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quinta-feira, 21 de março de 2019

Um Poema Sobre Gatos


1
todo poeta deve escrever
(ao menos uma vez na vida)
um poema sobre gatos
mesmo que não os tenha por ignorância
mau-caratismo ou alergia

não confundir com escrever poemas felinos
que isso sequer existe:
felino só pode ser o gato
ou os seus primos selvagens
(a onça, a jaguatirica, o leopardo)
& um poema é um poema é um poema
e nada mais

2
todo poeta deve escrever
(ao menos uma vez na vida)
um poema sobre gatos:
para isso, deve buscar as melhores palavras:
toxoplasmose, descarta-se de imediato
(não há espaço aqui para blasfêmias)

preferível citar garras, caixa de areia
ronronar, bola de pelos
língua áspera, passarinho:
na falta de inspiração
cogitar usar um rato como antagonista
ou uma menina solitária como companhia

3
todo poeta deve escrever
(ao menos uma vez na vida)
um poema sobre gatos

ao fazê-lo que não cometa o disparate
(a heresia)
de compará-los aos cães
ou aos ladrões sorrateiros

se for cometer esse sacrilégio
que o faça em um livro de prosa
e deixe a poesia fora disso



.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Achados & Perdidos

{...}

E as artimanhas do Destino ficam explícitas ao se analisar o contexto.

Funciona assim: um dia, uma mulher caminha pelas fileiras de um sebo. Os livros estão lá, esquecidos, surrados pelo tempo, cobertos de pó de diversas eras[1]. Há quem os compare com vinhos envelhecendo, maturando o sabor & a cor – outros, com a cachaça calibrando a embriaguês.




No meio de milhares de obras, a mulher puxa um exemplar aleatoriamente. Aquele não é o título que ela estava procurando – pega-o por impulso. Aquele não era o volume que lhe tirou da cama de manhã e a fez sacolejar em duas conduções – pega-o instintivamente, como fizera com outros dois volumes,
               duas prateleiras acima,
               dois minutos atrás.
                                          
Dessa forma, o Acaso coloca em suas mãos o livro que ela havia emprestado e que tinha simplesmente desaparecido. Depois de décadas sem paradeiro conhecido, depois de décadas de ostracismo & silêncio, ele está novamente diante dos seus olhos, como um amor do passado que se revê na fila do supermercado.




A história é simples. O que nos basta aqui é perceber como a Roda do Destino[2] agiu secretamente. Como o Destino arquitetou lentamente esse reencontro, sem pressa, semelhante a um assassino aguardando a poeira abaixar para voltar à cena do crime. Pode-se resumir tudo em dois excertos, pois a trama exige pouco para ser exposta.

O livro emprestado
– com a garantia de ser devolvido em breve –
foi passado adiante.   De mãos em mãos, seguindo sem rumo, até cair nos domínios de alguém que viu uma oportunidade de ganhar uns trocados vendendo-o. Para inocentá-lo, podemos imaginar que o cidadão pretendia salvar o almoço e garantir uma ida ao cinema. Aquele livro, imaginemos, deve valer algo!




Ou podemos imaginar, já que tudo nos é permitido, que ele misturou aquela obra a outras obras que achava ser de sua posse. 

O divórcio
           – ou viagem inesperada para assumir um cargo – obrigou-o a se desfazer de diversos pertences. Aquele livro foi só mais um, entre tantas coisas que foram deixadas para trás.

Por que não inocentá-lo? Reencontrar essa obra, tanto tempo depois, não é melhor do que tê-la em casa? Reencontrá-lo, não é a maior garantia de que ela deverá relê-lo?

O pior dos esquecimentos é deixar um livro fechado, não lê-lo. O livro fica lá, alimentando as traças[3].




Podemos imaginá-lo (o livro perdido!) em uma caixa com outras dezenas de obras, seguindo por caminhos tortuosos, no porta-malas de um fusca;

depois, imaginá-lo por dias em um depósito escuro aguardando triagem;

imaginá-lo deixado em uma pilha de obras variadas, sendo manipulado por dezenas de curiosos, anos a fio.

Assim, vencida as etapas de seu calvário, acabaria entre os itens promocionais, onde seria finalmente resgatado.

O livro de volta às suas origens, como que cumprindo um ritual. Como que fechando um ciclo.[4]

{...}




ps
Trecho do livro Achados & Perdidos
Rafael Nolli
ps 2
Ano que vem o livro deve ser publicado: 
ps3
No original, a diagramação, não é exatamente essa.




[1] “desfilam ante meus olhos títulos maravilhosos moribundos de tanto estar nas prateleiras”. Angélica Freitas, Rilke Shake. Nota da revisora.
[2] Sobre o Destino aqui mencionado, um adendo: As moiras (em grego: Μοῖραι), na mitologia helênica eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Nota do Autor (descaradamente um Ctrl C, Ctrl V no Wikipedia).
[3] Lepisma saccharina, o terror dos sebos e dos bibliófilos. Nota do editor, de novo.
[4] O Eterno Retorno, Friedrich Nietzsche: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar”. Nota do Autor.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ontem




como se uma catástrode
de proporções globais
tivesse acontecido


porém só em mim



10/01/18

sábado, 21 de outubro de 2017

Brigada de Infantaria Paraquedista

 
O paraquedista - colagem de rafael nolli
1
lançados a mais de mil pés
eram abatidos como aves
           por uma .50

os que aterrissaram no mar
(+ da metade deles)
só foram devolvidos
– & em partes – dias depois:
monte de trapos
parcialmente devorados

outros, de sorte semelhante
terminaram dependurados
– como marionetes –
na copa das árvores
nos fios de alta tensão

2
por três dias combateram
aqueles poucos que restaram

até tomarem a praia (com um nº
considerável de novas baixas)
– bravura! coragem! –
& fincarem bandeira na terra conquistada
   /ensanguentada

eram tantos os abutres
– em volteios lá no alto –
que fazia sombra sobre o cenário

3
o dia todo comemoraram
com canções
& um banquete feito de saques
/pilhagens

não sabiam ainda
– & não haveria como saber –
que sucessivas derrotas
– nas demais frentes de batalha –
havia colocado fim ao combate


Rafael Nolli
07/10/17






domingo, 30 de julho de 2017

Prosa Poética




Há um chapéu azul pousado na coifa
                 no meio da mesa esquerda



 

Se eu dissesse Quarto, mesmo que o texto a seguir viesse com uma retórica extensa sobre o assunto, ainda ñ entraria na mente das pessoas esse objeto Quarto: pequena palavra isenta de cadeira, cama & computador. Ainda que impregnasse as frases de metáforas salientes, ñ caberia na seca palavra Quarto o sentido que sustento sem sucesso: e que é de fato o Quarto que quero dizer ao escrever a pobre palavra Quarto.

A sublime silhueta desse cômodo ñ se espelha na elegância singela do Q, na volta córnea do U, no desáiner totêmico do A; ñ se espalha na postura perversa do R, no corte duro, quase simbólico, do T, no redondo marcial, eterno, do O...

O aspecto sensível da palavra Quarto, espécime de cardiograma de ladrão perante o cão raivoso, desenho de serra q se finda em mata selvagem – ou descampado vastíssimo – ñ recobre o substantivo das curvas certas & das retas necessárias que remetam quem lê ao aposento Quarto in extremis ou de profunddis...

Mesmo que a ceife em letras & espalhe por esses fragmentos intensos relatos de profundidade, arquitetura & aerodinâmica, ainda assim dizer Quarto seria o mesmo que dizer um palavrão, uma palavrinha, uma única & solteira letra-soldado, excluída de seu exército – ou ñ dizer merda nenhuma.

Mesmo que triture letra por letra & crave em seu lombo cada curva de teto, cada trecho de sina transcorrida entre quatro paredes & um guarda-roupa, ainda assim o que sairá serão letras impregnadas da intenção de levar a mente do leitor a certo cômodo onde se convencionou dormir,

  fazer amor &

   cochichar os que amanhã acordarão mortos.

Ainda q grite Quarto!, alguém há d ouvir – alguém mais distante – Quanto?, Quatro?, Fato?, Ato?, Ô?, & responder:

“Acho q sim!” ou “Talvez ñ!” & fique o dito pelo ñ dito.

 

Nunca exija d um poeta versos d amor!

 







Prosa Poética



Fragmento retirado de um e-mail falso
                                                Para Wewerton (Caim)




Quem virá me salvar? Quando? E como? As preces se perdem: o deus-cavalo saxão ñ compreende minhas psicopatologias: quem vem, herói ou vilão, Jesus ou Judas, reerguer-me da briga que se arrasta pelas ruas e que tem sido a minha vida: quem vem, & como, levantar-me de uma queda que se eterniza no impacto com o chão: levantar-me de um tombo fatal, sistêmico: caio, cai minha sanidade; caio, despenca meu juízo.

Pensei, ontem, em dizer uma palavra mágica, que guardo há muito, que destruiria todas as coisas (voaria antes, eu vislumbrei isso, como o Enola Gay voou [em seu útero um ovo] por sobre as cabeças sem chapéu dos homens); pensei ontem, verbo mágico se debatendo em meus dentes em cela, que essa palavra seria ouvida nos manicômios como um chamado insano à realidade (isso se denomina poesia!).

Quem, quando & como virá, se é que se pode, se é que se efetiva, destituir-me da minha dor, levá-la de mim? (Como se leva uma pluma muito leve / levá-la como se leva o rosto ao soco / como se lava o sangue das mãos após a carícia dos estúpidos / como se conduz às vísceras o cabo da faca...]).

Quem poderá, dos Elíseos ou dos Umbrais, separar-me de meu medo, desencravá-lo de mim? – adestrá-lo, deixá-lo dócil como um lobotomizado a passear sem poder algum em meio aos meus pensamentos sem que os transfigure em verde, sem que os potencialize em dor & os converta em dúvida? Quem? Quando? Como?








sexta-feira, 28 de julho de 2017

Músicas

Iniciei uma parceria com Dino Soraggi: até o momento temos 6 músicas concluídas! 
Rafael Nolli e Dino Soraggi

sábado, 17 de setembro de 2016

Gertrude Sabe Tudo

Amigos, meu livro Gertrude Sabe Tudo foi lançado! Pode ser comprado no site da Editora Gulliver ou nas principais livrarias do Brasil! Trata-se de uma história infantojuvenil, ilustrada por Gutto Paixão.

Sinopse:

A história de Gertrude não começa com o clássico “Era uma vez”... Não há nenhuma princesa perdida, nenhum sapo para virar príncipe... nada de bruxas, boas ou más. Também, a narrativa da Menina que Sabe Tudo, não termina como nos contos de fadas. Mesmo assim, e talvez por isso, ela mereça ser contada.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Primeiros contatos


um dia uma senhora me disse:

“você deve lavar as costas das mãos
e tomar banho todos os dias
senão nasce couve atrás de sua orelha!

faça isso sempre
mesmo que água esteja fria ou molhada!”

“a velha está gagá”, os meninos diziam
os adultos afirmavam: “é mal de Alzheimer!”

para mim
foi o primeiro contato com a poesia



quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Sexo Oral


"O Sonho da Mulher do Pescador"
Hokusai 1760-1849

1
de tudo que vi naquele dia
nada me recordo além
de um pequeno pedaço de papel higiênico
– talvez menor que uma parada de ácido
ou do mesmo tamanho –

preso na umidade da virilha
recém depilada

2
de tudo que vi naquele dia
nada me recordo além de que
havia uma pequena colina
– já cartografada anteriormente –
que se abria para uma ravina
margeada por vegetação esparsa & rala:
ali um arroio secreto fluía
havia sede, na tarde quente

3
e que depois de vencer a escalada
– uma escarpa suave –
descansei no topo conquistado

e toda a terra – então –
foi sacudida por intensos tremores [1]







_________________________________________
[1] Nota de rodapé

de tudo que vi naquele dia / nada me recordo além de que / seu beijo era salgado / – como havia de ser – / e que tinha o gosto do meu pau



*

sábado, 14 de novembro de 2015

Homenagem na XIII Feira do Conhecimento

Essa semana, fui homenageado na XIII Feira do Conhecimento do Colégio Atena, Araxá, MG. 

Alunos de 4 anos, em fase de alfabetização, trascreveram e ilustraram meus poemas. Também fizeram um retrato meu, com colagem em EVA. 

O melhor em tudo, essa é a turma do meu filho, Eduardo. Ele ficou absurdamente empolgado com os poemas, que foram escritos para ele, sobre temas que ele gosta: dinossauros, zumbins, etc.

O estande estava lindo demais, com exposição dos meus livros. Imaginem só o temanho da minha felicidade.

Algumas fotos a seguir!











segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Paraíso

Colagem Paraíso. Rafael Nolli


1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do cosmo

nenhum dos dois sequer suspeitou
terem contemplado o paraíso

2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol escorrerá
sinistro & pesado, dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é vale & vento

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome & sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral



15/08/15



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Leitmotiv


¿que fazer com tão vasto dicionário
– repleto de palavras duras
– de ódio –
dessas que insuflam catástrofes
colocam matrimônios por terra
azedam festas de fim de ano?

¿que fazer desses socos
– possivelmente letais –
– & nunca postos em prática –
aprendidos na adolescência
com os filmes do Bruce Lee
com o quebra-pau na porta dos puteiros?

(tanto ódio guardado

& ninguém digno de merecê-lo)




*

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Exercício de semântica



Uma calda espessa escorre
apagando a paisagem
o estranho molho molha
a cauda do camundongo
a fachada da sede do AA
a sede do camelo no Saara
a estampa do tecido do tudo
até que não sobre nada sobre nada


Faço um acordo com os deuses do sono

e acordo







*