terça-feira, 13 de novembro de 2018

Achados & Perdidos

{...}

E as artimanhas do Destino ficam explícitas ao se analisar o contexto.

Funciona assim: um dia, uma mulher caminha pelas fileiras de um sebo. Os livros estão lá, esquecidos, surrados pelo tempo, cobertos de pó de diversas eras[1]. Há quem os compare com vinhos envelhecendo, maturando o sabor & a cor – outros, com a cachaça calibrando a embriaguês.




No meio de milhares de obras, a mulher puxa um exemplar aleatoriamente. Aquele não é o título que ela estava procurando – pega-o por impulso. Aquele não era o volume que lhe tirou da cama de manhã e a fez sacolejar em duas conduções – pega-o instintivamente, como fizera com outros dois volumes,
               duas prateleiras acima,
               dois minutos atrás.
                                          
Dessa forma, o Acaso coloca em suas mãos o livro que ela havia emprestado e que tinha simplesmente desaparecido. Depois de décadas sem paradeiro conhecido, depois de décadas de ostracismo & silêncio, ele está novamente diante dos seus olhos, como um amor do passado que se revê na fila do supermercado.




A história é simples. O que nos basta aqui é perceber como a Roda do Destino[2] agiu secretamente. Como o Destino arquitetou lentamente esse reencontro, sem pressa, semelhante a um assassino aguardando a poeira abaixar para voltar à cena do crime. Pode-se resumir tudo em dois excertos, pois a trama exige pouco para ser exposta.

O livro emprestado
– com a garantia de ser devolvido em breve –
foi passado adiante.   De mãos em mãos, seguindo sem rumo, até cair nos domínios de alguém que viu uma oportunidade de ganhar uns trocados vendendo-o. Para inocentá-lo, podemos imaginar que o cidadão pretendia salvar o almoço e garantir uma ida ao cinema. Aquele livro, imaginemos, deve valer algo!




Ou podemos imaginar, já que tudo nos é permitido, que ele misturou aquela obra a outras obras que achava ser de sua posse. 

O divórcio
           – ou viagem inesperada para assumir um cargo – obrigou-o a se desfazer de diversos pertences. Aquele livro foi só mais um, entre tantas coisas que foram deixadas para trás.

Por que não inocentá-lo? Reencontrar essa obra, tanto tempo depois, não é melhor do que tê-la em casa? Reencontrá-lo, não é a maior garantia de que ela deverá relê-lo?

O pior dos esquecimentos é deixar um livro fechado, não lê-lo. O livro fica lá, alimentando as traças[3].




Podemos imaginá-lo (o livro perdido!) em uma caixa com outras dezenas de obras, seguindo por caminhos tortuosos, no porta-malas de um fusca;

depois, imaginá-lo por dias em um depósito escuro aguardando triagem;

imaginá-lo deixado em uma pilha de obras variadas, sendo manipulado por dezenas de curiosos, anos a fio.

Assim, vencida as etapas de seu calvário, acabaria entre os itens promocionais, onde seria finalmente resgatado.

O livro de volta às suas origens, como que cumprindo um ritual. Como que fechando um ciclo.[4]

{...}




ps
Trecho do livro Achados & Perdidos
Rafael Nolli
ps 2
Ano que vem o livro deve ser publicado: 
ps3
No original, a diagramação, não é exatamente essa.




[1]desfilam ante meus olhos títulos maravilhosos moribundos de tanto estar nas prateleiras”. Angélica Freitas, Rilke Shake. Nota da revisora.
[2] Sobre o Destino aqui mencionado, um adendo: As moiras (em grego: Μοῖραι), na mitologia helênica eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Nota do Autor (descaradamente um Ctrl C, Ctrl V no Wikipedia).
[3] Lepisma saccharina, o terror dos sebos e dos bibliófilos. Nota do editor, de novo.
[4] O Eterno Retorno, Friedrich Nietzsche: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar”. Nota do Autor.

sábado, 13 de outubro de 2018

“Que são os homens, comparados com rochedos e montanhas?



1. Arquimedes

os homens da prefeitura
não são nada diante da rocha
que desceu a encosta
e sem nenhum aviso
estrangulou o trânsito

como seria óbvio
– Arquimedes o atesta –
tentaram removê-la com uma alavanca &
           um ponto de apoio
& nada conseguiram

de longe os curiosos
– atrás da linha de isolamento –
erguiam a cabeça
como no zoo ou nas rinhas de galo

2. dividir & conquistar

mesmo esses outros homens
com sua especialização
“transporte
& manuseio de material explosivo”
nada são diante da rocha

conseguirão, por fim,
além de um estrondo
dividirem-na em dois
e só
           
– Pobre dos cães!
comenta uma senhora
tapando os ouvidos

3. em minhas retinas tão fatigadas

o carro foi pego de surpresa
“no lugar errado / na hora errada”
– Ainda não se sabe se há passageiros!
segundo a jornalista

sublime a indiferença da montanha
fazendo sombra sobre a cena



quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Aos 37 anos de idade




amigos eram muitos
e vinham em manadas
pouco se exigia
quando iam embora
logo logo voltavam
a noite era pequena
o dia voava alto
e de repente não temos nada

felicidade crescia solta
debaixo de nossos pés
em qualquer pequena fresta
sem maiores explicações
brotava verde e vistosa
e de repente não temos nada

a vida era simples
de uma generosidade imensa
sem mais nem menos
o pouco ou o suficiente nos bastava
e de repente não temos nada




24/01/18

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O mendigo

Les Moutons, Max Ernst, 1920

o velho 
mendigando nos sinais da cidade
não era visto por ninguém
ainda que terminasse o dia
com o copo cheio de moedas

talvez nem velho fosse
e o pouco tempo
– duro por demais –
lhe bastara para sulcar o rosto
branquear os cabelos e a barba

tinha pouco mais que a roupa do corpo
– um monte de farrapos –
um cobertor sujo que lhe servia de morada

não tinha nome nem idade
não vinha de lugar algum

aonde caísse morto, seria enterrado






Para Gilberto, assassinado ontem, dia 21/01, em Araxá MG.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ontem




como se uma catástrode
de proporções globais
tivesse acontecido


porém só em mim



10/01/18

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

LambeLambe

Meu haicai nos postes de São Paulo, Capital.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Cidadão de Bem



1
execrável o cidadão exemplar
que segue à risca todas as regras
e não se envergonha
de ser mais realista do que o rei

a plateia
por exemplo
que em 68
vaiou Caetano

2
execrável o cidadão exemplar
que venceu na vida
– existirá meios limpos? –
que defende a ignorância
com unhas & dentes
algumas citações da bíblia
um trecho da constituição
um artigo da lei

o síndico
por exemplo
que chamou a polícia
para tirar os Beatles do telhado





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Sinopse de uma ameaça

A Morte Cansada (Fritz Lang, 1931)

Quisera me matar por nada. Era o seu prazer dizer vou te matar. Adorava explicar como estrangularia – ornava as palavras com gestos expressivos, usando as duas mãos que possuíam calos de punheta e canivete. Os dedos se retorciam como as raízes de um mangue, enquanto a boca torta defecava palavras empoeiradas. Vinha de seu âmago o ódio que lhe tomava as rédeas da razão, que era pouca e epiléptica. O seu vou te matar, nascia quase no intestino grosso e subia, emporcalhando de merda o corpo acima – se tornando pedra na subida severina; feria as paredes da garganta e arranhava o esmalte dos dentes: nasalava sua voz ao sair-lhe pelas ventas, deixando seus dizeres quase engraçados – se não fossem trágicos.
Estava , diante de mim, seu dedo espichado e retorcido. Caranguejos passeavam debaixo da unha, que quase tocava meu nariz, coreografavam um balé ridículo, em marcha ré.
E era por nada, todo aquele ódio. Vou te matar e pronto. Não iria roubar relógio, bater carteira, sequestrar mãe, sodomizar as irmãs, mijar nos pôsteres na parede. A ameaça era certeira e precisa. Quando se distanciava um pouco de seu objetivo, dizendo em volteios sua ira, essa se abrandava em meio a um vocabulário reduzido de expressões atômicas: as palavras tornavam-se turvas, desprovidas de analogiamas sabido como era, logo voltava a frisar seu intento e evocar a morte em carne e osso como companheira de empreitada.  
Ninguém podia duvidar que em breve haveria um corpo estatelado no chão, retorcido de dor. Tudo era certo: vou te matar e ponto! Ele achava que me caía bem um cabo de faca saindo pelo umbigo. Parecia haver simetria nessa imagem, o sangue escorrendo, emboçando no chão – o esguicho manchando o couro do tênis: sabão nenhum haveria de limpá-lo! Ninguém duvidava que alguém sairia com o apêndice perfurado ou uma tripa dependurada: todos se perguntando, em particular, se aquilo seria doloroso, com uma ponta de satisfação por ainda terem as próprias tripas devidamente resguardadas em suas barrigas.
Claro, seria eu o agraciado com essa dádiva. Tratei de abrir um guarda chuva dentro de mim, pois havia um temporal me inundando: gotas escapando pelos sulcos arados da testa, onde mais cedo havia plantado algumas sementes de ideias. Estaria estragada a plantação. Não haveria colheita no ano vindouro. Tudo estava encharcado por uma lama espessa, que descia ao olho trazendo um sal amargo que ardia na pupila: a água contornava a sobrancelha, inventando um leito.
Gritar a polícia! Pedir socorro! Apelar pela misericórdia divina! que adiantaria? Os crimes aspiram na lei, não na vontade de cometê-los: em breve ele me encontraria numa rua qualquer. E tudo se repetiria: vou te matar! O dedo imundo me deixando vesgo. O brilho de uma lâmina polida brilhando no canto do olho...
Sem mais nem por que, despediu-se de mim com umavisado.
Apenas em sonhos voltaríamos a nos ver.





quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Os espólios do poeta Ricardo Wagner, em uma caixa, no chão da sala


1
um dia, a mãe do poeta me ligou
o bardo estava trancado no quarto
há dias
com a luz apagada
ouvindo béla bartók ou Dvořák
– não me lembro ao certo

fui lá, persuadi-lo a sair da reclusão:
mas ao contrário do se se esperava
lá me enfurnei também

“só saio se você sair, é um pacto” eu disse

assim
me internei com ele
naquela noite e na seguinte
& falamos de tudo –
absolutamente de tudo

não era a primeira vez que dividíamos a cama
mas foi a última pra sempre

2
uma caixa cheia de livros
é a herança que agora chega até mim
– uma caixa ordinária, de papelão
com logotipo de supermercado

uma caixa cheia de livros
que agora está no chão da sala
me mostrando que a vida
– essa grande aventura –
se desfaz como um sopro

um sopro breve
incapaz de apagar as velas
ou bagunçar o cabelo

3
um dia saímos do quarto - obviamente
talvez seja poético dizer que o cigarro acabou
ou que não havia mais o que comer

ele disse
“cara, tenho que dar um cagão”
abriu a porta & saiu

4
R.W., que merda você morrer
& me deixar essa quantidade de livros pra ler





,

sábado, 21 de outubro de 2017

Brigada de Infantaria Paraquedista

 
O paraquedista - colagem de rafael nolli
1
lançados a mais de mil pés
eram abatidos como aves
           por uma .50

os que aterrissaram no mar
(+ da metade deles)
só foram devolvidos
– & em partes – dias depois:
monte de trapos
parcialmente devorados

outros, de sorte semelhante
terminaram dependurados
– como marionetes –
na copa das árvores
nos fios de alta tensão

2
por três dias combateram
aqueles poucos que restaram

até tomarem a praia (com um nº
considerável de novas baixas)
– bravura! coragem! –
& fincarem bandeira na terra conquistada
   /ensanguentada

eram tantos os abutres
– em volteios lá no alto –
que fazia sombra sobre o cenário

3
o dia todo comemoraram
com canções
& um banquete feito de saques
/pilhagens

não sabiam ainda
– & não haveria como saber –
que sucessivas derrotas
– nas demais frentes de batalha –
havia colocado fim ao combate


Rafael Nolli
07/10/17






domingo, 10 de setembro de 2017

Retrato Falado # 2

John Jarvie


Nenhum poeta está no quarto onde a mãe recebe um pedaço do filho. Aquele que ela amara de bem antes do parto.

O filho não devolvem. Enviam uma bota que ela nunca engraxou – suja de sangue, sem brilho: o calçado que o levou em sua última rota.


O sangue também não é seu, de linhagem: é de alguém que ele matara com um tiro, que aos pedaços recebeu outra mãe, em outra bagagem.




Poema de 2008, escrito depois de ver uma matéria sobre o desespero das mães de soldados enviados para a Guerra do Iraque.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Não, não estamos mais


Não me pergunte mais
Se acaso estamos juntos
Se estamos em paz

Você não soube ver
O belo que havia em mim
E só via o que lhe convinha

Nunca suspeitou do fato
De que amor é mais do que pele e tato
Nunca suspeitou que o profundo
Só se chega atravessando o raso

Não me pergunte mais
Se ainda estamos juntos
Se estamos em paz

Sem alarde, sem guerra
uma pena
saio de cena
a novela aqui se encerra

Você não sabia?
Amor se faz dia a dia,
Olho no olho, pé no chão

A bem da verdade
nunca fui pra ti abrigo
talvez esconderijo
pros tempos de tempestade



(Experimentando escrever letras de música. Essa está na mão de parceiros que já colocaram para caminhar as melodias).