domingo, 30 de julho de 2017

Prosa Poética


Iminente   
Quando a vista ficar confundida, e a lua se eclipsar, e o sol e a lua se unirem, nesse dia o homem gritará: para onde é que se pode fugir? Oh, não haverá refúgio!”
Surata 75
 
1
Nos tempos de minha infância alimentava, à noite, uma náusea sem nome. Achava em silêncio – não havia palavra suficiente guardada em mim para desfraldar esse sentimento – que algo de inevitável estava próximo de se consolidar.
            Algo ruim.
 
Não sabia dizer o que iria ocorrer. Às vezes, achava que o escuro do quarto iria espalhar-se sobre o mundo e derramar seu pavor rastejante sobre as coisas coloridas da vida.
 Mas sequer certeza havia se seria escuro esse caos.
 
Não sabia dizer se esse fim estava sendo urgido numa sala celeste, onde os deuses discutiam com seus investidores um modo viável de esvaziar o conteúdo do cálice e por fim à criação.
Tampouco sabia se os deuses teriam algo a ver com isso.
 
Não sabia dizer se esse desconforto – que me parecia em avançado estágio de consolidação – viajava sentado na cauda de algum meteoro lançado a milhões de anos,
impelido a cruzar o universo para nos abalroar como se fôssemos um navio de H. Mellvile.
 
Não sabia, sentado em meu medo infantil, o que seria essa certeza perversa, tão nítida no apelo das árvores. O que seria esse conhecimento explícito em mim como um amor inflamado? O que seria essa dor que vinha escondido no prato de comida e tirava o apetite? Que vinha entrelaçado na fala dos desenhos animados e enfartava o riso? Onde brotava, num peito pequeno de menino, uma água tão escura? Quando ela rompera o tecido e começara a escorrer pelo corpo
 
Fôra antes de me ver refletido mais vezes
em fundos de privadas do que em espelhos?
 
Antes de Rimbaud me seduzir para a venda
como escravo sexual aos asseclas do rei de Choa?
 
Fôra antes de cantar a Internacional, as quartas,
ao lado de pederastas, alcoólatras, poetas e açougueiros
 
que ainda acreditavam em Deus aos domingos?
 
Quando compreenderia que não era o que se escondia no guarda-roupa que me causava aquele mal, mas a certeza de que o mundo – não apenas eu e as minhas fraquezas – acabaria?

Então aguardei a sua consolidação em noites de trovões, em dias de discussão adulta             – que traçavam o rumo de suas vidas conjugais e a permanência do eu no limiar das coisas alegres
 
Então aguardei sua consolidação impregnando-a de imagens retiradas dos livros de gravuras. Na fala da gente humilde, sempre a rever na cozinha seus temores e suas certezas catastróficas, complementei minha visão tingindo-a de sangue humano – substituindo árvores tombadas por homens tombados.
 
2
Não via no rosto das pessoas esse medo que me tirava o sono. Não via em seus gestos de prazer uma tentativa reconfortante de aproveitamento imediato – o fim estava próximo, algo me dizia em forma de pânico pediátrico
 
 – e haveria mortes,
talvez fogo nas ruas e no cabelo das mulheres
 
– e haveria dor no coração
e nos braços ensangüentados das enfermeiras.
 
Não via em seus gestos de ódio uma revolta consciente,
um ato de reprovação:

o fim do mundo talvez caminhasse nas ruas
escolhendo a dedo uma forma de melhor efetuar a
sua desgraça
 
– e haveria confusão:
talvez mães chorando crianças despedaçadas,
e haveria desespero nos olhos do menino sem mãe para
                                                                      consolá-lo.
 
Não via no choro das mulheres – tão evidentes – nem na lágrima que rolava quando as crianças não estavam, um choro ou uma lágrima a respeito da verdade que a todo instante me redimia a um único pensamento.
 
Talvez o fim já houvesse sido deflagrado: lento e preciso, se espalhando pelo ar, como a sombra de uma nuvem envenenada, apodrecendo sobre as cidades.
 
Nada se avistava no tempo, ou nas ruas.
Aguardar, essa era a palavra de ordem.
Eu aguardava.  


*

“E para cada dia bastará apenas o seu mal”


Mateus 6:25-34

Prosa Poética




um chapéu azul pousado na coifa
                 no meio da mesa esquerda



 

Se eu dissesse Quarto, mesmo que o texto a seguir viesse com uma retórica extensa sobre o assunto, ainda ñ entraria na mente das pessoas esse objeto Quarto: pequena palavra isenta de cadeira, cama & computador. Ainda que impregnasse as frases de metáforas salientes, ñ caberia na seca palavra Quarto o sentido que sustento sem sucesso: e que é de fato o Quarto que quero dizer ao escrever a pobre palavra Quarto.

A sublime silhueta desse cômodo ñ se espelha na elegância singela do Q, na volta córnea do U, no desáiner totêmico do A; ñ se espalha na postura perversa do R, no corte duro, quase simbólico, do T, no redondo marcial, eterno, do O...

O aspecto sensível da palavra Quarto, espécime de cardiograma de ladrão perante o cão raivoso, desenho de serra q se finda em mata selvagemou descampado vastíssimo – ñ recobre o substantivo das curvas certas & das retas necessárias que remetam quem ao aposento Quarto in extremis ou de profunddis...

Mesmo que a ceife em letras & espalhe por esses fragmentos intensos relatos de profundidade, arquitetura & aerodinâmica, ainda assim dizer Quarto seria o mesmo que dizer um palavrão, uma palavrinha, uma única & solteira letra-soldado, excluída de seu exércitoou ñ dizer merda nenhuma.

Mesmo que triture letra por letra & crave em seu lombo cada curva de teto, cada trecho de sina transcorrida entre quatro paredes & um guarda-roupa, ainda assim o que sairá serão letras impregnadas da intenção de levar a mente do leitor a certo cômodo onde se convencionou dormir,

  fazer amor &

   cochichar os que amanhã acordarão mortos.

Ainda q grite Quarto!, alguém há d ouviralguém mais distanteQuanto?, Quatro?, Fato?, Ato?, Ô?, & responder:

“Acho q sim!” ou “Talvez ñ!” & fique o dito pelo ñ dito.

 

Nunca exija d um poeta versos d amor!

 







Prosa Poética



Fragmento retirado de um e-mail falso
                                                Para Wewerton (Caim)




Quem virá me salvar? Quando? E como? As preces se perdem: o deus-cavalo saxão ñ compreende minhas psicopatologias: quem vem, herói ou vilão, Jesus ou Judas, reerguer-me da briga que se arrasta pelas ruas e que tem sido a minha vida: quem vem, & como, levantar-me de uma queda que se eterniza no impacto com o chão: levantar-me de um tombo fatal, sistêmico: caio, cai minha sanidade; caio, despenca meu juízo.

Pensei, ontem, em dizer uma palavra mágica, que guardo há muito, que destruiria todas as coisas (voaria antes, eu vislumbrei isso, como o Enola Gay voou [em seu útero um ovo] por sobre as cabeças sem chapéu dos homens); pensei ontem, verbo mágico se debatendo em meus dentes em cela, que essa palavra seria ouvida nos manicômios como um chamado insano à realidade (isso se denomina poesia!).

Quem, quando & como virá, se é que se pode, se é que se efetiva, destituir-me da minha dor, levá-la de mim? (Como se leva uma pluma muito leve / levá-la como se leva o rosto ao soco / como se lava o sangue das mãos após a carícia dos estúpidos / como se conduz às vísceras o cabo da faca...]).

Quem poderá, dos Elíseos ou dos Umbrais, separar-me de meu medo, desencravá-lo de mim? – adestrá-lo, deixá-lo dócil como um lobotomizado a passear sem poder algum em meio aos meus pensamentos sem que os transfigure em verde, sem que os potencialize em dor & os converta em dúvida? Quem? Quando? Como?








sexta-feira, 28 de julho de 2017

Músicas

Iniciei uma parceria com Dino Soraggi: até o momento temos 6 músicas concluídas! 
Rafael Nolli e Dino Soraggi

Entrevista no site Próximo Parágrafo

Amigos, uma entrevista bacana no site Próximo Parágrafo. Agradeço ao Vítor Leal!
Rafael Nolli, nova foto de perfil.



http://www.proximoparagrafo.com.br/2017/07/entrevista-l-rafael-nolli-autor-de.html
Amigos, uma entrevista no site Vida Literária! É sobre meu livro Gertrude Sabe Tudo, mas falo de uma porção de outros assuntos, até mesmo do Nobel para o Bob Dylan!


http://vidaliteraria.net/literatura-brasileira-4-gertrude-sabe-tudo/

Sarau Letras & Sons

Mensalmente tenho participado do Sarau Letras & Sons, organizado pelo amigo Heleno Álvares.
Rafael Nolli e Heleno Álvares (com seu olho biônico)

L. Rafael Nolli e Heleno Álvares

quinta-feira, 27 de julho de 2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Corpo



(poema sobre uma notícia real)

1
Quando arrombaram a porta – com um solavanco e um pé de cabra – os enlatados já estavam com a data de validade vencida em dez anos, pelo menos.

Alguns objetos da cena – tv de tubo, telefone fixo, vitrola, vídeocassete – já não se fabricavam mais: foram eliminados ou sofreram saltos evolutivos: pouco lembravam aqueles sáurios.

Quando entraram na sala, um presente de Natal – de dez anos atrás! – aguardava para ser aberto (ou enviado) e não seria jamais: tudo fora adiado para sempre naquela casa.

2
O corpo da mulher estava lá
quando arrombaram a porta:

em meio à mobília
diante da tv desligada
a dez anos, pelo menos:

nenhum telefonema
nem uma única visita

O corpo em meio à mobília
esquecida por uma década:
dezenas de aniversários
ceias
bodas
reuniões do condomínio (centenas delas!)
bailes do Clube dos Aposentados
todos passaram em branco

Ninguém para reclamá-la
nenhum vizinho ou amante
que tenha dado por sua falta

Sobre a cômoda, coberta de pó
a caderneta de endereços
abarrotada de nomes

3
Nenhum inimigo fiel & impiedoso para cobrar uma dívida, para esclarecer velha rixa – para perdoar uma rusga do passado,          

ou um passante, incomodado com o mal cheiro, ou um voyeur acampado no edifício em frente, ou um ladrão sorrateiro. Ou um dos filhos.

Quando arrombaram a porta e entraram na casa, viram o corpo de dez anos atrás, esquecido como um animal no meio da mais obscura floresta, largado na mais completa solidão

(lá fora, a cidade fervilhante).

4
Quanto tempo terá resistido o cão
– desesperado & faminto –
após a morte da dona?



sábado, 22 de julho de 2017

Os Mortos da Véspera



uma nova guerra se anuncia
antes da chama da anterior se apagar

(aqui havia uma casa
e há fumaça escapando de seus escombros:
talvez alguém tenha sido feliz
onde agora só há destroços)

uma nova guerra se anuncia
antes que as crianças
– que mal sobreviveram à última –
tenham tamanho suficiente para empunhar uma arma
ou saibam pelo menos amarrar o próprio cadarço

um avião risca o céu, anunciando
(ainda sequer enterramos os mortos da véspera)



07/07/17