sábado, 22 de junho de 2013

Do vinagre e seus usos


Eram especialistas em conter
Bastava meia dúzia de cães e seus lacaios
ou um pequeno pelotão de farda
armados com um pouco de ódio
 – que já vem de fábrica –
e um up grade que adquirem na jornada

Tudo se dispersava diante do pelotão
montado sobre ferozes cavalos
polícia e bandido (doutores de terno & gravata)
de mãos dadas para distribuir porrada

e a ordem era mantida para a glória
dos privilegiados (uma certa
    gente diferenciada)

Eis que o rumor da multidão
abafa o som das botas e das bombas
daqueles que pagávamos para nos matar

Ninguém recua até que o sol venha iluminar
      as vidraças            q u e b r a d a s


*

domingo, 16 de junho de 2013

Poema # 7


os egípcios
(& talvez os mesopotâmicos)
procuraram   (em          vão)
por ele           (                   )
dissecando seus reis & seus gatos
& nada viram além de vísceras

verme alojado
 – os românticos dizem que no peito
       os capitalistas nos bens
       os místicos na alma –
em algum estranho desvão
de onde com seus estranhos mecanismos
coloca o organismo sob o seu comando

(a giárdia          a solitária         a lombriga
        para ficarmos em poucos exemplos)

lembra – já que tudo nos é permitido especular–
uma peça que se instala sem que se queira
& que muito pouco
– ou quase nada –
se pode fazer que a impeça

(vírus de site pornô
OU
                 [que baste essa imagem
na falta de outra melhor])

em alguns (os bem-aventurados)
desgastada a peça (uso, fatores climáticos,
      maldições, radicais livres, etc)
uma nova se habilita
& começa a fumegar

logo essa se instala
sobre as cicatrizes da anterior
(os dentes do tubarão          o braço do polvo
         o rabo                  da           l a g a r t  i   x    a)

& como a unha (& os cabelos) do defunto
começa a crescer    (sem que possamos
       dosá-la ou, a exemplo
                                             das bestas, fustigá-la)
soerguendo a crista da montanha

contra o tédio do teto



*

quinta-feira, 23 de maio de 2013

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Coletânea Fórceps

Amigos, dia 28 de Maio estarei no lançamento da coletânea Fórceps. São 4 poetas: Eu, Cássio Amaral, Heleno Álvares e Flávio Offer. Se der, compareçam! Abraços!

Coletânia Fórceps

Amigos, dia 28 de Maio estarei no lançamento da coletânea Fórceps. São 4 poetas: Eu, Cássio Amaral, Heleno Álvares e Flávio Offer. Se der, compareçam! Abraços!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Elephant ganha as ruas



Oficina realizada no SESI-SENAI no 22° Encontro SESI de Artes Cênicas.
Oficina realizada no SESI-SENAI no 22° Encontro SESI de Artes Cênicas.

terça-feira, 19 de março de 2013

Poema

 XXXII
    12/06/03
                  
Enquanto estronda a guerra fora e a fúria desordenada salpica granadas e testículos, enquanto a barbárie ressoa fora e o ódio desmedido esquarteja canhões e homens, eu sento e escrevo o seu nome.

Grifo-o, em alto-relevo, para os que não podem ver; grito-o, em altas palavras, para os que não podem tocar.

Enquanto despejam a guerra fora e a angústia desenfreada alicerça fronteiras, enquanto a desavença ceifa moradas e moradores, eu sento e escrevo o seu nome.

Risco-o, na areia, para os que estão de passagem; selo-o, nas estrelas, para os que não têm pressa.

Enquanto vou escrevendo seu nome, a guerra fora intenta endurecer meu pobre coração; enquanto vou escrevendo o seu nome, a guerra que se avoluma arranha a minha porta.

O seu nome eu risco na semente, para os que estão por vir; cravo-o nos olhos dos mortos, para que os mortos possam lembrá-lo sempre.

Enquanto fortificam a guerra fora e a dor sem fim dinamita povos e populações, eu sento e escrevo o seu nome: e ele é uma trincheira que cavo na noite escura, uma barricada que ergo.

E vou fazendo até que não conseguirei suportar mais a fome e passe a correr Coca-Cola em minhas veias.



* do livro Memórias à Beira de um Estopim

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Entrevista: Elefante e Coletivo Anfisbena

Heleno Álvares e L. Rafael Nolli - foto: Laura Millya Borges


Eduardo, Rafael Nolli e Heleno Álvares - livros no chão por todo lado. Foto: Laura Millya Borges
O poeta e amigo Heleno Álvares me entrevistou para a sua coluna semanal no Jornal Clarim, de Araxá. Balaio Cult é o nome da coluna. O bate-papo descontraído ocorreu na Biblioteca Municipal de Araxá e foi fotografada por Laura Millya Borges. Meu filho, Eduardo, diga-se de passagem, roubou a cena !

sábado, 24 de novembro de 2012

1 – Criogenia



b) Ötzi, o Homem do Gelo 

Resta o corpo imolado
guardado nas entranhas
dos Alpes Ötzal                                 

Oferecido em hecatombe
a montanha –
que tem os seus caprichos –
guarda intacta a oferenda

A dieta de raízes
& os ossos de um mamífero               [Ochotonidæ] 
revelam seu cardápio final

O imenso freezer preservando
as tatuagens, a cor dos olhos  [primeira cor na escala de Martin Schultz]
a artrite                                                 [Borreliose de Lyme]

para que o Aquecimento Global
ou um alpinista o resgate
– Lázaro –                                [אלעזר]
de volta à luz dos holofotes



* do livro Elefnte, Editora Anfisbena, 2012

sábado, 13 de outubro de 2012

Poema # 5

Tela: Ernest Descals


Que se desabroche como flor
em um vaso sobre a mesa –
alimentada por lâmpada fluorescente
& água de cloro da torneira

(ou  
às margens de uma estrada
que segue o curso do rio, onde
o sol queima os olhos dos cavalos)

Que se desabroche como flor
no canto escuro da casa –
regada pelo encanamento rompido
& o árduo trabalho intestinal

(ou
no peito do homem
que entre tantos outros caminha
para incendiar a cidade sitiada)

domingo, 23 de setembro de 2012

Elefante - Anfisbena




Amigos, eis aí a minha nova cria. "Elefante" é um livro artesanal, em capa de papelão, buscando ao máximo se afastar desse mercado que só faz produtos padronizados, idênticos. Trata-se de uma edição limitada: somente 30 exemplares. O valor é de $ 15 reais mais correio! Segue um poema:


Quebra-cabeça


1
Com Super Bonder®
por de pé o esqueleto da ave:
ofício repleto de ócio –
horas sobre ossos ocos
roídos por secreta mágoa

(o ar e o uso)

Silêncio do bico desgastado pelo canto
O formol roubou o brilho das penas
Largo gesto de asas, premeditado
O olho olha a parede e não vê

Mente quem diz: parece vivo


2
Palavra por palavra
para por de pé o poema:
bateia roendo o leito do rio

(o anel & o piercing
– de amores extintos –
resgatados para brilharem
   – again and again
sobre uma luz cada vez mais fraca)

Palavra por palavra
para por de pé o poema:
broca em busca da cárie

3
Nada de novo no front
as palavras de sempre
sobre nova maquiagem

como mulher de revista pornô
: punheta para photoshop

Nada de novo no front
o poeta se gabando por
descobrir terra já cartografada –

habitada por centenas
milhares de babacas.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Aguardando um título




Os meninos cogitaram acordá-lo

a       p    e d    r    a d as
– típica cena bíblica de expurgo

Se limitaram a cutucá-lo com uma vara


Como não respondia
decidiram consultar um adulto

(no meio do caminho foram
seduzidos por um enorme
           letreiro da Texaco)


Imagem: Remédios Varo

domingo, 1 de julho de 2012

Inventário de um rio # 2



1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele


(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])

Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
com o cadáver de cão –
conduzia a inframundos
governados por Hades

(pouca era a sua água
e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um condenado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
com um azul de olho vazado])

2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade




sábado, 26 de maio de 2012

memóriasàbeiradeumestopimmemóriasà


 estopim                               {meu verso}                

memórias à beira de um estopim,
ou de como vivemos de negações para colher afirmativas

                                  {como uma mão aberta esperando
      um cumprimento que não vem}

memórias à guisa de um motim,
ou de como o fato de existirmos anula a existência de Deus

memórias à beira de um estopim,
ou de como a lágrima que não derramei
 pelas torres gêmeas são verdadeiras

memórias à beira de mim mesmo,
ou de como, em mim mesmo,
sou memórias e fatos – sou concreto e acontecimentos

    {como uma boca aberta
                                      esperando um beijo que não vem}

memórias à guisa de um motim,
ou o motim em torno de minhas memórias?
        :         expludo?

estopim à beira de minhas memórias,
ou de como o pavio descansa em minhas mãos
– e o fogo em tuas
:     explodimos?                                   !

                                   {como uma trincheira aberta
                                 esperando a granada que vem}
memórias a

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Os filhos de Oppenheimer

Oppenheimer e General Leslie Groves

Ele apertava parafusos. Não havia uma finalidade clara nisso. Seu princípio e fim estava ligado a faculdade prática de apertá-los. Assim como havia aquele que de longe – prancheta era seu instrumento – contemplava seu afazer, havia aquele que anteriormente colhera o metal nas montanhas, havia aquele que o derretia e aquele que sulcava em hélice seu corpo metálico, finalizando-o. Eles mesmos, enquanto homens, foram colhidos nas montanhas, retirados do barro, moldados e cozidos por outros operários que desconheciam o fruto de sua labuta.
O que faziam do material anônimo que ele crivava de parafusos? Nunca se perguntara se o preenchiam de alma, se o dotavam de utilidade: atarraxava com suas mãos-aptas-à-chave-inglesa e pronto. Sequer cogitara a origem daquela peça anteriormente moldadas por outros como ele, que também não deixavam marca alguma no produto fabricado. Eram alienados, sobretudo, por não conhecerem a pergunta para a resposta que possuíam.
(Um dia juntaram todos no pátio, apertaram um botão vermelho em algum lugar distante e pulverizaram tudoenorme cogumelo fazendo sombra sobre o cadáver da fábrica. E morreram felizes para sempre.)
The end.




*