domingo, 8 de maio de 2016

O sacrifício de Tanta Carhua


1
alguém havia dito:

“não se deve sentir dó
senão o bicho não morre!”

sem cabeça
o corpo da galinha correu alguns metros
trombou em uma parede
e debatendo tentava se levantar

2
o carniceiro explicava
“é só uma estocada no sovaco
acerta bem no coração”
e afiava a faca em uma pedra

em desespero
o porco se livrou da corda
e sangrando – em profusão –
foi morrer escorado nas tábuas do chiqueiro

3
era eu que sentia dó




domingo, 10 de abril de 2016

Dois poemas sobre cocô

Amigos, meu livro infantil está prontinho. É uma obra pequena, com 20 poemas, as ilustrações são do meu filho, Dudu (agora com 4 anos). Tenho dois poemas que falam sobre cocô. Preciso eliminar um, mas qual? Que decisão difícil!


Rock n Roll

observando a rede de alta-tensão
o menino imagina um gigante
executando um solo de guitarra

quando
de repente                   
duas andorinhas pousam no fio
e a de cima caga na de baixo



ou 


Força Aérea Emplumada

A estátua do presidente
no meio da praça central
é o Q.G.
de onde partem urgentes
as ordens do pombo maioral:

fazer coco em toda a gente
que encontrar pelo caminho

(menos no tiozinho
que carrega um saco de milho!)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Primeiros contatos


um dia uma senhora me disse:

“você deve lavar as costas das mãos
e tomar banho todos os dias
senão nasce couve atrás de sua orelha!

faça isso sempre
mesmo que água esteja fria ou molhada!”

“a velha está gagá”, os meninos diziam
os adultos afirmavam: “é mal de Alzheimer!”

para mim
foi o primeiro contato com a poesia



quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Sexo Oral


"O Sonho da Mulher do Pescador"
Hokusai 1760-1849

1
de tudo que vi naquele dia
nada me recordo além
de um pequeno pedaço de papel higiênico
– talvez menor que uma parada de ácido
ou do mesmo tamanho –

preso na umidade da virilha
recém depilada

2
de tudo que vi naquele dia
nada me recordo além de que
havia uma pequena colina
– já cartografada anteriormente –
que se abria para uma ravina
margeada por vegetação esparsa & rala:
ali um arroio secreto fluía
e havia sede, na tarde quente

3
e que depois de vencer a escalada
– uma escarpa suave –
descansei no topo conquistado

e toda a terra – então –
foi sacudida por intensos tremores [1]







_________________________________________
[1] Nota de rodapé

de tudo que vi naquele dia / nada me recordo além de que / seu beijo era salgado / – como havia de ser – / e que tinha o gosto do meu pau



*

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

The Soronprfbs - zine.

Detalhes sobre o número 2:
Capa e contra- apa

Pixies e Isaias Faria
Cesárea Tinajero,  Pollock e Luiz Olavo Fontes

The Soronprfbs Zine.

Capas dos números 1, 2 e 3!

Participaram...
nº 1:
Cássio Amaral
Heleno Álvares
Rômulo Ferreira
Líria Porto
Jorge Vicente
William Blake
 Flávio Otávio
Matisse
Rafael Nolli
Hugo Martins
Adalberto Souza

nº 2
Cesáre Tinajero
Cássio Amaral
Fabiano Calixto
Heleno Álvares
Pixies
Rafael Nolli
Cate Le Bon
Sara não tem nome
Hugo Martins
Adriana e Rafael Godoy
Isaias Faria
Carl Sandburg
Luiz Olavo Fontes
Pollock

nº 3
William Carlos Williams
Ton Lima
Lucas Félix
Rafael Nolli
E. E. Cummings
Higo Martins
Mara Senna
Jorge Vicente
Picasso
Diego Moraes (Urso)
Euza Noronha
Glauber Vieira Ferreira
Erico Baymma
Líria Porto
Rômulo Ferreira
Neruda
José Paulo Paes


domingo, 3 de janeiro de 2016

The Soronprfbs - Zine

Capa e contra-capa. 
                 Meus amigos, coloquei um zine em circulação. Isso mesmo, em pleno século XXI, na era digital, me voltei para o recorta-cola-xeroca. Coisa básica, simples: selecionar poemas e ilustras dos amigos, fazer colagens, montagens... 

Duas páginas: um poema de Adalberto Souza; uma ilustração e uma poema de Rômulo Ferrera (silhueta zine)
Não é a primeira vez que faço isso. Na adolescência (período pré-internet... ((anos 90) participei de uma porção de zines, quase sempre relacionados ao mundo underground do Metal Pesado (hashtag Bathory é uma puta banda, hashtag foda-se os posers & coisas do tipo!). 
Capa

Também dei as caras em zines de quadrinhos, nada que eu possa ou deva me orgulhar...




O número 1 já está quase pronto e o segundo episódio vem na cola, um nas costas do outro, para aproveitar as férias (sim, sim, é uma paixão de verão, que não deve sobreviver ao retorno das aulas ((vida de professor e blá, blá blá).
The Soronprfbs - banda do filme Frank (2014)

O mais bonito na aventura: tudo seguindo por correio (carta mesmo, de papel, com selo e carteiro debaixo do sol escaldante) ou sendo distribuído na rua, nas quebradas, tipo panfleto promocional de Centro Odontológico.

Jorge Vicente & Matisse
O nome, The Soronprfbs, foi retirado do filme Frank, de 2014, dirigido por Lenny Abrahamson. Tem que assistir para sacar o esquema. 
Angel Olsen

Tudo foi montado ao som de Angel Olsen, musa dessa edição. 

É isso! Abraços!

sábado, 14 de novembro de 2015

Homenagem na XIII Feira do Conhecimento

Essa semana, fui homenageado na XIII Feira do Conhecimento do Colégio Atena, Araxá, MG. 

Alunos de 4 anos, em fase de alfabetização, trascreveram e ilustraram meus poemas. Também fizeram um retrato meu, com colagem em EVA. 

O melhor em tudo, essa é a turma do meu filho, Eduardo. Ele ficou absurdamente empolgado com os poemas, que foram escritos para ele, sobre temas que ele gosta: dinossauros, zumbins, etc.

O estande estava lindo demais, com exposição dos meus livros. Imaginem só o temanho da minha felicidade.

Algumas fotos a seguir!











domingo, 1 de novembro de 2015

Muito feliz com a minha primeira parceria com o Dudu (meu filho, hoje com 4 anos). Estamos preparando um livrinho bem singelo.


Aos poucos minando a força que possuía

O veado ferido, Frida Kahlo, 1946,


1
O marlim enfim descansa no assoalho do barco
com a barbatana partida por um tubarão e
diversas cicatrizes de outros encontros.
Um anzol já enferrujado preso à boca –
talvez de um embate com Hemingway.
Ter cruzado os oceanos com todas as marcas
será o último relato de tudo que
foi aos poucos minando a força que possuía.

2
O corpo do cervo caído
em pouco tempo não guardará as suas marcas
senão o fêmur partido por um urso
e a ponta da seta cravada entre as costelas.
No chão da floresta, brancos de susto,
seus ossos serão o último relato de tudo que
foi aos poucos minando a força que possuía.

3
O casamento minando aos poucos.



Rafael Nolli, 30/09/2015

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Um casal se apaixona no banco da praça



1
o casal no banco da praça
até então em encontros casuais
viria a descobrir naquele dia
que a noite
que existe desde tempos imemoriais
fora criada exclusivamente para eles

a mesma noite desde sempre
sendo aperfeiçoada aos poucos
através das eras geológicas
sendo organizada com cautela
para de repente chegar em seu auge

depois daquele dia, tudo ruiria,
e as estrelas começariam a se apagar
uma a uma, até não restar mais nada

2

a mesma noite que iluminou os oceanos vazios
a mesma sobre animais já extintos

a mesma noite que
anos a fio
levou os primeiros dos nossos
– imperfeitos, ainda com rabos –
a se abrigarem em cavernas
a passarem horas de medo
sobre os galhos das árvores

3
depois de cumprida a sua tarefa
– iluminar um casal no banco da praça –
a noite iniciava o seu declínio


domingo, 30 de agosto de 2015

Algumas imagens do Fliaraxá 2015...





sábado, 22 de agosto de 2015

Meus caros amigos, esse ano participarei da Fliaraxá. Será no dia 29 de Agosto, as 14h! O tema: "A literatura na história e a história na literatura".
 Se der, apareçam! Abraços!



Poema em camisa? Sim, senhor!

Essa semana lançamos uma camisa lindona. Com poemas da turma que participou da coletânea Fórceps (Coletivo Anfisbena 2013). Eu, Heleno Álvares, Flávio Offer e Cássio Amaral.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Paraíso

Colagem Paraíso. Rafael Nolli


1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do espaço sideral

nenhum dos dois sequer suspeitou


2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol
escorrerá sinistro & pesado
dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é só vale e vento

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome e sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral






Rafael Nolli. 15/08/15

terça-feira, 11 de agosto de 2015

10 poemas

Meus caros amigos, a Revista InComunidade comemora três anos de atividades. Tenho uma série de 10 poemas por lá. Um apanhado geral de tudo que fiz até agora!
Visitem!


http://www.incomunidade.com/v37/art_bl.php?art=41

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Elefante, por Adalberto Souza.

*
*
Amigos, o poeta Adalberto Souza, autor de Fantasmas não Andam de Montanha-Russa, escreveu uma resenha sobre o meu livro, Elefante. Confiram! 
Abraços!




Gosto de surpresas. Gosto de passar as páginas de um livro e de repente voltar para ler outra vez um trecho que ficou na cabeça. Gosto de um livro que continua comigo depois da leitura, falando e me fazendo pensar, como um parceiro/companheiro vai me acompanhando, ultrapassando o limite da última página e tornando-se íntimo do meu cotidiano.

Gosto da intimidade estranha que o livro proporciona, os versos, as conexões as tantas formas de ver a mesma coisa. Quando recebi o belo livro ELEFANTE (Araxá: Coletivo Anfisbena, 2012) do poeta mineiro Rafael Nolli, logo nas primeiras páginas esse ar impregnado de ansiedade, igual àquela que nos assola na antessala do dentista, quando ouvimos aquele som, temido, "daquela broca procurando cárie", fui pego pela poética do autor, uma sensação ofegante e com gosto de vida em cada um dos poros.

A poesia de Nolli é desautomatizada e livre de amarras, sua poesia, leva a encontros, leva ao sentir mais perplexo e pulsante. Sua poesia intercala com Belchior e Shakespeare, Paul Valéry e Pink Floyd, diálogos densos e chocantes que levam o leitor por caminhos labirínticos onde o fio condutor ao mesmo tempo que desnorteia, também serve de bússola.


O lirismo pungente é sem pastiches, apenas poesia, forte e simples. Os versos são curtos, são diretos, travestidos numa subversão das convenções teóricas. O autor mostra a palavra e o sentir: "palavra por palavra//para por de pé o poema://bateia roendo o leito do rio".

Uma leitura, um livro, um leitor arrebatado! Uma poesia a ser compartilhada.