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segunda-feira, 22 de julho de 2013

XX

                       03/01/04

Não é o petróleo o mais valioso líquido desse planeta, tão pouco a água – mas, sim, o suor! 

Ele que se extrai do rosto e com o qual se constroem os mares onde navegarão baleias e Destroyers!



*

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Herança

Foto: Rafael Nolli

Não sei se vou dizer
em que pé caminha a esperança no fruto
                                    ainda na semente
 
ou se digo
– se devo dizer –
algo sobre a certeza nas coisas quadradas
que se estendem até se arredondarem.
 
Não sei se falo
– ainda há voz –
de equações químicas que se resolvem em silêncio
                               nos livros que nunca caducam
 
ou se conjecturo
a luta que enfrentaram os que, antes de nós,
domesticaram os grãos a nascerem
próximo ao apelo da mão.
 
Não sei se retrato a terra sitiada
de onde escapou o musgo,
            que cobre as pedras
            como uma pelagem de inverno,
ou se explico
– resta um filete de canto –
os vislumbres de um futuro próximo,
onde ainda se morre como em
             Comerciais de Metralhadora.
 
Não sei se devo
– ou se me permitem –
relatar as dificuldades dos homens nas fornalhas,
derretendo o minério que irá virar bibelô de madame
  ou maçaneta de táxi, e conto,
de mãos postas, a sua dieta fria, isenta de calorias; 
 
não sei se romantizo
os vagabundos noturnos que chamo pelo nome
ou se narro as noites em que sonho com a Poesia
 – a inevitável –
                         e acordo de pau duro.
 
Não sei se confirmo
– se é lúcido confirmar –
as verdades
sobre a ternura dos ditadores para com suas esposas
                                                                  & amigos
o carinho dos carrascos
 & torturadores dispensados aos seus filhos
    & amantes

ou se, simplesmente, me calo.
 
Não sei,
talvez o poeta esteja mudo
diante dos outdoors do apocalipse.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Resposta a um poema de Maiakóvski





Eu não sou o homem feliz que talvez exista.


“Liubliú” (Amo), poema anel de Maiakóvski dedicado a Lília Brik
- versão tipográfica de El Lissitski (1923)



 "Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz."

Vladimir Mayakovsky, citado em "Maiakovski: vida e obra‎" - Página 9, Fernando Peixoto - J. Alvaro, 1969 - 313 páginas

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O silêncio das bibliotecas

Foto: Jim nachtwey

O que pode fazer o poeta ao cantar o Sudão,
uma imensa ferida sangrando no mapa?

Ao modo das agências de viagens
teria ele a coragem de elevar a sua voz

e dizer que apesar dos seus vinte mil órfãos
fugindo pelo deserto
                  ainda há praias à serem visitadas?

Fazer como os comerciais e não mencionar
a limpeza étnica que chega ao fim
por não restar mais quem matar? –
ainda que à vontade, herança de Caim
aprimorada com a modernização da máquina
                                                  e da indústria,
                                                  continue viva.

Aproveitar a informação de que de repente cessaram
os estupros, pois não há mais quem seja violado
até a morte? –
             apesar do desejo persistir na carne
             e alimentar o sono dos homens.

Haveria o poeta de dizer que,
tirante mais de vinte anos de guerra civil,
deve-se ir conhecer o Nilo
            em sua majestosa exuberância?

Aconselhar o turista a olhar sempre para o mar,
com suas lentes digitais míopes
e suas câmeras eletrônicas desinformadas? –
            e nunca especular sobre o interior,
            onde há apenas fome e miséria

e o líquido que menos se lamenta ao ser derramado 
                        continue a ser o sangue humano.

E se o poeta não encontrar metáforas que possibilitem
versos narrando o quanto é usual e comum
decepar as mãos de quem cometa algum crime –
dentre eles o adultério e o
            consumo de bebidas alcoólicas?

(Poderia o poeta, sempre um pobre mortal, dizer:

Ó País Sem Mãos
Quem Escreverá a tua Derradeira Poesia?

e cometer o sublime erro de crer que o problema
da África possa
                        ser resolvido numa folha de papel?).

E se, de repente, o poeta não achar a frase certa,
que simplesmente dê uma pirueta estilística,
para dizer algo sobre a mutilação do clitóris,
e em seu trabalho não ser citado
                         a morte por hemorragia
                                   e a certeira infecção generalizada?

Mas como não encontrar –
há de se perguntar
com os olhos fixos no mapa –
recursos de linguagem para cantar
o ritual comum de utilizar a gilete de barbear
para extrair o prazer do meio das pernas
                                    de pequenas meninas?

Como não encontrar o tom
para cantar os pequenos
            e os grandes lábios
arrancados como pequenos bifes,
num mundo anterior ao éter e a penicilina,
acostumado ao uivo adolescente
de dor e desespero?

Como não achar um verbo enlouquecido
para colorir uma frase que fale sobre
os espinhos de coqueiro usados para costurar
e expulsar tudo o que é prazer de suas vidas?

Como não encontrar um refrão
sobre a cicatriz substituindo a anatomia humana?

Como não conseguir um mote que fale sobre
a pequena abertura deixada para escorrer a urina
                                                  e a menstruação?

E se, esquecido de sua honestidade,
o poeta se olvidar da pergunta
sobre o quanto temos de culpa nisso tudo
com nosso blefe democrático e
            nosso racismo bem comportado?

E se, desmembrado de seu humanismo,
ele se  esquecer de indagar
sobre o tamanho de nossa culpa
ao comprarmos
seus homens como carne em açougue? –
trazê-los para tornar
             nosso açúcar mais doce,
                 com a simples adição de sangue
                                              nas moendas
                        do Império do Brasil!

Talvez o poeta não possa fazer nada pelo Sudão
e sua guerra à beira das bodas de prata.

Pelo Sudão e suas toneladas de ouro e hímens,
pois as palavras não sobrevivem aos
            rios de pus que cortam o seu corpo.

É desculpas que o poeta pede
                            ao se omitir na estante.



* do livro Comerciais de Metralhadora

sábado, 3 de julho de 2010

Jesus


foto: O Caracol - Rafael Nolli

Senhor, o poema exige prudência.
Prudência. Prudência. Prudência.

Mulheres tremem ao imaginá-lo
& homens se contorcem de medo.

Se enfurecem por você. Por você são
capazes de tudo, com fúria, com ira.

Não os quero diante de minha casa
ou sobre mim, com suas tochas.

Prudência para não despertá-los
ajoelhados na primeira fila –

bebendo a palavra mastigada, encharcada,
espessa como a baba de um condenado.

2
A palavra em si trás o equívoco.
A tradução: uma sucessão de equívocos.

Abades que se excederam no vinho &
se distraíram com ilustrações proibidas;

poetas pequenos, insignificantes,
maus tradutores a serviço do estado.

Para cada povo a palavra tem um peso.
Cada uma, sua carga. Nada nos diz algumas:

estão na boca diariamente, já sem sabor,
como chiclete repetidamente mastigado.

Algumas não entendemos.
Outras, nossa compreensão estraga.

Estão feridas, cobertas de pus,
muitas sequer foram germinadas.

O equívoco (talvez!) resida no fato de
nenhuma ter saído de sua boca.

Gritam, na rua, em seu nome,
algumas que você sequer conheceu.

3
Quando criança, seu nome pichado no muro –
em neon reluzente, gritando na face das igrejas.

Quando criança, sua marca na lousa,
em adesivos no vidro traseiro dos carros.

Quando criança, sua palavra no rádio,
no pára-choque de pesados caminhões.

Quando criança, sua imagem no quadro:
no quarto de minha avó, um pouco vesgo.

Lembrava um dos generais de Hitler
ou um modelo das propagandas de cigarro.

4
Um homem melhor do que eu.
Melhor do que a maioria de nós.

(O que não é grande coisa
nem fato de extraordinária façanha)

Um homem, ouso dizer. Apenas isso.
Prudência, o poema exige. E me calo.



___
* Camaradas, esse poema inédito é o primeiro de meu novo livro. Dei por encerrado o Comerciais de Metralhadora, que ficará na gaveta com metade dos poemas inéditos, aguardando alguma chance real de ser publicado.

News:
* A Revista Diversos Afins completa quatro anos! Acompanho mensalmente a Diversos e tive o prazer de ter um poema nessa edição comemorativa! Sinto-me orgulhoso de fazer parte dessa história! Só me resta agradecer aos amigos Fabrício Brandão e Leila Andrade!
Quadragésima sexta leva – especial de aniversário (4 anos): CLIQUE AQUI

* Aliás, também estou na edição comemorativa de dois anos, vale à pena conferir, com certeza:
Vigésima quinta leva – especial de aniversário: CLIQUE AQUI

*

domingo, 23 de maio de 2010

Legenda para filme de Sergei Eisenstein

foto de Rafael Nolli



O poema tem que ser ácido,
não por mim,
mas por Sacco & Vanzetti –
sentados em cadeiras onde serão eletrocutados.

O poema tem que ser ferino,
não por mim,
mas pelo Líbano novamente bombardeado –
e que será bombardeado até que os telejornais
se cansem de noticiar a desgraça dessa guerra.

(Que o verso noticie as crianças confusas,
as bibliotecas cheias de poesia,
as mulheres agarradas às barbas de Maomé,
os cedros cantados pelo profeta Ezequiel –
todos excluídos das estatísticas,
pois suas mortes foram desprezadas
por não venderem jornais
e atrapalhar o comércio bélico.)

O poema tem que ver além do seu próprio umbigo,
não por mim,
que muito sei do meu umbigo,
mas por todos aqueles que amanhã
acordarão desesperados –
eu e meu umbigo entre eles.

O poema tem que ser denunciante,
não por mim,
mas por Ruanda
que na Noite dos Facões
perdeu um milhão de seus filhos
para uma fábula belga
sem príncipe encantado ou final feliz.

(Que no poema escorra o sangue dessa gente
que ainda ontem estava viva,
donas de suas mãos e
cabeças decepadas pelos vizinhos,
onde buscavam o sal
que faltava para colorir as suas mesas escassas.)

O poema tem que ser visionário,
não por mim,
que mal posso ver além das brumas do agora,
mas por todos aqueles que mesmo vendados continuam
sem dosar os passos no campo minado das cidades.

(Que o poeta saiba cantá-los
sem se esquecer dos
crimes diários que a sociedade obriga-os a cometer
[Bakunin sorri nessa estrofe!])

O poema tem que ser dos homens,
respirar o mesmo ar que eles,
chorar os mesmos mortos,
estar ombro a ombro nas filas dos hospitais
ou nas trincheiras do desemprego,

não por mim, poeta, não por mim.



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Mais poemas por aí:


* Estou na Revista Biografia do amigo Daufen Bach

* Novamente na bela Revista Letras Et Cetera

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