sábado, 4 de abril de 2020

Isca

Amigos, publiquei um e-book! A obra se chama Isca. Seguindo o espírito da quarentena, toda a obra foi feita em casa, inclusive o lançamento: uma live no Instagram.

Case queiram ler a obra, é só solicitar que envio! Será um prazer!






terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Explicação



cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível

(talvez seja o vizinho
ou um dos nossos – algo nos diz)


e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum




domingo, 1 de dezembro de 2019

Uma árvore chamada Brasil



1
um ser humano
– bem alimentado
dotado de apetrechos variados (re-
médios, médicos, TV, internet, forno
micro-ondas, celular) –
vive, em média, 79 anos

caso tenha sorte
– ou o nome que se queira dar (e
não seja atropelado, baleado
caia no poço do elevador ou
escorregue no banheiro) –
um ser humano
– bem alimentado –
vive, em média, 79 anos

2
há no mundo uma ordem de insetos
– denominados ephemeroptera (ainda
que pouco importe o seu nome
/ por mais poético que ele seja /) –
que vive, em média, 24 horas

um dia na vida de um homem
– que em média não comemora
(que forma estranha de dizer isso!)
o octogésimo aniversário –
é toda a vida de um desses insetos

isso caso eles sejam bem alimenta-
dos (e não acabem debaixo de um chi-
nelo, envenenados por defensivos agrícolas
fritados no mata-mosquito
/ dependurado no teto de um boteco /
terminem no bico de uma ave
ou encontrem a indesejável das gentes
no papo de um sapo)

3
em Santa Catarina
– estado da região sul (que tem o no-
me em homenagem a uma mártir
que apareceria
/ anos mais tarde /
nos sonhos de Joana d’Arc) –
havia uma árvore de 535 anos
(quinhentos e trinta e cinco anos)
diante desse colosso – de mais de 30 me-
tros de altura
(o mesmo que um pré-
dio de 10 andares) –
um homem
com seus míseros 79 anos de vida
– em média –
não é grande coisa;

o tempo que é ofertado ao homem
(ao mais longevo deles)
não é nada perante ao tempo
– tempo tempo tempo –
vivido por uma dessas árvores

diante desse colosso –
de mais de 30 metros de altura
(o mesmo que um prédio de 10 andares) –
um homem, com seus míseros 79 anos
de vida – em média – é (ou deve-
ria ser), no mínimo, um súdito

diante desse colosso – de mais de 30 me-
tros de altura (o mesmo que um pré-
dio de 10 andares) –
um desses insetos (efêmeros, viven-
do menos que um dia, em média)
não é mais do que nada:
um estralar de dedos
um piscar de olhos
um risco n’água

a árvore não pode ser compreendida por eles –
se tivessem a capacidade de dimensionar
analisar, compreender –
senão como um ser eterno
(incriado, imortal):
uma divindade

4
quando o primeiro português aportou no es-
tado (possivelmente gripado, arma-
do com uma Bíblia e um mosquete)
essa árvore – uma imbuia de 535 anos –
já era grande e frondosa

o Brasil tinha acabado de ser batizado (com
o nome de uma árvore) e a árvore
– uma imbuia –
já existia há quase 30 anos
(aproximadamente a metade
do tempo de vida útil de um homem)

essa árvore já existia – há décadas (se
nos guiarmos pe-
la historiografia oficial) –
quando as capitanias hereditárias fo-
ram criadas; ela viu o Governo Geral
tal como as primeiras vilas e posterior-
mente as primeiras cidades;
o ciclo do ouro, da borracha, do café
passou diante dos seus olhos;

com seus 535 anos
foi testemunha viva de uma série de eventos
(muitos deles catastróficos):
índios sendo mortos em suas sombras
jesuítas, bandeirantes, tropeiros, etc
descansando em suas volta
(uma pausa para fazerem o que bem sabemos
que eles faziam)

ela sobreviveu – por 535 anos –
e pôde contemplar
– do alto de seus 30 me-
tros de altura (o mesmo que um prédio de 10 an-
dares) a ascensão e a queda do império;
o surgimento da república (com to-
dos os seus percalços: um golpe de estado, já de ca-
ra; uma ditadura nos anos 30;
outra na década de 60, etc...)

ela sobreviveu – por 535 anos –
e foi testemunha de tanta coisa grandiosa
e de tantas miudezas
(que a história sequer registrou!)
que é impossível dimensionar
a sua magnitude

5
ela sobreviveu – por 535 anos –
e, em fim, encontrou com o seu destino (nos den-
tes de ferro de uma motosserra):

o estrondo ao cair
(imaginem o tamanho do barulho!)
como se despencasse um gigante
– esses gigantes dos contos de fadas –
do alto de seu castelo nas nuvens

o estrondo
(imaginem o tamanho do barulho!)
como se um deus (por
que não?) despencasse do alto dos céus




30/11/19

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Naufrágio


Em 1988, eu tinha oito anos. Lembro como se fosse hoje de acompanhar pela tevê o naufrágio do Bateau Mouche.
É uma recordação que nunca me abandonou.

Depois, o caso do menino sírio, encontrado morto em uma praia da Turquia - outra recordação difícil de apagar da memória.


Esse poema é sobre os dois casos.


Naufrágio


É novo, ou de pouco uso
o chinelo que a maré trouxe de volta
como atesta as suas cores intactas

O brilho da borracha reforça a teoria
O sal pouco fez contra a sua estrutura
O sol, tampouco
O azul do céu
ainda lhe parece um irmão caçula

Talvez o canal o tenha trazido
boiando em meio a toda sujeira
ou a chuva da madrugada

Chacoalhando na espuma
– a noite toda –
para ser devolvido às areias da praia
sem memória
misturado aos restos dos corais

Amanhã o outro pé, novinho
Depois o corpo do menino






l. rafael nolli

sábado, 19 de outubro de 2019

Dois poemas sobre o rio



Inventário de um rio # 1

Às margens desse rio asfixiado
habitado pela merda expelida das casas
e o ácido excedente das indústrias
homens pararam por um instante –
testemunharam seus reflexos no espelho;
outros
velaram toda uma noite atrás de um peixe.

Nessas águas espessas
violentadas pelo óleo das auto-estradas
oprimidas pelo caldo dos bueiros
mulheres lavaram a roupa e as mágoas;
outras
se aliaram ao corpo do rio
para ajudar as flores a resistirem ao inverno
e os tomates a se rebelarem contra a seca.

Às margens desse rio viciado
picado pela agulha dos hospitais
assaltado pela indigestão dos restaurantes
meninos caçaram animais que por ali se aventuravam,
ou simplesmente ficaram ao vento –
que não tinha o cheiro
senão do campo que percorria.



Inventário de um rio # 2

1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele

(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])

Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
com o cadáver de um cão –
conduzia a inframundos
sobre o domínio de Hades

(pouca era a sua água
e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um enforcado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
com um azul de olho vazado])

2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade


Solidão

o homem na loja de conveniência
diante do freezer

(mais nada precisa ser dito:
sabemos que está de pijama
ou, pelo menos – percebe-se –
está com a roupa de dormir;

mais nada precisa ser dito:
escolhe – são duas ou três da madrugada –
o seu jantar: retira um enlatado
[confere a data de validade: faz uma careta
na certeza de não estar sendo observado])

de vez em quando
quando coça a cabeça
demonstra a dúvida que perpassa:
é tarde, a manhã já se insinua
que pesado, comer massa – ele pensa
e a cerveja, como está cara! – balança a cabeça

de qualquer forma
a forma com que vasculha as prateleiras
diz muito sobre ele: a palavra solidão
– ou uma que se assemelhe a ela –
deveria ser escrita nesse poema em alguma parte

(mais nada precisa ser dito:
o homem na loja de conveniência
diante do freezer
[são duas ou três da madrugada])


rafael nolli
17/10/19
11h08

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Curta-metragem


Ninguém na sala branca, apenas cadeira e mesa. A lâmpada acesa ilumina ninguém: patético brilho perdido por sobre as coisas frias e inanimadas. A fumaça de um cigarro deveria ser bafejada no cone que orna a lâmpada, para magicamente tornar o ambiente pesado, antes do “OK, gravando”.


O close retiraria dos olhos do ator o sumo da dor que ele deveria fingir sentir, sentado na cadeira que está amputada de seu complemento humano.

O script dava conta de um suspiro que moveria a fumaça como um soco, e salientava que haveria de ser um som não compreensível, ainda que sugerisse um nome de mulher.

Ninguém na cadeira. Ninguém na sala. A câmera – se estivesse ligada – captaria apenas mesa, cadeira e lâmpada. O ator, nesse exato instante, se tudo estivesse dentro do horário previsto, esmagaria o cigarro no cinzeiro com a fúria. Um close ampliaria o simbolismo mostrando o dedo (do torturador) subjugando uma coisa mínima e frágil. Depois, choraria. Quase em segredo, choraria (outro close faria mais uma vez o serviço).

Anotações no canto da página do roteiro davam conta de dicas para melhor ilustrar a cena. A lápis (canto superior esquerdo) se lê: “lágrimas que se sucedem quase que metodicamente, entrecortadas violentamente pelos fios duros da barba que brotava na cara, como espinhos”. Por aqui haveria um corte. A queda da lágrima deveria ser acompanhada pela câmera, até que o chão a recebesse como a um suicida do décimo quinto andar. Outro corte.

Voltamos – página dez – aos olhos ainda secos. A câmera observa um deles (o olho do torturador) de tal forma que o torna um espelho por onde reflete uma figura que adentra pela única porta – o torturado seria introduzido assim na sala (o reflexo nos olhos secos do torturador). Havia um quê de poesia nessas linhas do scripit, que evocavam belezas sublimes sobre como as unhas arrancadas eram maleáveis (mas isso jpa se encontra no final da página 13, início da página 14): metáforas poderosas estão encravadas aqui, página 13, por exemplo: “a sua voz entortava de tal forma que lembrava o canto de uma fera descontrolada”: a voz faz perguntas absurdas, exige a confissão.

A câmera deveria enfurecer-se, postar-se nervosa, como se a tortura ocorresse em seu interior eletrônico, e não no homem que deveria estar sentado na cadeira, iluminado por uma lâmpada fria, coberta de fumaça.

O cinegrafista deveria sentir nos próprios calcanhares os choques elétricos que eram falsamente aplicados nos calcanhares do homem amarrado, que se não fosse o atraso para iniciar as filmagens, estaria sentado na cadeira, retorcendo o corpo como um porco esfaqueado.

Se tudo estivesse ocorrendo como o combinado, e o atraso não fosse uma realidade para as filmagens terem se iniciado, o diretor haveria de interferir no ocorrido, perguntar se alguém havia presenciado uma degola de frango. Dizer que na infância vira uma pobre galinha correr sem cabeça por um minuto inteiro, o corpo sacolejado por estranhos espasmos que não eram enviados pelo cérebro; descreveria como certa vez viu a máquina (o corpo da galinha) lentamente se desfalecendo, pena a pena se eriçando. Empolgado, o diretor haveria de dizer que o olho do animal piscara por duas vezes, como se quisesse se certificar ser aquele corpo sem cabeça o seu corpo.

A equipe atordoada se perguntaria em silêncio: como extrair tal voracidade de um homem que apenas finge? Como, se não degolá-lo de verdade? O falso torturador parado diante do falso torturado: se olham pelos olhos dos personagens.

Página 15 do roteiro: abertura da imagem revelando o set vazio. Monólogo final.



Corta! 


domingo, 13 de outubro de 2019

Não tenho fotos de quando eu era criança



Não tenho fotos de quando eu era criança.
Talvez ainda exista algum foto da adolescência
esquecida dentro das gavetas da cômoda
ou perdida nas página de um livro.

Porém, não há nada nessas fotos da adolescência
– nada mesmo – que possa me interessar.
O que se vê, nesses registros da juventude –
são espinhas, que me envergonhavam
e um nariz torto, que era maior do que devia.

Não há como negar, no entanto, que sou eu
em uma versão inacabada, quase pronta;
Não há como negar, no entanto, que sou eu
(naquela foto) lutando contra as espinhas
e sendo derrotado por uma porção de hormônios.

Dos tempos de criança, nenhuma foto;
nem uma única foto!
Todas que consulto, é outra criança que se revela:
pequena, rechonchuda, com um sorriso na cara.

Em uma fotografia tirada na porta da casa de meus pais
– por exemplo –
se vê um menino segurando uma bola de plástico
vestindo uma camisa do Flamengo (modelo 1982)
quase com o umbigo de fora.

Definitivamente – não há dúvidas – não sou eu:
não tenho intimidade com a bola
(nasci com dois pés esquerdos)
e por nada nesse mundo – nada mesmo –
torceria para um time de futebol
(muito menos posaria com o umbigo quase de fora).

Que criança é aquela, suja de tanto brincar?
Ela tem o meu nome e talvez algum traço
– os olhos quem sabe, quem sabe a boca –
são bem parecidos com os meus traços atuais.

Mas isso pode ser uma simples coincidência
e as crianças – não restam dúvidas –
brancas, de classe média, privilegiadas
são sempre meio parecidas nessa fase.

Mesmo essa foto, no álbum que minha mãe preserva
(com a data precisa escrita a lápis em seu verso: 1982)
não é uma foto minha de quando eu era criança.



Que criança é aquela, então?




Araxá, 12 de Outubro de 2019

sábado, 28 de setembro de 2019

Curriculum Vitae



Submersos na noite – alta como uma torre de celular – cobrem a cidade: são os seus donos, provisoriamente.

Cúmplices de um mundo mergulhado em silêncio, onde os crimes se sabem de cor e a escuridão os consome antes que os jornais acordem.

(Seus passos abafados pela convulsão das geladeiras, pelo excesso de cães ladrando contra os seus fantasmas, pelo ruído de televisores fora do ar [pelo som de um rato roendo a madeira do oratório])

Eles são aqueles que conspiram contra a ordem estabelecida: a tirania dos pais ou o capitalismo – e perdem a batalha diariamente nas duas frentes.

Eis que se acende uma luz (morsa espremendo o suco das estrelas; caldo espesso rastejando pelo asfalto).


A manhã – ou a polícia – dissolve a turba.

domingo, 15 de setembro de 2019

Como escrever poemas?



há muitas técnicas & diversas estratégias
para se sustentar um poema
(por mais de algumas páginas)

há muitas possibilidades & vários subterfúgios
para se sustentar um poema
(por mais de algumas estrofes)

há muitas formas & várias táticas
para se sustentar um poema
(por mais de algumas linhas)




sustentar, no sentido amplo:
manter o poema de pé (evitar
que ele caia) e mantê-lo caminhando (ca-
da palavra um passo – para ficar claro! –
de uma longa caminhada);

sustentar, no sentido objetivo:
manter o poema vivo (algo
orgânico ou uma amálgama)
para evitar que dele – do poema –
o leitor se perca & escape do meio da frase;




sustentar no sentido de animar (ânima)
no sentido de mantê-lo alimentado
como a um animal ferido
(um pássaro que quebrou uma das asas
por exemplo
– coisa sem esperança –
mas que ainda tem a sua alma)



sustentar no sentido de animar
ou no sentido de mantê-lo alimentado
como a um filhote de cão
por exemplo
que foi abandonado
(aonde se divisa ainda uma ponta de fé)



sustentar no sentido de animar
ou no sentido de mantê-lo nutrido
como se nutre uma fogueira
quando se está perdido na mata
por exemplo
& não lhe resta mais nada
além da esperança
(essa palavra tão desgastada)
& um cão para lamber as suas chagas





ps.

Trecho de meu novo livro, ainda sem título (única coisa que falta para dá-lo por acabado!).

Há muito tempo queria escrever um longo poema, mas faltava uma ideia que me empolgasse para ir além das primeiras páginas. 

Em fim, acho que farei um pdf da obra e disponibilizarei por aqui: tenho outros três livros prontos e é fruntrante ir acumulando livros, guardados em uma pasta, sem nenhum leitor. 


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A poesia é como um diamante



A poesia é como um diamante, mas não a joia toda: só o que está no seu miolo – e que, se supõe, não seja em nada diferente do entorno.

Olhando atentamente, colocando-o contra a luz, é possível ver esse miolo (que, a partir de agora, chamaremos de coração).

Porém, o que se vê, se vê através de um prisma (certamente uma armadilha); e o mais tocante, só se vê através dele (e não ele em si).

Porém, o que se vê, se vê da mesma forma que se vê o corpo do fantasma: supondo, crendo, extrapolando, pressentindo (de físico, talvez – e só talvez –, os pelos do braço ouriçados).

Pedra dura demais (vulgar chamar um diamante de pedra) é possível destroçá-la a marretadas (com muito esforço) e selecionar ao acaso um pedaço qualquer (semelhante a um caco) e elegê-lo "O Coração"



(idêntico aos outros fragmentos, esse será, de qualquer forma, o fragmento falso).


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Plug n’ Play

(Ctrl C, Ctrl V em um tema de M. Bandeira)
Para Ricardo Wagner



Não me venham com uma poesia que não esteja inflamada de morte: onde nem todo antibiótico do mundo possa surtir efeito; não me venham com uma poesia que não esteja intoxicada, que seja análoga às mensagens dos suicidas, aos bilhetes dos seqüestradores e as cartas-bombas dos que resistem

– e que da boca prefira o beijo à mordida.

Não me venham com uma poesia que não esteja em guerra: esses pequenos anúncios sobre biomas familiares, infestados de bactérias da moral conservadora, que veio escondida no bolor das bíblias e na sujeira da cueca dos padres

– e toda a merda sobre o amor adolescente, que culminou em frustração irreversível, visitas aos psiquiatras behavioristas e horas de onanismo diante do espelho embaçado do banheiro.

Não me venham com uma poesia que não esteja de pé, caminhando pela boca negra da madrugada, cheirando o cio dos que sofrem por não estarem se matando para alimentar os donos de __________, o proprietário da ___________, e os arrendatários dos ___________; uma poesia que não esteja agora farejando o fedor do sangue dos que foram mastigados pela fome, que não possuem sequer a terra debaixo das unhas

– e toda a bobagem umbilical, encharcada de nostalgia hanna-barberiana: o campo de futebol de terra batida e o jardim privado, que deveriam ter sido varridos da história, sobretudo com seus personagens: futuros técnicos e operadores da moenda capitalista, esfomeada por braços.

Não me venham com uma poesia artificial, criada no semi-árido dos dicionários, no glacial coercivo das gramáticas: essas invenções laboratoriais sintetizando o som das caixas registradoras e o canto das máquinas de refrigerantes

– e tudo aquilo que acalma: o verso que não esteja envenenado para matar the dear president; e tudo aquilo de inútil e irrelevante: adultérios bem-comportados que causam sono nos confessionários e levam ao bocejo os telespectadores das novelas das 6; e tudo aquilo de covarde: o poema que pede por favor para que as pessoas tumultuem.

Não me venham com uma poesia que possa ser lida nos salões sem despertar o pânico e instaurar o caos: essa poesia que o rádio transmite sem tirar o sono de ninguém, que tenha uma pátria e atenda por um nome

– e que da cama prefira o sono ao sexo.







* Poema escrito em 2007, para o livro Comerciais de Metralhadora

terça-feira, 28 de maio de 2019




Fará mal quem te possuir
se não a chupar até o tutano dos ossos:
será equívoco, errôneo

Pecará, quem te possuir,
se não a eletrificar com a língua quente
experimentando teus temperos naturais:
deixá-la trêmula, quase com medo

E errará duplamente se não a cozinhar bem
mui bem cozida, antes de comê-la o cu



sábado, 4 de maio de 2019

A palavra Saudade só existe na Língua Portuguesa



Desde sempre aprendemos na escola o quanto a língua portuguesa é linda, tendo a sua origem latina, que a opõe às línguas bárbaras; línguas essas muitas vezes escassas de vogais e desprovidas de acentos; aprendemos – meio a revelia – o quanto a Língua Portuguesa é bela, sobretudo quanto contrastada com as línguas de origem não romana, que nos são apresentadas como duras ao passarem pela garganta e mais duras ainda ao atingir os ouvidos (o que é uma bobagem de se dizer).

Claro, há uma regra ortográfica que nos diz que toda sílaba deve possuir uma vogal para existir, e toda palavra é composta por sílabas, logo... Mas é uma comparação boba e reducionista crer que nossa língua é bela por ter muitas vogais. Se formos fazer esse tipo de comparação, usando como recorte o tcheco, por exemplo, até que pode ser que essa impressão proceda. Alguns exemplos na língua tcheca para arranhar a garganta (e dar um nó na pronúncia):


Vlk: Lobo
Krk: Pescoço
Skrz: através
Krk: dedo
Ctvrt: quarto


Claro que dizer isso é uma bobagem absurda, e fazer essas comparações idem, pois há beleza em toda e qualquer língua, independendo o uso de vogais (e para isso ficar claro, seria necessário mais de um parágrafo sobre o relativismo cultural, mas não é esse o caminho que quero seguir nesse texto).

No entanto, não deixa de ser interessante de se pensar que herdemos um idioma belíssimo e o moldamos ao longo do tempo, mesclando-o ao substrato de línguas que já existiam por aqui e outras que arrastamos para cá (a ferro & fogo).

No entanto, não deixa de ser interessante de se pensar na beleza do nosso idioma nesse momento de muitos nacionalistas que amam não só a cultura estrangeira, mas se arrolam em bater no peito e defender o inglês (dos isteitis) como sinônimo de língua perfeita (é fácil, pois “tem uma estruturação gramatical mais simples” & “nem acento usa!”).

Aquele belo poema do Bilac, denominado – muita acertadamente – Língua Portuguesa, sempre mostra as caras nos livros didáticos, como um patrimônio (e o é): Última flor do Lácio, inculta e bela”, sendo a palavra “inculta”, às vezes, mal compreendida: inculta, por derivar do latim vulgar, aquele latim falado pelo povo; inculta, por se opor ao latim clássico, escrito, regido por regras gramaticais (ainda hoje, o termo “gramática normativa” e todo o seu peso, é o pavor de muitos; pavor meu, inclusive). Sobre o belo, não há nada a se dizer além do óbvio: é bela pela sua literatura, é bela pela sua poesia, é bela pela cultura que ela transporta (ou transborda), é bela, etc... etc... etc...

Nessa mesma toada, outro poeta, em outra época, também cantou a beleza desse idioma. Em “Língua”, Caetano Veloso canta: "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões” & “Minha pátria é minha língua” & “Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó". Coisa linda de se ouvir, com certeza absoluta.

Mas não é sobre a beleza da Língua Portuguesa e suas raízes latinas que eu quero falar. Não mesmo (até mesmo por que me falta lastro para tal, mesmo em um post despretensioso). Esse preâmbulo fica como isca para o que realmente me trás aqui, nesse textão de facebook: desde sempre aprendemos na escola que a palavra “saudade” é exclusividade de nosso idioma. Um dos nossos patrimônios, a palavra saudade, aprendemos na escola (meio a revelia).

Claro que dizer isso é uma bobagem absurda, pois não só o nosso idioma tem a sua gênese na língua dos romanos (imposta a ferro e fogo, diga-se de passagem), logo, as outras línguas neolatinas, por extensão, também tem uma Saudade para chamar de sua.

Por exemplo, em espanhol há a palavra Soledad, tal como há Soledat em Catalão; o Romeno, que também tem um pezinho no latim, tem um correspondente: a palavra durere. O mesmo ocorre com a palavra tesknota, em polonês (uma língua deveras bárbara).

Porém, como fica claro, em ambos os casos o sentido é um tanto diverso do que damos a nossa palavra Saudade. Para eles, essa palavra está ligada a uma ideia de “nostalgia de casa”, um termo para se dizer que se está com “vontade de voltar ao lar”. Há, um caso bem interessante com a língua de Goethe: fernweh significa sentir saudade de um lugar onde nunca esteve! Coisa que nossa língua não tem! Ou tem?

Outro caso interessante ocorre com o árabe, onde há uma correspondente bem próxima do sentido que damos a nossa palavra saudade. Mas nesse caso, não se trata de uma única palavra, mas do termo “alistiyáqu 'ilal watani”.

A palavra saudade vem do latim “solitate” (isolamento, solidão), esses casos apresentados também flertam com esse sentido. Nossa palavra saudade e as palavras solidão e isolamento – isso é bem claro – são muito diversas desse significado: nossa saudade pode ser sentida em meio a uma multidão, numa metrópole ou num camarote vip.

Nossa saudade, na maioria das vezes, é expressa como algo bom: um desejo de rever uma pessoa, uma vontade de reviver algo do passado (um beijo, uma viagem, uma ida ao restaurante); nossa saudade (a palavra) quase sempre é um pretexto para reencontrar um amigo que se distanciou, uma amada que foi abandonada (ou que nos abandonou), etc.

Creio que a originalidade da palavra saudade em língua portuguesa seja essa.


Um dia, pensando nessas questões (a beleza da Língua Portuguesa e a origem e originalidade da palavra saudade), resolvi escrever um poema sobre o tema.

Ei-lo:

___


Saudade, a palavra

1
Saudade não se traduz
Ninguém a sentia
senão os portugueses que a espalharam:
pastores, poetas, pulhas

(como a gripe, a varíola & o sarampo)

até o mundo todo ficar contaminado

2
Ninguém sentia saudade em russo?
O que corria nas cartas de Maiakovisk?
O que sentiu Gagarin ao ganhar o céu?
Qual era a cor dos olhos de Lênin no exílio?

3
Uma palavra inaugura tudo?
Inventá-la, ou traduzi-la
basta para (a palavra
ou o que ela transborda)
nos colonizar?

4
Tudo, dizem os filólogos
pelo fato de os lusitanos
errarem pelos mares
(nunca dantes)
deixando para trás as noivas
(por casar)
os filhos, o cachorro, o gato

– aliás
saudade é para quem fica
ou é algo que se reparte?

5
Mas e os outros povos, não erraram?
Gregos e Persas pelo Egeu
Fenícios nas praias da China
Vikings se bronzeando pela Linha do Equador
A Invencível Armada posta a pique
encharcando de sangue o Pacífico

Se não eram saudades o que deixavam
– no coração de suas amadas –
 o que seria então?

6


Quanto desse sal?