domingo, 15 de setembro de 2019

Como escrever poemas?



há muitas técnicas & diversas estratégias
para se sustentar um poema
(por mais de algumas páginas)

há muitas possibilidades & vários subterfúgios
para se sustentar um poema
(por mais de algumas estrofes)

há muitas formas & várias táticas
para se sustentar um poema
(por mais de algumas linhas)




sustentar, no sentido amplo:
manter o poema de pé (evitar
que ele caia) e mantê-lo caminhando (ca-
da palavra um passo – para ficar claro! –
de uma longa caminhada);

sustentar, no sentido objetivo:
manter o poema vivo (algo
orgânico ou uma amálgama)
para evitar que dele – do poema –
o leitor se perca & escape do meio da frase;




sustentar no sentido de animar (ânima)
no sentido de mantê-lo alimentado
como a um animal ferido
(um pássaro que quebrou uma das asas
por exemplo
– coisa sem esperança –
mas que ainda tem a sua alma)



sustentar no sentido de animar
ou no sentido de mantê-lo alimentado
como a um filhote de cão
por exemplo
que foi abandonado
(aonde se divisa ainda uma ponta de fé)



sustentar no sentido de animar
ou no sentido de mantê-lo nutrido
como se nutre uma fogueira
quando se está perdido na mata
por exemplo
& não lhe resta mais nada
além da esperança
(essa palavra tão desgastada)
& um cão para lamber as suas chagas





ps.

Trecho de meu novo livro, ainda sem título (única coisa que falta para dá-lo por acabado!).

Há muito tempo queria escrever um longo poema, mas faltava uma ideia que me empolgasse para ir além das primeiras páginas. 

Em fim, acho que farei um pdf da obra e disponibilizarei por aqui: tenho outros três livros prontos e é fruntrante ir acumulando livros, guardados em uma pasta, sem nenhum leitor. 


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A poesia é como um diamante



A poesia é como um diamante, mas não a joia toda: só o que está no seu miolo – e que, se supõe, não seja em nada diferente do entorno.

Olhando atentamente, colocando-o contra a luz, é possível ver esse miolo (que, a partir de agora, chamaremos de coração).

Porém, o que se vê, se vê através de um prisma (certamente uma armadilha); e o mais tocante, só se vê através dele (e não ele em si).

Porém, o que se vê, se vê da mesma forma que se vê o corpo do fantasma: supondo, crendo, extrapolando, pressentindo (de físico, talvez – e só talvez –, os pelos do braço ouriçados).

Pedra dura demais (vulgar chamar um diamante de pedra) é possível destroçá-la a marretadas (com muito esforço) e selecionar ao acaso um pedaço qualquer (semelhante a um caco) e elegê-lo "O Coração"



(idêntico aos outros fragmentos, esse será, de qualquer forma, o fragmento falso).


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Plug n’ Play

(Ctrl C, Ctrl V em um tema de M. Bandeira)
Para Ricardo Wagner



Não me venham com uma poesia que não esteja inflamada de morte: onde nem todo antibiótico do mundo possa surtir efeito; não me venham com uma poesia que não esteja intoxicada, que seja análoga às mensagens dos suicidas, aos bilhetes dos seqüestradores e as cartas-bombas dos que resistem

– e que da boca prefira o beijo à mordida.

Não me venham com uma poesia que não esteja em guerra: esses pequenos anúncios sobre biomas familiares, infestados de bactérias da moral conservadora, que veio escondida no bolor das bíblias e na sujeira da cueca dos padres

– e toda a merda sobre o amor adolescente, que culminou em frustração irreversível, visitas aos psiquiatras behavioristas e horas de onanismo diante do espelho embaçado do banheiro.

Não me venham com uma poesia que não esteja de pé, caminhando pela boca negra da madrugada, cheirando o cio dos que sofrem por não estarem se matando para alimentar os donos de __________, o proprietário da ___________, e os arrendatários dos ___________; uma poesia que não esteja agora farejando o fedor do sangue dos que foram mastigados pela fome, que não possuem sequer a terra debaixo das unhas

– e toda a bobagem umbilical, encharcada de nostalgia hanna-barberiana: o campo de futebol de terra batida e o jardim privado, que deveriam ter sido varridos da história, sobretudo com seus personagens: futuros técnicos e operadores da moenda capitalista, esfomeada por braços.

Não me venham com uma poesia artificial, criada no semi-árido dos dicionários, no glacial coercivo das gramáticas: essas invenções laboratoriais sintetizando o som das caixas registradoras e o canto das máquinas de refrigerantes

– e tudo aquilo que acalma: o verso que não esteja envenenado para matar the dear president; e tudo aquilo de inútil e irrelevante: adultérios bem-comportados que causam sono nos confessionários e levam ao bocejo os telespectadores das novelas das 6; e tudo aquilo de covarde: o poema que pede por favor para que as pessoas tumultuem.

Não me venham com uma poesia que possa ser lida nos salões sem despertar o pânico e instaurar o caos: essa poesia que o rádio transmite sem tirar o sono de ninguém, que tenha uma pátria e atenda por um nome

– e que da cama prefira o sono ao sexo.







* Poema escrito em 2007, para o livro Comerciais de Metralhadora

terça-feira, 28 de maio de 2019




Fará mal quem te possuir
se não a chupar até o tutano dos ossos:
será equívoco, errôneo

Pecará, quem te possuir,
se não a eletrificar com a língua quente
experimentando teus temperos naturais:
deixá-la trêmula, quase com medo

E errará duplamente se não a cozinhar bem
mui bem cozida, antes de comê-la o cu



sábado, 4 de maio de 2019

A palavra Saudade só existe na Língua Portuguesa



Desde sempre aprendemos na escola o quanto a língua portuguesa é linda, tendo a sua origem latina, que a opõe às línguas bárbaras; línguas essas muitas vezes escassas de vogais e desprovidas de acentos; aprendemos – meio a revelia – o quanto a Língua Portuguesa é bela, sobretudo quanto contrastada com as línguas de origem não romana, que nos são apresentadas como duras ao passarem pela garganta e mais duras ainda ao atingir os ouvidos (o que é uma bobagem de se dizer).

Claro, há uma regra ortográfica que nos diz que toda sílaba deve possuir uma vogal para existir, e toda palavra é composta por sílabas, logo... Mas é uma comparação boba e reducionista crer que nossa língua é bela por ter muitas vogais. Se formos fazer esse tipo de comparação, usando como recorte o tcheco, por exemplo, até que pode ser que essa impressão proceda. Alguns exemplos na língua tcheca para arranhar a garganta (e dar um nó na pronúncia):


Vlk: Lobo
Krk: Pescoço
Skrz: através
Krk: dedo
Ctvrt: quarto


Claro que dizer isso é uma bobagem absurda, e fazer essas comparações idem, pois há beleza em toda e qualquer língua, independendo o uso de vogais (e para isso ficar claro, seria necessário mais de um parágrafo sobre o relativismo cultural, mas não é esse o caminho que quero seguir nesse texto).

No entanto, não deixa de ser interessante de se pensar que herdemos um idioma belíssimo e o moldamos ao longo do tempo, mesclando-o ao substrato de línguas que já existiam por aqui e outras que arrastamos para cá (a ferro & fogo).

No entanto, não deixa de ser interessante de se pensar na beleza do nosso idioma nesse momento de muitos nacionalistas que amam não só a cultura estrangeira, mas se arrolam em bater no peito e defender o inglês (dos isteitis) como sinônimo de língua perfeita (é fácil, pois “tem uma estruturação gramatical mais simples” & “nem acento usa!”).

Aquele belo poema do Bilac, denominado – muita acertadamente – Língua Portuguesa, sempre mostra as caras nos livros didáticos, como um patrimônio (e o é): Última flor do Lácio, inculta e bela”, sendo a palavra “inculta”, às vezes, mal compreendida: inculta, por derivar do latim vulgar, aquele latim falado pelo povo; inculta, por se opor ao latim clássico, escrito, regido por regras gramaticais (ainda hoje, o termo “gramática normativa” e todo o seu peso, é o pavor de muitos; pavor meu, inclusive). Sobre o belo, não há nada a se dizer além do óbvio: é bela pela sua literatura, é bela pela sua poesia, é bela pela cultura que ela transporta (ou transborda), é bela, etc... etc... etc...

Nessa mesma toada, outro poeta, em outra época, também cantou a beleza desse idioma. Em “Língua”, Caetano Veloso canta: "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões” & “Minha pátria é minha língua” & “Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó". Coisa linda de se ouvir, com certeza absoluta.

Mas não é sobre a beleza da Língua Portuguesa e suas raízes latinas que eu quero falar. Não mesmo (até mesmo por que me falta lastro para tal, mesmo em um post despretensioso). Esse preâmbulo fica como isca para o que realmente me trás aqui, nesse textão de facebook: desde sempre aprendemos na escola que a palavra “saudade” é exclusividade de nosso idioma. Um dos nossos patrimônios, a palavra saudade, aprendemos na escola (meio a revelia).

Claro que dizer isso é uma bobagem absurda, pois não só o nosso idioma tem a sua gênese na língua dos romanos (imposta a ferro e fogo, diga-se de passagem), logo, as outras línguas neolatinas, por extensão, também tem uma Saudade para chamar de sua.

Por exemplo, em espanhol há a palavra Soledad, tal como há Soledat em Catalão; o Romeno, que também tem um pezinho no latim, tem um correspondente: a palavra durere. O mesmo ocorre com a palavra tesknota, em polonês (uma língua deveras bárbara).

Porém, como fica claro, em ambos os casos o sentido é um tanto diverso do que damos a nossa palavra Saudade. Para eles, essa palavra está ligada a uma ideia de “nostalgia de casa”, um termo para se dizer que se está com “vontade de voltar ao lar”. Há, um caso bem interessante com a língua de Goethe: fernweh significa sentir saudade de um lugar onde nunca esteve! Coisa que nossa língua não tem! Ou tem?

Outro caso interessante ocorre com o árabe, onde há uma correspondente bem próxima do sentido que damos a nossa palavra saudade. Mas nesse caso, não se trata de uma única palavra, mas do termo “alistiyáqu 'ilal watani”.

A palavra saudade vem do latim “solitate” (isolamento, solidão), esses casos apresentados também flertam com esse sentido. Nossa palavra saudade e as palavras solidão e isolamento – isso é bem claro – são muito diversas desse significado: nossa saudade pode ser sentida em meio a uma multidão, numa metrópole ou num camarote vip.

Nossa saudade, na maioria das vezes, é expressa como algo bom: um desejo de rever uma pessoa, uma vontade de reviver algo do passado (um beijo, uma viagem, uma ida ao restaurante); nossa saudade (a palavra) quase sempre é um pretexto para reencontrar um amigo que se distanciou, uma amada que foi abandonada (ou que nos abandonou), etc.

Creio que a originalidade da palavra saudade em língua portuguesa seja essa.


Um dia, pensando nessas questões (a beleza da Língua Portuguesa e a origem e originalidade da palavra saudade), resolvi escrever um poema sobre o tema.

Ei-lo:

___


Saudade, a palavra

1
Saudade não se traduz
Ninguém a sentia
senão os portugueses que a espalharam:
pastores, poetas, pulhas

(como a gripe, a varíola & o sarampo)

até o mundo todo ficar contaminado

2
Ninguém sentia saudade em russo?
O que corria nas cartas de Maiakovisk?
O que sentiu Gagarin ao ganhar o céu?
Qual era a cor dos olhos de Lênin no exílio?

3
Uma palavra inaugura tudo?
Inventá-la, ou traduzi-la
basta para (a palavra
ou o que ela transborda)
nos colonizar?

4
Tudo, dizem os filólogos
pelo fato de os lusitanos
errarem pelos mares
(nunca dantes)
deixando para trás as noivas
(por casar)
os filhos, o cachorro, o gato

– aliás
saudade é para quem fica
ou é algo que se reparte?

5
Mas e os outros povos, não erraram?
Gregos e Persas pelo Egeu
Fenícios nas praias da China
Vikings se bronzeando pela Linha do Equador
A Invencível Armada posta a pique
encharcando de sangue o Pacífico

Se não eram saudades o que deixavam
– no coração de suas amadas –
 o que seria então?

6


Quanto desse sal?

quinta-feira, 21 de março de 2019

Um Poema Sobre Gatos


1
todo poeta deve escrever
(ao menos uma vez na vida)
um poema sobre gatos
mesmo que não os tenha por ignorância
mau-caratismo ou alergia

não confundir com escrever poemas felinos
que isso sequer existe:
felino só pode ser o gato
ou os seus primos selvagens
(a onça, a jaguatirica, o leopardo)
& um poema é um poema é um poema
e nada mais

2
todo poeta deve escrever
(ao menos uma vez na vida)
um poema sobre gatos:
para isso, deve buscar as melhores palavras:
toxoplasmose, descarta-se de imediato
(não há espaço aqui para blasfêmias)

preferível citar garras, caixa de areia
ronronar, bola de pelos
língua áspera, passarinho:
na falta de inspiração
cogitar usar um rato como antagonista
ou uma menina solitária como companhia

3
todo poeta deve escrever
(ao menos uma vez na vida)
um poema sobre gatos

ao fazê-lo que não cometa o disparate
(a heresia)
de compará-los aos cães
ou aos ladrões sorrateiros

se for cometer esse sacrilégio
que o faça em um livro de prosa
e deixe a poesia fora disso



.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Brumadinho e Pompeia

Em meu segundo livro, Elefante, publicado em 2013, escrevi uma série de poemas, todos girando em torno do mesmo tema: a possibilidade do homem permanecer na terra, extrapolando as limitações de sua breve existência.

Em cada poema especulo sobre uma possibilidade de permanência. Por exemplo, há um poema sobre o homem que permanece por causa de sua fama (sobrevive ao tempo seu nome e sua obra); há um poema sobre aquele que permanece mumificado (as crianças incas, as múmias egípcias); há um poema sobre o homem que permaneceu criogenado e que foi encontrado nas montanhas por um grupo de alpinistas, etc...

Um poema em particular me veio a mente um dia desses. Trata-se de um poema sobre os homens de Pompeii, Herculaneum e Stabiæ, que permaneceram, após a morte, petrificados pela lava do vulcão Vesúvio. Hoje resolvi inserir na obra os homens que permanecem – após a morte – soterrados em Brumadinho.

No dia que a catástrofe ocorreu – esse crime monstruoso perpetrado pela Vale – me ocorreu uma relação próxima entre esses casos.

Segue o poema, atualizado:




2 – Cemitério de pedras
b) Pompeii, Herculaneum, Stabiæ, Mariana e Brumadinho
Lá no alto, o albatroz se mantêm imóvel no ar – Echoes, Pink Floyd

Estão guardados
por Hēphaistos                                                     [Ήφαιστος]
ou O Coisa,
do Quarteto Fantástico

Onde a terra vomitou as entranhas           [Dispepsia aguda - δυςπέψη]
expondo sua congestão                             [rochas ígneas extrusivas]
(todo bicarbonato do mundo                    [NaHCO3]
não aplacaria a sua fúria)                               

São milhares de homens
eternizados pelo magma                               [Vesúvio]           
ou pela lama                                                 [Vale]
estranhas crisálidas de rocha                      [fluxos piroclásticos]
entregues à excursões turísticas
– numerosas & ruidosas –
e seus milhares de olhos digitais

Onde talvez (pouco
se sabe) em outras camadas
se escondam outros fósseis –                      [Mammuthus lamarmoræ]
vítimas de semelhante cataclismo                [Kατακλυσμός]
          em outro Æon                                    [Farenozóico]

Guardados, como em uma maldição,
sob a pena de possuírem um sono leve


debaixo de pálpebras de pedra




Elefante, 

Rafael Nolli
Coletivo Anfisbena, 2013

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Carta aberta aos amigos poetas, editores, leitores de poesia e demais interessados no mercado editorial



1
Que ninguém lê poesia é uma certeza que temos. Basta notar a baixa visualização nos contadores de visitas nos blogs dedicados a poesia, sobretudo em blogs autorais, onde poetas “sem nome” postam os seus versos. Talvez essa realidade se repita também em blogs dedicados a poetas consagrados, que já atingiram o patamar de medalhões e são tratados como cânone... mas sobre isso, não sei precisar.

Também chama a atenção as baixas tiragens em publicações do estilo: é comum edições de 200 exemplares, havendo editoras que publicam sobre demanda, imprimindo 50 (cinquenta!) exemplares!

Basta lembrar que vivemos em um país que atualmente passa de 208 milhões de habitantes para percebermos que uma tiragem de duzentos exemplares é ridícula! Agora, imagine o quão ridícula é uma edição de 50 exemplares! É o número aproximado de pessoas dentro de um ônibus, sacolejando pelas ruas da cidade.

Interessante imaginar que muitos desses poetas possuem cinco mil “amigos” no facebook, alguns milhares de seguidores no twitter e ainda “militam” em outras redes sociais com outras centenas de seguidores! Eu, por exemplo.

Muitos teóricos (tanto diplomados quanto de botequim) vivem levantando questões relacionadas a esse panorama desesperador, apontando muitas razões e indicando estratégias para contornar o quadro:

falam que há mais poetas que leitores;

alegam que há anos não existe política de incentivo à criação de novos leitores (talvez nunca tenha havido uma política efetiva nessa área!);

discorrem que a poesia – ela mesma – é a culpada por ser indiferente ao mundo real, se limitando, na maioria das vezes, a ficar entrincheirada em uma torre de marfim;

discorrem que a culpa é da poesia (coitado da poesia!) que aposta no hermetismo em um mundo de muitos analfabetos e de carência astronômica em interpretação de texto;

tem até mesmo aqueles que dizem que a culpa é do poeta (“feto malsão, criado com os sucos de um leite mau”) que em sua torre de marfim se apoia na metáfora mais complexa e nas citações mais obscuras (para se supor elevado/intelectual); ou em sua torre de marfim o poeta (“carnívoro asqueroso”) deseja ser difícil, rigorosamente abstrato, entregue a jogos criativos de palavras que só conseguem interessar os versados em linguística, os doutores em gramática e os especialistas em línguas mortas;

apontam que não há poesia contemporânea (a poesia feita agora mesmo) nos livros didáticos –livros esses que ainda dedicam parte significativa de suas páginas ao barroco, ao arcadismo e ao parnasianismo (que vem ser estudados, mas não só);

muitos acreditam que falta espaço na mídia tradicional; que falta investimento em marketing por parte de editores; que é necessário ampliar os canais de divulgação, com campanhas mais ferozes de convencimento (como se faz com facas ginsu, limpadores multiuso e whey protein);

dizem, entre tantas outras coisas, que o livro é caro num país quebrado (ainda que muitos gastem rios de dinheiro com academias, bailes, boates e cremes milagrosos para a pele rugosa do cotovelo); dizem que a vida hiperconectada é apressada e a concorrência com os jogos eletrônicos, TVs a cabo e pornografia abundante & gratuita é desleal... O que resume tudo a uma questão de prioridades.

É uma questão complexa e obviamente há exceções: alguém deve estar encontrando público e conseguindo ser lido por um grupo maior, vendendo além dos três dígitos. Deve haver alguém em sua torre de marfim sendo ouvido por uma centena de milhares de iniciados e algumas centenas de incautos. Deve haver alguém fazendo poesia – rimada, ou não; complexa ou não – e conseguindo pagar pelo menos o aluguel com os dividendos conquistados com a escrita dos versos.

É uma questão complexa e o problema possivelmente está em todos os tópicos listados nesse texto e mais em outra dezena de possibilidades que me escapam agora.


2
Que ninguém lê poesia é uma certeza que temos. E quando leem não deixam rastros. Recentemente, me surpreendi conferindo o contador de visitas em um blog coletivo que participei, o Poema Dia. Notei que a média de visualizações em algumas postagens estava muito alta para o padrão: 600 visualizações no geral! Porém, nenhum dos meus poemas, visualizados “tantas vezes”, tinha ao menos um comentário.

Seiscentas visitas é pouco, bem sabemos, sobretudo se recordarmos a dimensão populacional do Brasil, como mencionado na primeira parte desse texto: vivemos no quinto país mais populoso do mundo, com 208.846.892 habitantes! Seiscentas visualizações (em três anos!) não é nada, não representando nem a ponta da ponta do iceberg das possibilidades. Ressalto: por menor que seja esse número, a nulidade nos comentários é surpreendentemente desanimadora. Quando leem, como disse, não deixam rastros.

Hoje, mais uma vez me surpreendi: descobri, em outro blog coletivo, chamado Manufatura, que uma postagem minha de 2016 tinha conquistado a atenção de 14923 pessoas. O poema se chama “Essas Palavras Murmuradas na Varanda”, título que tirei do Romanceiro da Inconfidência, da Cecília Meireles.

Imaginei que por conta dos algoritmos, o nome da poeta e do seu célebre – e, ao meu ver, excelente – livro, atraiu os desavisados que chegaram navegando em busca de uma coisa e encontraram outra: e já que estavam ali, leram o meu poema. Leram e foram embora, sem deixar pegadas: foram 14923 visualizações e nenhum comentário sequer. Nem um!

Conferi outras postagens no blog Manufatura: muitas apresentavam menos de 20 visualizações, outras com poucas centenas de visitas e outras postagens com visitações astronômicas superiores a 15 mil. Em comum, essas postagens tinham algo: nenhum comentário (ou, quando muito, cinco ou seis balbucios elogiosos). No geral, a grande maioria dos poemas estava relegada ao silêncio.

Ficaram guardados ali, sem serem lidos, sem despertarem qualquer comentário: nada de reclamações, de críticas (de qualquer espécie) ou de emoticons de coraçãozinho.


3
Não que o valor de um poema deva ser medido pela quantidade de leitores. De forma alguma acredito que o valor de um poema (ou de um livro de poemas) esteja ligado ao número de exemplares vendidos ou ao número de likes e retuítes. Basta ver os best-sellers do momento que vendem milhões de exemplares, angariam multidões de seguidores (ou seguimores), e têm muitas vezes qualidade literária duvidosa.

O problema é outro. O problema é o fato de o poeta escrever em um mundo de poucos leitores (sobretudo de leitores de poesia), um mundo de mínimas possibilidades de publicação e praticamente nenhum incentivo. E não entendam “incentivo” como um tapinha nas costas, um elogio vazio do tipo: “muito bom”, “arrasou”, “lacrou”, “continue assim”, “<3 o:p="">

O poeta logo percebe que escreve para ninguém, ou para outra dezena de poetas; logo percebe – ou talvez nunca perceba? – que se contenta com migalhas: fica feliz com meia dúzia de visualizações em seu blog, regozija com 200 exemplares de um impresso em circulação e perde o sono quando descobre que teve um poema com 14923 visualizações (mesmo que sem nenhum comentário na caixa de mensagens).



4

Essas Palavras Murmuradas na Varanda

“Se vós não fôsseis os pusilânimes,
confessaríeis essas palavras
murmuradas pelas varandas”
Cecília Meireles
1
eram três ou quatro pessoas
e viviam às margens
conspirando
pequenos & rudimentares
como peças
se desgastando dentro da engrenagem

2
muitos não eram
pois deixavam rastros por todo lado
e era coisa pouca
como os restos que deixa um ou dois ratos

3
Eram três ou quatro
não se sabe ao certo
porém era óbvio que o número bastava:

incomodavam
feito uma dor pequena
tipo uma espinha na testa
/ uma cutícula inflamada

4
Muitos não eram
e quando vinham à tona
estava claro
a luz os incomodava

semelhante ao pirata
ou seu prisioneiro
que passou tempo demais no porão
preso em ferros
ou comendo escondido as provisões

5
eram três ou quatro
e no meio das pessoas
– contra quem atentavam –
poderiam passar despercebidos
mas não passavam:
os denunciava uma marca secreta

não se podia explicar o que era
nem precisava

04/12/16



L. Rafael Nolli. 16/02/19