domingo, 6 de outubro de 2013

Hefesto/Vulcano/Völundr

Era um deus, no entanto.
Porém, não o poupavam. “Coxo Coxo
         Coxo”
sussurravam pelas ruas.

Nos inferninhos e na boca do lixo
o consenso era geral:
“feio como um beliscão no cu”
“a própria mãe reconhece a merda que fez”
& demais despautérios.

Entre os seus, em língua grega
– ou naquela que lá se fala
& tampouco compreendemos –
a fama de corno corria aos quatro cantos:

“vencido por um amor de espuma”
“enfeitiçado pelos olhos de cigana oblíqua...”
& coisas do tipo.

Distraído, no cômodo do fundo,
iluminado pelo fogo da fornalha
ele nada ouvia
senão o som do martelo malhando o metal.



* do livro "poemas é um péssimo título"

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Provedor-mor de defuntos e ausentes

para Jorge Vicente
José de GuimarãesCamões e D.Sebastião, 1980.

1. Dinamene! Dinamene!

pouco importa o que move os cardumes
ou o que torna cego os peixes exilados
       nas cavernas

tudo se resume – questão primordial –
no que teria sido se o Mekong tivesse
engolido aquele calhamaço

2. Entre gente remota edificaram

, ou outra língua surgisse da espada & do fogo e nos entrasse pela boca, após ser roubada por algum Prometeu – por exemplo. Falar Falar Falar até que as chagas da garganta cicatrizassem & parassem de doer

, ou outro messias surgisse no lugar desse – ó pai por que me... Também velho & cego, como convém (um olho vazado em Ceuta) (Para que tantos messias, meu deus?) 

ou nenhum messias – e fôssemos mudos como as pedras

3. D. Sebastião

acaso o Mekong tivesse
engolido aquele calhamaço
ou o poeta tivesse sido vencido pelo nado

talvez em um laboratório
ou no canto d’algum pássaro
ou de empréstimo de outro reino
uma nova língua até nós caminhasse
com seu rastro de pólvora e sangue

quem sabe outro poeta se erguesse
– em uma manhã de nevoeiro –
no caso do seu fracasso?

*

sábado, 3 de agosto de 2013

Ópera-rock sobre o cárcere de Abaetetuba


1 – os fatos

Tinha quinze anos e subtraíra um Rolex made
in China ou um CD by Zona Franca de Manaus.

Por isso fora jogada
numa cela úmida de suor e porra.

Uma cela ocupada por homens exemplares,
educados na arte da pederastia e da extorsão
– onde trocava um copo d’água por uma chupada.

Tinha quinze anos e roubara pouco mais
de uns reais, que não lhe pagavam a fome.

Por isso fora jogada
numa cela feita de aço, músculo, testosterona.

Uma cela abarrotada de orações sinceras,
de sífilis, de gonorréia
– onde trocava fiapos de colchão por tapas na cara.

Tinha quinze anos e roubara um pedaço de pão
ou uma carteira de couro de avestruz.

Por isso fora jogada
numa cela fedendo a desinfetante de menta e cu.

Uma cela decorada com frases de ódio
e estelares bocetas globais
– onde trocava um prato de comida por uma trepada.

2 – o carcereiro

Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.

(O trânsito é um problema que o incomoda:
busina, semáforo, lhe tiram do sério.)

Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.

(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)

Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.

(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)

Nada perturba o seu sono.

3 – os detentos

Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu couve.

Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.

Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos

– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.

Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas

– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.

Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.

Aqui o sol é o mesmo para todos
e o interruptor o apaga.

4 – fim

cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível

(talvez seja o vizinho
ou nós mesmos – algo nos diz)

e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum




* publicado novamente. acabo de ler que os algozes estão soltos. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

XX

                       03/01/04

Não é o petróleo o mais valioso líquido desse planeta, tão pouco a águamas, sim, o suor

Ele que se extrai do rosto e com o qual se constroem os mares onde navegarão baleias e Destroyers!



*

sábado, 22 de junho de 2013

Do vinagre e seus usos


Eram especialistas em conter
Bastava meia dúzia de cães e seus lacaios
ou um pequeno pelotão de farda
armados com um pouco de ódio
 – que já vem de fábrica –
e um up grade que adquirem na jornada

Tudo se dispersava diante do pelotão
montado sobre ferozes cavalos
polícia e bandido (doutores de terno & gravata)
de mãos dadas para distribuir porrada

e a ordem era mantida para a glória
dos privilegiados (uma certa
    gente diferenciada)

Eis que o rumor da multidão
abafa o som das botas e das bombas
daqueles que pagávamos para nos matar

Ninguém recua até que o sol venha iluminar
      as vidraças            q u e b r a d a s


*

domingo, 16 de junho de 2013

Poema # 7


os egípcios
(& talvez os mesopotâmicos)
procuraram   (em          vão)
por ele           (                   )
dissecando seus reis & seus gatos
& nada viram além de vísceras

verme alojado
 – os românticos dizem que no peito
       os capitalistas nos bens
       os místicos na alma –
em algum estranho desvão
de onde com seus estranhos mecanismos
coloca o organismo sob o seu comando

(a giárdia          a solitária         a lombriga
        para ficarmos em poucos exemplos)

lembra – já que tudo nos é permitido especular–
uma peça que se instala sem que se queira
& que muito pouco
– ou quase nada –
se pode fazer que a impeça

(vírus de site pornô
OU
                 [que baste essa imagem
na falta de outra melhor])

em alguns (os bem-aventurados)
desgastada a peça (uso, fatores climáticos,
      maldições, radicais livres, etc)
uma nova se habilita
& começa a fumegar

logo essa se instala
sobre as cicatrizes da anterior
(os dentes do tubarão          o braço do polvo
         o rabo                  da           l a g a r t  i   x    a)

& como a unha (& os cabelos) do defunto
começa a crescer    (sem que possamos
       dosá-la ou, a exemplo
                                             das bestas, fustigá-la)
soerguendo a crista da montanha

contra o tédio do teto



*

quinta-feira, 23 de maio de 2013

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Coletânea Fórceps

Amigos, dia 28 de Maio estarei no lançamento da coletânea Fórceps. São 4 poetas: Eu, Cássio Amaral, Heleno Álvares e Flávio Offer. Se der, compareçam! Abraços!

Coletânia Fórceps

Amigos, dia 28 de Maio estarei no lançamento da coletânea Fórceps. São 4 poetas: Eu, Cássio Amaral, Heleno Álvares e Flávio Offer. Se der, compareçam! Abraços!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Elephant ganha as ruas



Oficina realizada no SESI-SENAI no 22° Encontro SESI de Artes Cênicas.
Oficina realizada no SESI-SENAI no 22° Encontro SESI de Artes Cênicas.

terça-feira, 19 de março de 2013

Poema

 XXXII
    12/06/03
                  
Enquanto estronda a guerra fora e a fúria desordenada salpica granadas e testículos, enquanto a barbárie ressoa fora e o ódio desmedido esquarteja canhões e homens, eu sento e escrevo o seu nome.

Grifo-o, em alto-relevo, para os que não podem ver; grito-o, em altas palavras, para os que não podem tocar.

Enquanto despejam a guerra fora e a angústia desenfreada alicerça fronteiras, enquanto a desavença ceifa moradas e moradores, eu sento e escrevo o seu nome.

Risco-o, na areia, para os que estão de passagem; selo-o, nas estrelas, para os que não têm pressa.

Enquanto vou escrevendo seu nome, a guerra fora intenta endurecer meu pobre coração; enquanto vou escrevendo o seu nome, a guerra que se avoluma arranha a minha porta.

O seu nome eu risco na semente, para os que estão por vir; cravo-o nos olhos dos mortos, para que os mortos possam lembrá-lo sempre.

Enquanto fortificam a guerra fora e a dor sem fim dinamita povos e populações, eu sento e escrevo o seu nome: e ele é uma trincheira que cavo na noite escura, uma barricada que ergo.

E vou fazendo até que não conseguirei suportar mais a fome e passe a correr Coca-Cola em minhas veias.



* do livro Memórias à Beira de um Estopim

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Entrevista: Elefante e Coletivo Anfisbena

Heleno Álvares e L. Rafael Nolli - foto: Laura Millya Borges


Eduardo, Rafael Nolli e Heleno Álvares - livros no chão por todo lado. Foto: Laura Millya Borges
O poeta e amigo Heleno Álvares me entrevistou para a sua coluna semanal no Jornal Clarim, de Araxá. Balaio Cult é o nome da coluna. O bate-papo descontraído ocorreu na Biblioteca Municipal de Araxá e foi fotografada por Laura Millya Borges. Meu filho, Eduardo, diga-se de passagem, roubou a cena !

sábado, 24 de novembro de 2012

1 – Criogenia



b) Ötzi, o Homem do Gelo 

Resta o corpo imolado
guardado nas entranhas
dos Alpes Ötzal                                 

Oferecido em hecatombe
a montanha –
que tem os seus caprichos –
guarda intacta a oferenda

A dieta de raízes
& os ossos de um mamífero               [Ochotonidæ] 
revelam seu cardápio final

O imenso freezer preservando
as tatuagens, a cor dos olhos  [primeira cor na escala de Martin Schultz]
a artrite                                                 [Borreliose de Lyme]

para que o Aquecimento Global
ou um alpinista o resgate
– Lázaro –                                [אלעזר]
de volta à luz dos holofotes



* do livro Elefnte, Editora Anfisbena, 2012

sábado, 13 de outubro de 2012

Poema # 5

Tela: Ernest Descals


Que se desabroche como flor
em um vaso sobre a mesa –
alimentada por lâmpada fluorescente
& água de cloro da torneira

(ou  
às margens de uma estrada
que segue o curso do rio, onde
o sol queima os olhos dos cavalos)

Que se desabroche como flor
no canto escuro da casa –
regada pelo encanamento rompido
& o árduo trabalho intestinal

(ou
no peito do homem
que entre tantos outros caminha
para incendiar a cidade sitiada)

domingo, 23 de setembro de 2012

Elefante - Anfisbena




Amigos, eis aí a minha nova cria. "Elefante" é um livro artesanal, em capa de papelão, buscando ao máximo se afastar desse mercado que só faz produtos padronizados, idênticos. Trata-se de uma edição limitada: somente 30 exemplares. O valor é de $ 15 reais mais correio! Segue um poema:


Quebra-cabeça


1
Com Super Bonder®
por de pé o esqueleto da ave:
ofício repleto de ócio –
horas sobre ossos ocos
roídos por secreta mágoa

(o ar e o uso)

Silêncio do bico desgastado pelo canto
O formol roubou o brilho das penas
Largo gesto de asas, premeditado
O olho olha a parede e não vê

Mente quem diz: parece vivo


2
Palavra por palavra
para por de pé o poema:
bateia roendo o leito do rio

(o anel & o piercing
– de amores extintos –
resgatados para brilharem
   – again and again
sobre uma luz cada vez mais fraca)

Palavra por palavra
para por de pé o poema:
broca em busca da cárie

3
Nada de novo no front
as palavras de sempre
sobre nova maquiagem

como mulher de revista pornô
: punheta para photoshop

Nada de novo no front
o poeta se gabando por
descobrir terra já cartografada –

habitada por centenas
milhares de babacas.