domingo, 11 de maio de 2014

A mãe de todos os homens

Cenas do templo de Ninhursag - arte sumeriana

O anúncio que leio sobre você não me diz nada
a respeito de suas felicidades domésticas:
é pequeno aviso para quem se habilite a chorá-la
até que as lágrimas salguem o café
ou que suspiros mais pesados
sempre uma ponderação
             sobre a nossa própria morte
apague todas as velas
e não reste nada a fazer além de sepultá-la.

É sucinto esse papel – que amanhã
irá embrulhar pernil e asa de frango –
ao convocar todos para o seu enterro:
sua mais importante data, a única que mereceu
ser impressa e divulgada (provêm disso
o batom nos lábios para receber as visitas
e o sapato novo,
agora incapaz de incomodar seus calos
                                             e joanetes).

Nada fala ele sobre as suas vitórias cotidianas –
a força com que suportou as surras do marido,
que vinha a cada dia com a mão mais dura e calosa:

os beijos alcoólicos
            que nunca lhe deram um orgasmo.

Nada fala sobre sua heróica forma de agüentar
a fome de seus filhos, comendo a terra da parede
os vermes e as lombrigas exaltadas
diante das propagandas da Coca-Cola
                                   & do Mac’lanche Feliz:

a lágrima nos olhos
            contrastando com a sede das bocas.

Talvez, em outra época,
no colo do socialismo,
seria uma estátua sua que ergueriam hoje na rua.
Essa mesma rua que tem o nome
de alguém que não lhe diz respeito
que lhe rouba um pouco por dia
               nos impostos, nas contas de luz     
                                                 e de água.

Uma estátua seria o seu destino
por arrastar cinco filhos
que nasceram um nas costas dos outros:

e lhe arrancaram com os dentes o bico dos seios;

– e lhe desgraçaram o ventre e as costas
            como a um campo cansado de produzir;

– e lhe tornaram velha antes do tempo
            com saídas noturnas, brigas de canivete
            notas vermelhas no boletim;

– e lhe adoeceram em doses homeopáticas
            ao se tornarem, a cada queda
            o pai que tinham, propenso a discórdia
            e ao grito incivilizado.

Nada me diz sobre a sua luta habitual
essa miserável advertência que me chega às mãos
que leio antes de correr os olhos
             pelas notícias do futebol
                        e a seção de quadrinhos.

Nada sei sobre o modo que lidou
com os amores de seu marido:
as damas do baralho
            e as senhoras dos prostíbulos
que comiam o pão de seus filhos
ou trocavam o leite extraviado
            por uma dose de Dry Martini.

Assim como nada sei sobre a sua resignação
ao lidar com seus próprios amores: a rádio AM,
de onde sabia dos que estavam amanhecendo presos
ou degolados e as conversas de feira
a propósito do podre na carne dos tomates
            e os mandruvás insurgentes na alface.

Se você havia depositado suas fichas no futuro
esperando uma mudança, eu pouco sabia; mal
consigo imaginá-la sonhando com algo de brusco
que finalmente inaugure
            o reino dos homens sobre a terra

(se sua aposta havia sido lançada
na faca cega da cozinha, na ingestão do mata-piolho
no salto pela janela, tampouco consigo saber).

Quase sinto o mundo
esse mundo em que vivemos
repelir você, varrendo para debaixo do tapete
sua vida feita de derrotas sucessivas –
para que na vitrine fiquem apenas
aqueles que entraram no ringue armados
donos de roteiros escritos a sangue
            lhes garantindo um futuro glorioso.

Esse papel que leio não passa de um monte
de palavras agrupadas em torno do objetivo
de esquecê-la de uma vez por todas.


Fecho o jornal e morro contigo.




* do livro comerciais de metralhadora

sábado, 10 de maio de 2014

Processos Mnemônicos



Para não esquecer:
é um poema
não como um poema de Shakespeare
algo menos formal, mais raso
tampouco inferior em ferir o tato
incomodar, mover, tirar do lugar
– às vezes um passo basta

Para não esquecer:
é um poema sobre um homem
não o canalha da capa do pasquim
boçal, babando sobre a bandeira
por certo, um homem que não existe
se existe, existe somente nesse poema
– e isso basta

Para não esquecer:
todas as estrofes abrem com a mesma sentença
(como em um poema de Lorca)
e uma palavra, uma palavra, uma palavra
as encerra, sem ponto final:
serão mesmo a mesma palavra
ou apenas fingem que são?

Para não esquecer


– isso basta

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Genealogia

Para Eduardo Martins Nolli Duarte
As raízes
1
Descendo de uma linhagem de homens que eram
chamados pelo nome do rio mais próximo
ou tomavam de empréstimo o nome de alguma árvore. 
Como ela, mantinham-se íntegros,
anônimo pelos séculos
sem registrar os seus frutos em cartório
sem adoçá-los com aspartame
enfeitá-los com códigos de barra
& impor tarifas de exportação.

Mas vieram aqueles que nos batizaram
             com as águas de um rio da Judéia;
mais tarde, com  água mineral, engarrafada,
que não era de lugar nenhum:
brotava do seio de uma máquina que subjugava o solo
esvaziando o conteúdo que ele escondia
para os homens que ainda estavam inexistidos –
fervilhando nos rugidos das onças
              no assovio do vento.

Nada mais dizia respeito às nossas raízes.
Quando gritávamos por nossos irmãos
os inimigos
que nos massacrava, violentava,
respondiam de prontidão.

éramos donos dos mesmos nomes
o sangue na mão compartilhado nos
cumprimentos matinais.

2
Eu estava entre os portugueses
em suas fileiras de caravelas:
ensinei aos índios o beijo que apodrecia a boca
& que corroia os dentes
o abraço que desfigurava as carnes
(que deixa em rubor toda a técnica
 homicida hoje empregada)
eu trazia cínico,
em nome de Deus e da Rainha.

Mas era pouco a varíola e a gripe.
Matar os peixes dos riachos
transformando sua água em sangue,
cobrindo os leitos com cadáveres, era pouco.

Pouco foi a chuva futura
            que derretia a calha das casas
e envenenava as crianças –
             que insistiam que a felicidade
poderia estar na rua, que não era de ninguém.

Mas era. O nome na placa indicava.

3
Descendo de mulheres
que compactuavam com as ramas
                        o segredo da cura.
Sabiam extrair da menor partícula da mata
a verdade sobre o todo.

Contemplaram um dia, na face da água,
uma terra desolada que não prestava
sequer para enterrar o cadáver dos chacais
o filho de seus ventres esterilizando o chão
            com o toque dos pés.

Porém, antes que pudessem fazer algo,
havia sido decretada a era do estupro.

4
Tampouco deixei de ser contemplado
quando da expropriação das terras
que passaram a ser nossa
desde que nos fosse possível assassinar
cada um dos que nela viviam:

insolentes & preguiçosos homens
que não haviam inventado a guerra
e viviam apenas do que precisavam.

E assassinar nunca fora problema
para quem tinha na pólvora o poder
& na cruz o álibi.

5
Um selvagem impressionado
o homem de quem descendo
tremendo ao ver a ponte
que atravessava o Rio Apurimac.

Um bárbaro, meu predecessor,
que acreditou que a bacia amazônica
era formada por rios de ouro

(pouco antes temera o oceano
que escondia monstros sublimes &
era salgado pelas lágrimas dos náufragos).

Margareth Tacher agradece.

6
Descendo de uma linhagem de homens escuros como o asfalto, velozes como os carros: homens que foram assassinados em suas pátrias e trazidos para cá, para comerem a areia da praia e se tornarem donos de dores não-catalogadas.

Os que ficaram pelo caminho foram estraçalhados pelas lâminas dos corais, viajaram pelo intestino de tubarões, sedimentaram seus sonhos junto ao assoalho encharcado do mar.

Foram lançados de navios como carne podre: mulheres, homens, crianças, reis, heróis entregues ao dorso suado do oceano e suas milhares de garras.

Para futuro semelhante foram arrastados os que a travessia preservou:
– para cultivar os bigodes dos coronéis
– para manterem impecável a fazenda das mocinhas
– para financiar os estudos em Paris ou Coimbra
de vagabundos jovens advogados.

A língua que colocaram em suas bocas não podia ser entendida pelos seus deuses, enfurnado no alto-demais das nuvens – pululavam jesuítas com seu livro que pesava uma tonelada.



Aqui ficaram sozinhos os homens de quem descendo: a solidão que havia era a mesma de todo lugar – eles apenas a aperfeiçoaram.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Iminente

“Quando a vista ficar confundida, e a lua se eclipsar,
e o sol e a lua se unirem, nesse dia o homem gritará:
para onde é que se pode fugir? Oh, não haverá refúgio!”
Surata 75
         Nos tempos antigos de minha infância alimentava, à noite, uma náusea sem nome. Achava em silêncio – não havia palavras suficientes guardadas em mim para desfraldar esse sentimento – que algo de inevitável estava próximo de se consolidar. Algo ruim.
Não sabia dizer se o escuro do quarto iria se espalhar sobre o mundo e derramar seu pavor rastejante sobre as coisas coloridas da vida.
Nem se seria escuro esse caos.
Não sabia dizer se esse fim estava sendo urgido numa sala celeste, onde os deuses discutiam com seus investidores um modo viável de esvaziar o conteúdo do cálice e por fim à criação. Tampouco sabia se os deuses teriam algo a ver com isso.
Não sabia dizer se esse desconforto – que me parecia em avançado estágio de consolidação – viajava sentado na cauda de algum meteoro lançado a milhões de anos,
impelido a cruzar o universo para nos abalroar como se fôssemos um navio de H. Mellvile.
Não sabia, sentado em meu medo infantil, o que seria essa certeza perversa, tão nítida no apelo das árvores.
O que seria esse conhecimento explícito em mim como um amor inflamado? O que seria essa dor que vinha escondido no prato de comida e tirava o apetite? Que vinha entrelaçado na fala dos desenhos animados e enfartava o riso? Onde brotava, num peito pequeno de menino, uma água tão escura? Quando ela rompera o tecido e começara a escorrer pelo corpo

Fôra antes de me ver refletido mais vezes
em fundos de privadas do que em espelhos?
 
Antes de Rimbaud me seduzir para a venda
como escravo sexual aos asseclas do rei de Choa?
 
Fôra antes de cantar a Internacional, as quartas,
ao lado de pederastas, alcoólatras, poetas e                                                                                    açougueiros
 
que ainda acreditavam em Deus aos domingos?
 
Quando compreendi que não era o que se escondia no guarda-roupa que me causava aquele mal, mas a certeza de que o mundo – não apenas eu e as minhas fraquezas – acabaria? 
Então aguardei a sua consolidação em noites de trovões, em dias de discussão adulta – que traçavam o rumo de suas vidas conjugais
e a permanência do eu no limiar das coisas alegres
Então o aguardei impregnando-o de imagens retiradas dos livros de gravuras. Na fala da gente humilde, sempre a rever na cozinha seus temores e suas certezas catastróficas, complementei minha visão tingindo-a de sangue humano – substituindo árvores tombadas
        por homens tombados.
 
Não via no rosto das pessoas esse medo que me tirava o sono. Não via em seus gestos de prazer uma tentativa reconfortante de aproveitamento imediato – o fim estava próximo, algo me dizia em forma de pânico pediátrico
 
– e haveria mortes,
talvez fogo nas ruas e no cabelo das mulheres
 
– e haveria dor no coração
e nos braços ensangüentados das enfermeiras.
 
Não via em seus gestos de ódio uma revolta conscienteum ato de reprovação:
 
o fim do mundo talvez caminhasse nas ruas
escolhendo a dedo uma forma de melhor efetuar a
sua desgraça
 
– e haveria confusão:
talvez mães chorando crianças despedaçadas,
e haveria desespero nos olhos do menino sem mãe para      consolá-lo.
Não via no choro das mulheres – tão evidentes – nem na lágrima seca que rolava quando as crianças não estavam um choro ou uma lágrima a respeito da verdade que a todo instante me redimia a um único pensamento.
Talvez o fim já houvesse sido deflagrado: lento e preciso, se espalhando pelo ar, como a sombra de uma nuvem envenenada, apodrecendo sobre as cidades.
Nada se avistava no tempo, ou nas ruas. Aguardar, essa era a palavra de ordem.
  

“E para cada dia bastará apenas o seu mal”
Mateus 6:25-34

sábado, 2 de novembro de 2013

Entrevista Diversos Afins


Amigos, concedi uma entrevista para a Revista Diversos Afins. Bate-papo sincero sobre poesia e tudo que a envolve.





O caminho é: http://diversosafins.com.br/?p=5834
Aguardo vocês!

domingo, 6 de outubro de 2013

Hefesto/Vulcano/Völundr

Era um deus, no entanto.
Porém, não o poupavam. “Coxo Coxo
         Coxo”
sussurravam pelas ruas.

Nos inferninhos e na boca do lixo
o consenso era geral:
“feio como um beliscão no cu”
“a própria mãe reconhece a merda que fez”
& demais despautérios.

Entre os seus, em língua grega
– ou naquela que lá se fala
& tampouco compreendemos –
a fama de corno corria aos quatro cantos:

“vencido por um amor de espuma”
“enfeitiçado pelos olhos de cigana oblíqua...”
& coisas do tipo.

Distraído, no cômodo do fundo,
iluminado pelo fogo da fornalha
ele nada ouvia
senão o som do martelo malhando o metal.



* do livro "poemas é um péssimo título"

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Provedor-mor de defuntos e ausentes

para Jorge Vicente
José de GuimarãesCamões e D.Sebastião, 1980.

1. Dinamene! Dinamene!

pouco importa o que move os cardumes
ou o que torna cego os peixes exilados
       nas cavernas

tudo se resume – questão primordial –
no que teria sido se o Mekong tivesse
engolido aquele calhamaço

2. Entre gente remota edificaram

, ou outra língua surgisse da espada & do fogo e nos entrasse pela boca, após ser roubada por algum Prometeu – por exemplo. Falar Falar Falar até que as chagas da garganta cicatrizassem & parassem de doer

, ou outro messias surgisse no lugar desse – ó pai por que me... Também velho & cego, como convém (um olho vazado em Ceuta) (Para que tantos messias, meu deus?) 

ou nenhum messias – e fôssemos mudos como as pedras

3. D. Sebastião

acaso o Mekong tivesse
engolido aquele calhamaço
ou o poeta tivesse sido vencido pelo nado

talvez em um laboratório
ou no canto d’algum pássaro
ou de empréstimo de outro reino
uma nova língua até nós caminhasse
com seu rastro de pólvora e sangue

quem sabe outro poeta se erguesse
– em uma manhã de nevoeiro –
no caso do seu fracasso?

*