segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Saudade, a palavra



1
Saudade não se traduz
Ninguém a sentia
senão os portugueses
que a espalharam:
pastores, poetas, pulhas

(como a gripe, a varíola,
& a sífilis)

até o mundo todo
ficar contaminado

2
porém
ninguém sentia saudade em russo?
O que corre nas cartas de Maiakovisk?
O que sentiu Gagarin ao ganhar o céu?
Qual era a cor dos olhos de Lênin no exílio?

Uma palavra inaugura tudo?
Inventá-la, ou traduzi-la
basta para (a palavra) nos colonizar?

3
Tudo, dizem os filólogos
pelo fato de os portugueses
errarem pelos mares
(nunca dantes)
deixando para trás as amadas
os filhos, o cachorro, o gato
– aliás, saudade é para quem fica

4
Mas e os outros povos, não erraram?
Gregos e Persas pelo Egeu
Fenícios nas praias da China
Vikings cozinhando no Equador
A Invencível Armada posta a pique
encharcando de sangue o Pacífico

Se não eram saudades o que deixavam
– no coração de suas amadas –
 o que seria então?

5
Quanto desse sal?



O elefante


o tratador com a cabeça
a b e r t a
não pode explicar
a possível dinâmica da FUGA

nada sai de sua boca
senão                                                                 /m i a s m   a/
moscas & frag
men
tos
dos dentes                   /marfimanchados/

(sangue sobre o chão pisoteado
[a arena no triunfo do touro
  ou do toureiro])

o tratador, triturado pelo paquiderme
não pode ver quando
assustado
um milico emerge na cena
pequeno & inútil
o .38 na mão:

o primeiro disparo
põe fim a ladainha dos cães
e ascende das crianças o berreiro





Ars poetica


Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
um homem destroçado vagueando na praia.
                                Drummond

por certo não sou digno da poesia
é o que se comenta
nos pequenos círculos

não comi a flor de lótus
tampouco sai às ruas chapado de rivotril

também disso estou certo
– eles o dizem, por que duvidar –
não evitei o amor
 essa grande balela

sequer morri de tuberculose
(nos corredores de uma biblioteca)

é o que se comenta
quem sou eu para duvidar

não me matei (ou matei alguém)
pelas palavras – ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa, etc & tal –
muito menos tive a Grande Visão

não vendi armas ao rei da Abissínia
ou cruzei o país
– vagabundo em um vagão –
no encalço do Sublime[1]




[1] Nota de rodapé para Ars Poetica

não fui à floresta / comer o verme na carcaça dos pássaros / não sei o gosto da solidão / bebida entre as montanhas / o sabor da solidão às margens de um lago não catalogado / No encalço do sublime, eles diziam // para se escrever poesia / você deve ir ao encalço do sublime // Não fui

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

o que eles irão dizer?

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã

Álvares de Azevedo


1.
o amigo
(se eu morresse amanhã)
com seus versos chorosos
tentará encher um livro de lamentos

o fracasso
– sócio fiel dos poetas –
o assolará, pondo fim a inspiração:

o  livro ficará meio cheio
ou meio vazio?

2.
os companheiros de bar
– um pouco menos que amigos –
(se eu morresse amanhã)
tentarão esvaziar uma garrafa
– do que há de mais forte –
mas a vida
– com as suas urgências –
ou a embriaguês
– com seus caprichos –
os levará antes à lona:

a garrafa ficará meio cheia
ou meio vazia?

3.
o pedreiro
que contraíra as suas dívidas
(se eu morresse amanhã)
não poderá contar com a grana
– a segunda parcela de três –
logo, outro telhado precisará de reparos
e ele seguirá sua sina

esse telhado, meio consertado
(se eu morresse amanhã)
será problema de um novo inquilino

4.
o gato
pouco ligará
(se eu morresse amanhã)
contando que outro dono
– outra mão, mais precisamente –
venha lhe reabastecer o pote de ração
(sempre meio vazio)

água não lhe importa:
beberá
– como de costume –
 na privada

5.
a amada
(se eu morresse amanhã)
depois do luto
há de se virar
– o tempo tudo remedia! –
 e preencherá de novo o coração
desde sempre
meio vazio




20/11/18


terça-feira, 13 de novembro de 2018

Achados & Perdidos

{...}

E as artimanhas do Destino ficam explícitas ao se analisar o contexto.

Funciona assim: um dia, uma mulher caminha pelas fileiras de um sebo. Os livros estão lá, esquecidos, surrados pelo tempo, cobertos de pó de diversas eras[1]. Há quem os compare com vinhos envelhecendo, maturando o sabor & a cor – outros, com a cachaça calibrando a embriaguês.




No meio de milhares de obras, a mulher puxa um exemplar aleatoriamente. Aquele não é o título que ela estava procurando – pega-o por impulso. Aquele não era o volume que lhe tirou da cama de manhã e a fez sacolejar em duas conduções – pega-o instintivamente, como fizera com outros dois volumes,
               duas prateleiras acima,
               dois minutos atrás.
                                          
Dessa forma, o Acaso coloca em suas mãos o livro que ela havia emprestado e que tinha simplesmente desaparecido. Depois de décadas sem paradeiro conhecido, depois de décadas de ostracismo & silêncio, ele está novamente diante dos seus olhos, como um amor do passado que se revê na fila do supermercado.




A história é simples. O que nos basta aqui é perceber como a Roda do Destino[2] agiu secretamente. Como o Destino arquitetou lentamente esse reencontro, sem pressa, semelhante a um assassino aguardando a poeira abaixar para voltar à cena do crime. Pode-se resumir tudo em dois excertos, pois a trama exige pouco para ser exposta.

O livro emprestado
– com a garantia de ser devolvido em breve –
foi passado adiante.   De mãos em mãos, seguindo sem rumo, até cair nos domínios de alguém que viu uma oportunidade de ganhar uns trocados vendendo-o. Para inocentá-lo, podemos imaginar que o cidadão pretendia salvar o almoço e garantir uma ida ao cinema. Aquele livro, imaginemos, deve valer algo!




Ou podemos imaginar, já que tudo nos é permitido, que ele misturou aquela obra a outras obras que achava ser de sua posse. 

O divórcio
           – ou viagem inesperada para assumir um cargo – obrigou-o a se desfazer de diversos pertences. Aquele livro foi só mais um, entre tantas coisas que foram deixadas para trás.

Por que não inocentá-lo? Reencontrar essa obra, tanto tempo depois, não é melhor do que tê-la em casa? Reencontrá-lo, não é a maior garantia de que ela deverá relê-lo?

O pior dos esquecimentos é deixar um livro fechado, não lê-lo. O livro fica lá, alimentando as traças[3].




Podemos imaginá-lo (o livro perdido!) em uma caixa com outras dezenas de obras, seguindo por caminhos tortuosos, no porta-malas de um fusca;

depois, imaginá-lo por dias em um depósito escuro aguardando triagem;

imaginá-lo deixado em uma pilha de obras variadas, sendo manipulado por dezenas de curiosos, anos a fio.

Assim, vencida as etapas de seu calvário, acabaria entre os itens promocionais, onde seria finalmente resgatado.

O livro de volta às suas origens, como que cumprindo um ritual. Como que fechando um ciclo.[4]

{...}




ps
Trecho do livro Achados & Perdidos
Rafael Nolli
ps 2
Ano que vem o livro deve ser publicado: 
ps3
No original, a diagramação, não é exatamente essa.




[1]desfilam ante meus olhos títulos maravilhosos moribundos de tanto estar nas prateleiras”. Angélica Freitas, Rilke Shake. Nota da revisora.
[2] Sobre o Destino aqui mencionado, um adendo: As moiras (em grego: Μοῖραι), na mitologia helênica eram as três irmãs que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos. Eram três mulheres lúgubres, responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Nota do Autor (descaradamente um Ctrl C, Ctrl V no Wikipedia).
[3] Lepisma saccharina, o terror dos sebos e dos bibliófilos. Nota do editor, de novo.
[4] O Eterno Retorno, Friedrich Nietzsche: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar”. Nota do Autor.

sábado, 13 de outubro de 2018

“Que são os homens, comparados com rochedos e montanhas?



1. Arquimedes

os homens da prefeitura
não são nada diante da rocha
que desceu a encosta
e sem nenhum aviso
estrangulou o trânsito

como seria óbvio
– Arquimedes o atesta –
tentaram removê-la com uma alavanca &
           um ponto de apoio
& nada conseguiram

de longe os curiosos
– atrás da linha de isolamento –
erguiam a cabeça
como no zoo ou nas rinhas de galo

2. dividir & conquistar

mesmo esses outros homens
com sua especialização
“transporte
& manuseio de material explosivo”
nada são diante da rocha

conseguirão, por fim,
além de um estrondo
dividirem-na em dois
e só
           
– Pobre dos cães!
comenta uma senhora
tapando os ouvidos

3. em minhas retinas tão fatigadas

o carro foi pego de surpresa
“no lugar errado / na hora errada”
– Ainda não se sabe se há passageiros!
segundo a jornalista

sublime a indiferença da montanha
fazendo sombra sobre a cena



quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Aos 37 anos de idade




amigos eram muitos
e vinham em manadas
pouco se exigia
quando iam embora
logo logo voltavam
a noite era pequena
o dia voava alto
e de repente não temos nada

felicidade crescia solta
debaixo de nossos pés
em qualquer pequena fresta
sem maiores explicações
brotava verde e vistosa
e de repente não temos nada

a vida era simples
de uma generosidade imensa
sem mais nem menos
o pouco ou o suficiente nos bastava
e de repente não temos nada




24/01/18

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O mendigo

Les Moutons, Max Ernst, 1920

o velho 
mendigando nos sinais da cidade
não era visto por ninguém
ainda que terminasse o dia
com o copo cheio de moedas

talvez nem velho fosse
e o pouco tempo
– duro por demais –
lhe bastara para sulcar o rosto
branquear os cabelos e a barba

tinha pouco mais que a roupa do corpo
– um monte de farrapos –
um cobertor sujo que lhe servia de morada

não tinha nome nem idade
não vinha de lugar algum

aonde caísse morto, seria enterrado






Para Gilberto, assassinado ontem, dia 21/01, em Araxá MG.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ontem




como se uma catástrode
de proporções globais
tivesse acontecido


porém só em mim



10/01/18

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

LambeLambe

Meu haicai nos postes de São Paulo, Capital.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Cidadão de Bem



1
execrável o cidadão exemplar
que segue à risca todas as regras
e não se envergonha
de ser mais realista do que o rei

a plateia
por exemplo
que em 68
vaiou Caetano

2
execrável o cidadão exemplar
que venceu na vida
– existirá meios limpos? –
que defende a ignorância
com unhas & dentes
algumas citações da bíblia
um trecho da constituição
um artigo da lei

o síndico
por exemplo
que chamou a polícia
para tirar os Beatles do telhado