terça-feira, 28 de maio de 2019




Fará mal quem te possuir
se não a chupar até o tutano dos ossos:
será equívoco, errôneo

Pecará, quem te possuir,
se não a eletrificar com a língua quente
experimentando teus temperos naturais:
deixá-la trêmula, quase com medo

E errará duplamente se não a cozinhar bem
mui bem cozida, antes de comê-la o cu



A poesia? Torce-lhe o pescoço



Estabelecer um início

(no princípio, deus criou o céu e a terra...

ou
era uma vez...

ou
abril é o mais cruel dos meses...)

– eis aí uma estratégia
para o poema sobreviver a primeira página:

o poema como uma narrativa
um fio de ideia puxando outra ideia

da mesma maneira que um peixe puxa outro peixe
em uma tarde de sol, a beira do lago

(mas
só para aqueles que tem paciência
sabem esperar
conhecem um pouco das margens
e conseguem – são poucos –
aceitar alguns dissabores: moscas
frio, umidade)




o poema como uma narrativa:
um fio de ideia puxando outra ideia

da mesma maneira que um osso puxa outro osso
em um lamaçal esquecido por deus

(mas
só para aqueles que tem coragem
pouco importam em sujar os pés
e conseguem – são poucos –
aceitar alguns dissabores: lama
mal cheiro, lodo)




Estabelecer um início
(Fiat Lux...

ou
Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento...

ou
ao despertar de um sonho intranquilo, certa manhã, Gregor...)

– eis aí um subterfúgio
para o poema se estender além da primeira página

um início estabelecido:
uma matéria bruta, que vai sendo moldada
para o poema de estender além do haicai
(e seguir sendo moldado)
além do soneto
& começar a se engraçar com as elegias
com os cantos, com as odes


(e, sem que se perceba
já temos um poema com duas páginas)




um início metalinguístico
– coisa mais clichê –
quem sabe ainda funcione

um início metalinguístico
– nesse século XXI, meu deus! –
ainda funciona?

turvo turvo
e vai clareando...



o soco no muro
escuro...


e segue-se esmurrando







azul o gato
azul teu cu







& depois outros subterfúgios
(para manter o poema em seu fluxo):

rimas internas para prender o leitor;
citações de outros autores – colagens
homenagens, plágios

& outros subterfúgios que não se revelam

(para manter uma aura de mistério
e obrigar o leitor a escavar em busca dos ossos
e obrigar o leitor a pescar o peixe mais raro)




& depois outros subterfúgios
(para manter o poema em seu fluxo):

uma sugestão de tema, porém não muito óbvio:

brumas entre as palavras pode ser demais (confuso
& sem um mapa, o leitor se evapora);

brumas entre as estrofes talvez seja o ideal (perce-
be-se o caminho adiante, com certa segurança;

tateando no escuro, se for o caso:
melhor se o leitor possuir uma lanterna mágica)

& o vento forte, quando menos se espera, sopra!
& tudo que se ocultava, de repende se mostra:



tem-se um início: não há mais volta




Há muitas técnicas & diversas estratégias
para se sustentar um poema
(por mais de algumas páginas)

Há muitas possibilidades & vários subterfúgios
para se sustentar um poema
(por mais de algumas estrofes)

Há muitas formas & várias táticas
para se sustentar um poema
(por mais de algumas linhas)




Sustentar, no sentido amplo:
manter o poema de pé (evitar
que ele caia) e mantê-lo caminhando (ca-
da palavra um passo – para ficar claro! –
de uma longa caminhada);

Sustentar, no sentido objetivo:
manter o poema vivo (algo
orgânico ou uma amálgama)
para evitar que dele – do poema –
o leitor escape do meio da frase;




sustentar no sentido de animar (ânima)
no sentido de mantê-lo alimentado
como a um animal ferido
(um pássaro que quebrou uma das asas
por exemplo
– coisa sem esperança –
mas que ainda tem a sua alma)

sustentar no sentido de animar (ânima)
ou no sentido de mantê-lo alimentado
como a um filhote de cão
por exemplo
que foi abandonado
(aonde se divisa ainda uma ponta de esperança)

sustentar no sentido de animar (ânima)
ou no sentido de mantê-lo alimentado
como se alimenta uma fogueira
quando se está perdido na mata
por exemplo
e não lhe resta mais nada –
além da alma





sustentar
no sentido de equilibrar:
mantê-lo girando
– feito um peão –
numa atmosfera de calma
(por exemplo, na palma da mão)

com um ou outro sobressalto – inseridos
ao acaso, ou de caso pensado? –
pois não se conhece motivo – pelo
menos lógico ou válido –
para se observar um peão que nunca pare
(moto-contínuo)
de girar




um tropeço que o coloque fora do eixo
– estamos falando do poema –
ao cruzar com a linha da vida, por exemplo
é um motivo razoável
para manter o olho do leitor fixado na página

(enquanto isso, o poema
vai se estendendo, criando um leito
ganhando volume, tema, forma):


a esperança do leitor para que ele caia
o trás até aqui, no final dessa página




ou seja
talvez aí – nesse ponto –
esteja a armadilha para o leitor

para se sustentar um poema
– para além de seu início metalinguístico –
– para além de algumas linhas, estrofes, páginas –
nada é preciso, além disso:
aprisionar o olhar do leitor na página

o poema se forma extenso
caudaloso, enquanto o barco nele se arrasta
– a atenção do leitor é esse barco –
& não se evade pelas margens




talvez aí – nesse ponto –
esteja o segredo – para o poema
se estender além de alguns versos:

o leitor aprisionado em um panorama geral
sendo aos poucos atraído pelos detalhes

um detalhe (que aprisiona o olhar)
semelhante a isso (ou análogo a):

uma mosca que pousa na página
ou uma formiga que a atravessa – de uma extremidade
a outra extremidad                                                           e

a mosca, a formiga (esses detalhes):
(para se explicar a metáfora!)
serão as rimas? Serão os jogos de palavras?




talvez aí – nesse ponto –
esteja o leitor, aprisionado:
de um conceito geral (um livro
de poemas, onde só há um longo poema)
atrair a atenção do leitor para o detalhe

um detalhe (que aprisiona o olhar):

uma fratura debaixo da pele do braço
debaixo da própria carne
(de uma criança brincando na praça)

ou mais
uma fratura debaixo da pele do braço
debaixo da própria carne
(de uma criança brincando na praça)
coberta pela camisa

ou mais
uma fratura debaixo da pele do braço
debaixo da própria carne
(de uma criança brincando na praça)
coberta pela caminha e protegida pelo gesso




quem sabe, essa fratura que não se vê
(no braço de uma criança brincando na praça)
mas que sabemos que está lá (a criança
a fratura, a praça)
seja o que mantenha o leitor aprisionado
(o olhar do leitor, é dizer tão pouco
mas pela expressividade da frase nos basta)

quem sabe, essa fratura que não se vê
aprisione o olhar do leitor:
a possibilidade de acontecer algo
a expectativa de ver o que se passa abaixo do gesso
abaixo da pele do braço, além da carne
no osso (âmago)




Há muitas possibilidades & vários subterfúgios
para se sustentar um poema
(por mais de alguns instantes)

ainda que não haja – pensando logicamente –
nenhum motivo para se manter
por mais de algumas páginas
por mais de algumas estrofes
por mais de algumas sentenças
 um poema:



três linhas curtas bastam
dizem os amantes dos haicais





Há muitas possibilidades & vários subterfúgios
para se sustentar um poema
(além de um lance de visão)
(além de um lance de dados)

ainda que não haja – pensando logicamente –
nenhum motivo para tal

dizem (os niilistas):
o poema tem que ser curto
como é curta a vida de algumas pessoas

dizem (os apressados)
o poema tem que ser rápido:
como é rápida a vida de algumas pessoas

dizem (não sei precisar quem):
o poema deve prezar pelo sucinto
pelo breve. um flash, um estalo. um grito

(creio que foi o crítico literário)




estão certos:
por que manter o poema
– respirando por aparelhos –
por mais de algumas estrofes?

tudo pode ser dito com poucas palavras:
economiza-se o tempo do leitor (diz o leitor)

que prefere um quarteto bem rimado
uma quadrinha ao gosto popular
uma frase bem sacada (para logo largar o livro
e ir fazer algo mais proveitoso)


e sendo curto, o poema
salva-se algumas árvores

(dizem os            )




de subterfúgios em subterfúgios e alguma estratégia
– nada de novo, de ousado, de original –
o poema já deu mais esse passo:
sem ir muito além do seu início
sem extrapolar as fronteiras da metalinguagem
o poema, essa armadilha das palavras
abre o seus braços
acena, convida para viagem:
e já são mais de uma dezena páginas





há, por certo, um leitor aprisionado
seu olho aqui afixado

(agora mesmo, preso nessa página
agora mesmo, seu olhar nesse ponto exato)

há, por certo, um leitor aprisionado
seu olho aqui afixado

do contrário o poema não estaria aqui (nes-
se ponto exato)

Tão ciente em pode ousar mais um passo
& ainda se estender mais uma casa (um úl-
timo suspiro, quem sabe)






O poema avança:
conquista mais essa página
(a sua última página)


o leitor se distrai
olha em volta, fecha o livro
e evade para as margens



rafael nolli, 27/05/19