quinta-feira, 7 de maio de 2015

O vendedor de algodão doce

 
grafitti de Paulo Zits
 o vendedor de algodão doce
se anunciava com um apito

senhor de diversas cáries
distribuía nuvem cristalizada
tingida de azul ou rosa

aceitava cascos de cerveja
que guardava em um saco de batatas

quando passava por uma criança
que não atendia ao seu apito
ou simplesmente não se interessava
saía resmungando

curvado sob o peso do fardo



25/01/2015

do livro Poemas É um péssimo título

quinta-feira, 30 de abril de 2015

23 h 56 min e 4,09 seg

Para Érico Baymma

1
dias ruins
por coisas pequenas
quase-nada
pingo no i na letra errada
tropeço no cadarço desamarrado

dias ruins
por grandes problemas
estouro de boiada
um caminhão entalado bloqueando a paisagem
azia no banqueta das musas

dias ruins
por bobagens corriqueiras
coisas banais
azar no jogo
– dardo, RPG, carta –
ter que repetir a frase
(quando não se disse nada)

2
dias bons
por coisas pequenas
ou por nada
um sorriso (alado)
um pássaro pousado no retrovisor do carro

(ou por qualquer coisa fugaz rápida
como a queda de um meteorito
o bote de uma naja)

dias bons
por coisas grandiosas
que tomaram tempo
& cansaram o espelho
que consumiram a tinta do calendário

dias bons
por coisas improváveis inesperadas imprevistas:
encontrar um novo amor
ao pegar o caminho errado

(ficar perdido

até ter que mudar de casa)








* do livro Poemas é um péssimo título (para um livro de poemas)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Cidade dos sonhos



Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.

A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins,

arqueiros posicionados
no alto das colinas,

a infantaria
dinamitando as pontes.

Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.

No entanto,
antes que declarem o seu triunfo,

um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.

2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade,
que só existe em meus sonhos,
ficará entregue a própria sorte.

Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam,
ou eles migrarão para outros sonhos?

Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente, com as próprias mãos...

3

Saberei eu no sonho de quem?



*
do livro Poemas é um péssimo título

quarta-feira, 25 de março de 2015

Bula


Nenhuma história de amor.
Só palavras agrupadas
e algo que as coloque em (des)ordem:
um jogo semântico
uma brincadeira burocrática
métrica, rima, divisão silábica
trocadilho, gracejo, piada
qualquer coisa que lhe sirva de base
de desculpa, de álibi.
                  
Nada de vivo, nada que respire.
Só “um arranjo de carpinteiro”
“um trabalho de artesão”
ou outra dessas comparações horrorosas.

Talvez uma frase pronta possa ajudar:
“A palavra horrorosa /
é de uma beleza terrível”
e coisas desse nível para baixo.

Nada. Nada. Nada.
Só palavras aos montes
até formar uma pilha não muito alta:
ninguém vence vivo mais que uma página.

De repente uma última frase.
Sorrateira. Breve. Rápida:
“como o golpe de uma espada”
“feito corte de navalha”
ou outra dessas grandes bobagens.






do livro Poemas é um péssimo título

domingo, 1 de março de 2015

Saudade, a palavra


1
Saudade não se traduz
Ninguém sentia
senão os portugueses
que a espalharam:
pastores, poetas, pulhas

como a gripe, a varíola,
e a sífilis

(até o mundo todo
ficar contaminado).

2
Ninguém sente saudade em russo?
O que corre nas cartas de Maiakovisk?
O que sentiu Gagarin ao ganhar o céu?
Qual era a cor dos olhos de Lênin no exílio?

Uma palavra inaugura tudo?
Inventá-la, ou traduzi-la,
basta para (a palavra) colonizá-los?

3
Tudo, dizem os filólogos,
por errarem pelos mares
(nunca dantes)
deixando para trás as amadas
os filhos, o cachorro, o gato
– saudade é para quem fica

4
Mas e os outros, não erraram?
Gregos e persas pelo Egeu
Fenícios nas praias da China
Vikings cozinhando no Equador
A invencível armada posta a pique
Encharcando de sangue o Pacífico

5

Quanto desse sal?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Memória



Nunca te esquecerei,
diz o amante ao objeto amado
ou os amigos que se separam
ou a mãe ao filho que parte
(uma viagem, a morte,
a roda do acaso)

E ficam nebulosos,
transportando a ideia
(única forma de não olvidar),
até que chegue o momento
de serem esquecidos –

ou transportados.







*

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Banquete dos mendigos

Reunião burocrática, às duas da tarde. 
Os mendigos sabiam a melhor hora para pedir esmola. Depois do almoço – dos outros – era prudente descansar: ninguém contribui com a fome alheia de barriga cheia.
Aos poucos foram chegando, de toda rua que desaguava na praça. Alguém sugeriu matar o novato, que esmolava com a foto surrada de um santo que ninguém conhecia. Os tempos não suportavam mais um naquele espaço. A comida era pouca e os poucos restaurantes guardavam os restos trancados a sete chaves.
Em roda, contabilizaram o prejuízo. Ninguém tinha mais do que precisava.

E caíram na gargalhada.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Corpo



1
há dez anos os enlatados começaram a vencer. alguns objetos da cena – tv, telefone, vitrola, vídeocassete – já não se fabricam mais. foram suplantados pela concorrência ou sofreram saltos evolutivos – pouco lembram aqueles sáurios

um presente de Natal – de dez anos atrás – aguarda para ser aberto (ou enviado) e não será: tudo foi adiado para sempre

2
Em meio à mobília
diante da TV desligada
a dez anos, pelo menos

nenhum telefonema
nenhuma visita

Em meio à mobília
esquecida por uma década
dezenas de aniversários em branco
ceias de natal
diversas festas de fim de ano
reuniões do condomínio (centenas delas!)
bailes do Clube dos Aposentados
todos em branco

ninguém para reclamá-la
nenhum vizinho ou amante
que tenha dado por sua falta

sobre a cômoda, coberta de pó,
a caderneta de endereços
abarrotada de nomes

3
nenhum inimigo fiel e impiedoso para cobrar uma dívida, para esclarecer velha rixa ou perdoar uma rusga do passado                                                                      

ou um passante, incomodado com o fedor de seu cadáver, um voyeur acampado no edifício em frente, um ladrão sorrateiro. um filho

como um animal no meio da mais obscura floresta, na mais completa solidão

(lá fora a cidade fervilhante)


4
Quanto tempo terá resistido o cão
– desesperado e faminto –

após a morte da dona?






*

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Provedor-mor de defuntos e ausentes

______________para Jorge Vicente


1. Dinamene! Dinamene!

pouco importa o que move os cardumes
ou o que torna cego os peixes exilados
       nas cavernas

tudo se resume – questão primordial –
no que teria sido se o Mekong tivesse
engolido aquele calhamaço

2. Entre gente remota edificaram

, ou outra língua surgisse da espada & do fogo e nos entrasse pela boca, após ser roubada por algum Prometeu – por exemplo. Falar Falar Falar até que as chagas da garganta cicatrizassem & parassem de doer

, ou outro messias surgisse no lugar desse – ó pai por que me... Também velho & cego, como convém (um olho vazado em Ceuta) (Para que tantos messias, meu deus?) 

ou nenhum messias – e fôssemos mudos como as pedras

3. D. Sebastião

acaso o Mekong tivesse
engolido aquele calhamaço
ou o poeta tivesse sido vencido pelo nado

talvez em um laboratório
ou no canto d’algum pássaro
ou de empréstimo de outro reino
uma nova língua até nós caminhasse
com seu rastro de pólvora e sangue

quem sabe outro poeta se erguesse
– em uma manhã de nevoeiro –


no caso do seu fracasso?






*

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Elas herdarão o reino dos céus




crianças
algumas ainda muito pequenas
sem saber o que escrever
desenham corações & flores
nas bombas
que matarão outras crianças


____
Sobre a foto: Kiryat Shmona, ao norte de Israel, próximo à fronteira com o Líbano. Imagem registrada em uma segunda-feira, dia 17 de julho de 2006.








*

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Leitmotiv


¿que fazer com tão vasto dicionário
– repleto de palavras duras
– de ódio –
dessas que insuflam catástrofes
colocam matrimônios por terra
azedam festas de fim de ano?

¿que fazer desses socos
– possivelmente letais –
– & nunca postos em prática –
aprendidos na adolescência
com os filmes do Bruce Lee
com o quebra-pau na porta dos puteiros?

(tanto ódio guardado

& ninguém digno de merecê-lo)




*

sábado, 19 de julho de 2014

Demiurgo



Não pode haver pior momento
do que encontrar o poeta escrevendo
sozinho diante do computador
a mesa de madeira manchada
coca-cola, café, cocaína
e uma pilha de livros
quase todas roubados
espólios da biblioteca municipal
um enorme carimbo azul na folha de rosto

Não, não há pior momento
Algum glamour – romantismo tardio –
nos tempos da máquina de escrever
em uma sala mergulhada na penumbra
a fumaça do cigarro subindo, até a lâmpada
Tomado por uma tosse tuberculosa, tenebrosa
o som das teclas, toc toc toc
sem melodia possível

No pintor há algo de vivo no ato da produção:
o movimento do braço
a pose – geralmente falsa – diante da tela
Chegar de repente no ateliê
e vê-lo diante de uma bela sereia
dona de seios de curvas acentuadas
e notar uma mancha azul
ainda molhada, escorrendo no assoalho

Na música também há algo de belo
(no flagra da composição):
os músicos dedilhando as cordas
procurando, em meio a tantas notas, a provável
Talvez role alguma cerveja – ou outro aditivo –
e de repente se faça novos amigos
e se consigo um afeto, uma foda

Com o poeta não é uma boa hora
Não há pior hora, nem pior programa
Talvez algum que lhe equipare
(só que não):
como a reprise, na íntegra,
de um 0 x 0
em jogo sem importância
na primeira rodada
do Campeonato Estadual do Acre









*

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Exercício de semântica



Uma calda espessa escorre
apagando a paisagem
o estranho molho molha
a cauda do camundongo
a fachada da sede do AA
a sede do camelo no Saara
a estampa do tecido do tudo
até que não sobre nada sobre nada


Faço um acordo com os deuses do sono

e acordo







*