sábado, 25 de fevereiro de 2012

Herança

Foto: Rafael Nolli

Não sei se vou dizer
em que pé caminha a esperança no fruto
                                    ainda na semente
 
ou se digo
– se devo dizer –
algo sobre a certeza nas coisas quadradas
que se estendem até se arredondarem.
 
Não sei se falo
– ainda há voz –
de equações químicas que se resolvem em silêncio
                               nos livros que nunca caducam
 
ou se conjecturo
a luta que enfrentaram os que, antes de nós,
domesticaram os grãos a nascerem
próximo ao apelo da mão.
 
Não sei se retrato a terra sitiada
de onde escapou o musgo,
            que cobre as pedras
            como uma pelagem de inverno,
ou se explico
– resta um filete de canto –
os vislumbres de um futuro próximo,
onde ainda se morre como em
             Comerciais de Metralhadora.
 
Não sei se devo
– ou se me permitem –
relatar as dificuldades dos homens nas fornalhas,
derretendo o minério que irá virar bibelô de madame
  ou maçaneta de táxi, e conto,
de mãos postas, a sua dieta fria, isenta de calorias; 
 
não sei se romantizo
os vagabundos noturnos que chamo pelo nome
ou se narro as noites em que sonho com a Poesia
 – a inevitável –
                         e acordo de pau duro.
 
Não sei se confirmo
– se é lúcido confirmar –
as verdades
sobre a ternura dos ditadores para com suas esposas
                                                                  & amigos
o carinho dos carrascos
 & torturadores dispensados aos seus filhos
    & amantes

ou se, simplesmente, me calo.
 
Não sei,
talvez o poeta esteja mudo
diante dos outdoors do apocalipse.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

[Visões]

Henry Fuseli. Macbeth consultando a visão da cabeça armada, 1793-94

(Há um violão de cordas oxidadas
& um surrado livro de citações

[inseto comendo
o coração dos tímpanos])

(Há uma dose exagerada
& um zumbi vagando pela praça

[errar pelo mundo fantasma
gritando o nome da menina morta])

(Há dias empoçados no calendário
& a vida estrangulada na ampulheta

[com o sangue dos inimigos
apagar o fogo que devora a noite])






*