemunhas.
*
sábado, 12 de abril de 2008
Coletânea Trilhas
2) Recebo essa semana a coletânea Trilhas, organizada pela Loba (Euza Noronha), querida amiga virtual, poetisa atuante que tem se revelado uma editora muito competente. Nesse livro se encontram três poemas meus, dois dos quais já configuraram por aqui. O outro, inédito até então, eu publico hoje.
Ps: Abraços a todos, e obrigado a Loba pelo convite. Parabéns pelo belo trabalho!
como se lê todos os dias nos jornais –
só para vê-la voar desesperada, sujar o chão
e menstruar a cara de merda dos passantes
___________e suas blusas impecáveis.
Se eu não te amasse, te sufocaria com o travesseiro
(seria perigoso dormir comigo). Te picaria
com a faca cega da cozinha. Pela noite,
prepararia uma travessa de yakisoba
__________e me tornaria canibal.
Se eu não te amasse, te atormentaria amiúde.
Faria com que Hitchcock dirigisse os teus
pesadelos. Te acordaria com sussurros de so-
cos no ouvido – se eu não te amasse,
__________seria isso que eu faria.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Balada do Cárcere
Ópera-rock sobre o Cárcere de Abaetetuba
3 – os detentos
Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu couve.
Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.
Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos
– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.
Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas
– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.
Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.
Aqui o sol é o mesmo para todos,
e o interruptor o apaga.
*
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Balada do Cárcere
Ópera-rock sobre o Cárcere de Abaetetuba
Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.
(O trânsito é um problema que o incomoda:
busina, semáforo, lhe tiram do sério.)
Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.
(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)
Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.
(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)
Nada perturba o seu sono.
*
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Balada do Cárcere
1 – os fatos
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
ORAÇÃO
Tela de Robert Rauschenberg26/12/03
... nessa manhã amena, a felicidade está no trabalho que escraviza; o orgulho, na marmita cheia; porém possível apenas por duas breves horas de descanso e piada: arroz, feijão e quem sabe um bife...
... nessa manhã amena, Cristo está no estômago, fermentando em meio à hóstia mastigada ontem; amanhã, estará ele rodando no córrego do matadouro, em um curso que, dificilmente, encontrará o mar...
... nessa manhã amena, com ordem de supervisor, enxada, arroz com feijão, dai-nos sempre, senhores, essas duas boas horas de descanso e arroz com feijão, amém...
*
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Memórias à...
Imagem de Man Ray.....Camaradas, escrevi esse poema no dia 14 de dezembro, a quatro anos atrás. No livro memórias à beira de um estopim ele vem germinado em outro poema, que em breve trarei para cá - ambos escritos no mesmo dia. Bom, não é segredo que estou a mais de quatro meses sem escrever um versinho que seja, então, para celebrar esse tempo passado, onde havia fartura, resolvi publicá-lo.
14/12/03
abrem em meu peito fendas e vãos.
Desejos plásticos, amores de cilício,
necessidades virtuais...
Beijos elétricos vão e vêm pelos fios óticos
vazam informações em um frio gozo,
milhares de bits escapam...
(Até que dure esse amor,
ou nos desconectemos para sempre
Enquanto isso,
crianças virtuais aguardam,
armazenadas em discos rígidos,
até que tenhamos úteros sintéticos
*
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
Memórias à Beira de um Estopim
29/08/03
– O pouco juízo do concreto lhe baratinou as idéias.
– Ter nascido lhe estragou a vida...
Funerais para a Poesia viva! Cemitério vazio, epitáfio em branco. A Poesia morta não se cravou no mármore frio de sua própria lápide – nem, nas estrelas, foi descansar em paz. Ela atormenta-se no limbo escuro. (A utopia celeste, atômica, a massa de hidrogênio a nauseava.) Cemitério vazio: sem um único sussurro de um orador.
Um dia, ela bate em nossa janela e diz: “Voltei”. Daremos ela por assombração barata, e zás: lá vai ela de novo erguer seu vôo de Ícaro e quedar como Ismália.
Pronto, lá vai ela!
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Considerações a Respeito de um Homem Nu, em 1926
Vivendo em fazendas, ou em pequenas cidades do interior de Minas, fala de como sua avó fora laçada numa tribo de índios – não recorda o nome da tribo ou o estado onde ocorreu o fato; fala de como certa vez fora levada com suas irmãs para a cidade para verem o espetáculo do acender dos postes. A tecnologia, então, consistia numa lamparina movida a querosene e o protagonista da cena um homem qualquer, que vinha acendendo lâmpada por lâmpada, iluminando o caminho.
Recorrente em seus assuntos é uma porção de revoluções que ela presenciou. De repente chegavam homens, ninguém sabe de onde, nem servindo a que propósito, e levavam os jovens para lutas em outros cantos. Ela nunca mencionou se esses voltavam esfarrapados, mutilados ou se não voltavam nunca. Tampouco isso vem ao caso.
Era menina, e a década provável os anos 30/40. Penso sempre que batalhas poderiam ser essas, travadas nesses confins do mundo, onde a vida era completamente diferente da contada nos livros de história e nos almanaques de farmácia. Por aqui a bastilha ainda não havia caído, a Rússia sequer existia, e Napoleão, que tinha banhado o mundo com sangue, poderia tanto ser uma lenda mitológica como um santo católico.
Quase sempre concluo que se trate de disputa de fazendeiros – coronéis donos do mundo – lutando pela expansão de suas propriedades, ou promovendo um rotineiro massacre nos latifúndios vizinhos. Uma dessas aventuras, é certo, se trata da segunda Guerra Mundial. Essa, devidamente documentada, passou em sua Macondo recolhendo as motos e os veículos que supostamente seriam enviados para a Europa. Meu avô tivera a sua motocicleta confiscada. Se ela fora para a Europa servir de cavalo motorizado para as tropas aliadas ou se ficou nas mãos de algum burocrata, passeando nas ruas da capital, não é possível saber.
Porém, nenhuma dessas histórias me tocou mais que a saga de Mané Pelado. Num momento em que a ordem do dia consistia em buscar lenha nos campos repletos de cascavéis e cuidar das criações, alvo constante dos predadores naturais e das intempéries da natureza, a paz estabelecida era quebrada pela figura esguia, completamente nua, que ficava rodeando as casas e ao primeiro sinal se lançava às matas e sumia.
Por um descuido, pode parecer que estamos falando de uma assombração, que naquela época realmente existia aos montes. As histórias de lobisomem, de extraterrestres, são um caso a parte. Mané existia mesmo e tudo indica que era um louco, fugitivo de algum lugar, ou, em outra hipótese, um abandonado pela família que sobrevivera comendo raízes, roubando ranchos, capturando pequenos animais.
Mas quem era esse ser que costumava invadir as casas quando todos saíam para a colheita, ou à pesca, para beber o leite recém ordenhado? Quem seria esse homem que aproveitava os descuidos para invadir as residências, comer o pão, beber a pinga, tirar um cochilo em cama quente? Seria uma vítima dessas revoluções, com a sanidade ferida em combate diante da visão do holocausto? Seria um pensador, que um pouco atrasado, mas sozinho e com os recursos que possuía, percebera que a vida que se levava nas cidades era um câncer e o mundo caminhava para o abismo?
Conta a minha vó que, certa vez, sua mãe ao notá-lo se esgueirando nas imediações da casa atirara nele com a carabina. Ele saindo em fuga, para voltar no outro dia, é uma imagem que me impressiona muito.
O que foi feito dele, ninguém sabe. Por certo, onde caiu morto ficou até que a natureza encarregasse de consumi-lo. Encontrado por caçadores, talvez tenha sido enterrado na beira de algum riacho, num túmulo coberto de pedras que o musgo engoliu. Em última instância, pode-se crer que tenha recobrado a lucidez e retornado para casa, onde filhos e mulher já haviam se esquecido do luto.
No mais é isso, ficando cada um com o fim que mais lhe apetecer.
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
ENSAIO
Não é de hoje que a poesia tem se distanciado do público leitor. Não bastasse vivermos num país que pouco lê, há ainda, por sua vez, uma onda de poetas tomados de aversão ao leitor. O problema é sistêmico. Não há verbas para educação. Para a cultura, muito menos. A iniciativa privada, iletrada, dotada da visão mais selvagem do capitalismo, está disposta a colaborar em troca de lucros, de marketing, de maior visibilidade diante da opinião pública. A poesia que não vende, que não pode ser alvo da mais-valia, vai perdendo espaço para a auto-ajuda, sobretudo a místico-empresarial, para a vernissage produzida sobre encomenda para a coluna social – abstratos prêt-à-porte, enfeites para sala e cozinha; reminiscências pequeno-burguesas sobre os ares da Dysneilandia, e a exaltação do estado de tolerância zero nas mãos de Rudolph Giuliani.
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terça-feira, 23 de outubro de 2007
PÃO E POESIA: Injeção de poemas, nas artérias da realidade

Trotsky
Camaradas, Diovvani Mendonça, do blog Poeminhas para matar o tempo e a dor de dente http://www.diovmendonca.blogspot.com/ está a frente de um projeto muito bacana, que se chama Pão e Poesia.
Abraços e bom café da manhã a todos!
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
COMERCIAIS DE METRALHADORA
http://www.germinaliteratura.com.br/l_rafael_nolli.htm
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quinta-feira, 6 de setembro de 2007
ESPARSOS EM MAIO DE 2003
1
Vencendo
galgando
superando
plantando
o
2
Elaborando
construindo
demolindo
plantando
o
3
Refugiados
escondidos
falando o
arando
passam
4
Carregando
superando
Levando
vivendo de
E
e
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