sábado, 18 de fevereiro de 2017

A mulher começou fumar


1
a mulher começou a fumar
não havia nenhum fumante na família
ocorrendo certo desconforto
– desde sempre, pelo que se lembrava –
quando fumavam perto dela

o turno na noite
– em um estacionamento de shopping –
convidava à solidão

às vezes
no descanso do lar, ocorria de ouvir
o som dos pneus, riscando o chão
quando manobravam antes da rampa

2
se lembrava da mãe comentar
– com uma ponta de ironia –
que se não estudasse acabaria secretária
fato que lhe parecia
– no momento
– convenhamos! –
melhor do que aquilo

o pai amenizava
contava nos dedos os diplomados
– só no seu lado da família –
que terminaram assim:
“muito trampo / pouca grana”

uma tia
– um tanto distante na genealogia –
– ele frisava –
tinha devorado os livros
e terminara em um caixa de supermercado
“contando o dinheiro dos outros”

3
certa noite
pegou um guimba no chão
– perto de onde os carros manobravam –
e deu o primeiro trago

não havia um único fumante na família
ela pensava entre um &
    outro trago



Elegia nº 2

Sorriwing Old Man (At Eternity's gate) Vicent van Gogh

1. Quando a indesejável das gentes chegar

o que estiver em andamento findará
& não haverá mãos que o resgate:

o pão com manteiga sobre a mesa
(mordido uma única vez)

a reforma do telhado
(antes da temporada das chuvas)

o poema derradeiro
(abortado na última estrofe –

restando apenas [talvez]
o ponto final)

2
pequenas coisas, de uma banalidade ímpar
exigindo algum engenho & muita paciência:

encontrar o carro estacionado em local ignorado
(em alguma rua nas proximidades –
não mais que dezenas delas em dois quarteirões)

“alguém precisa ir alimentar o gato
& dar de beber às samambaias –
sabe-se aonde guardava as chaves de casa?”

quitar uma pequena dívida no mercadinho
(algumas maçãs, uma garrafa de mel, cachaça –
“não há nota”, diz o cobrador meio encabulado)

3
o morto não se enterra sozinho
havendo em torno diversos encargos:

alguém que pague tudo (caixão,
carneiro, lápide)
& seja justo no rateio entre os familiares –
“a cada um segundo as suas possibilidades”

cabendo a outrem a inglória parte
– quem há de fazê-lo sem se lastimar? –
de ligar para a mãe
(aquela que o carregou por 9 meses)
que antes de se desesperar
encontrará forças
para ligar para a manicure

& desmarcar o horário



Uma rosa, apenas


1
o entregador
– jovem em seu uniforme –
carrega consigo uma flor 
segue a segurando pela cabo
(que displicência!)
com as pétalas voltadas para baixo

é possível que perca alguma!
uma pessoa pensa ao observá-lo

pouco antes do momento da entrega
– aqueles segundos de ferro –
retomará a postura e, com a mão livre,
ajeitará a gola da camisa

sem perceber que seu rosto organiza
(colocando um par de músculos à prova)
seu melhor sorriso

2
a mulher
– que nunca foi amada –
carrega consigo uma flor
presa junto ao corpo
como se levasse um filho:
não um filho nascido: 
um que se faz em segredo no útero

quem a enviou?
– ainda que feia e de poucos atributos –
não há como saber
(& o entregador tão pouco pode revelar)

“para cada pé, há um sapato!”
alguém que observa pensa;
“para cada panela, uma tampa!”

talvez nem ela saiba – e convenhamos –
é possível se tratar de um engano
(e não de um admirador secreto)

ou de uma peça pregada pelas amigas
(e não de um amante)

ou ela mesmo se presenteou
(a solidão, por que não,
que companhia!)

mas como está feliz
nota-se pela forma
– discreta –
que olha para a flor
enquanto aguarda o ônibus