| Foto: Rafael Nolli |
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Herança
– se devo
–
de
a
domesticaram os
de
que
–
os
–
derretendo o
de
os
– a
e
– se é
as
&
o carinho dos carrascos
& torturadores dispensados aos
&
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Nolli
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
[Visões]
(Há um violão de cordas oxidadas
& um surrado livro de citações
[inseto comendo
o coração dos tímpanos])
(Há uma dose exagerada
& um zumbi vagando pela praça
[errar pelo mundo fantasma
gritando o nome da menina morta])
(Há dias empoçados no calendário
& a vida estrangulada na ampulheta
[com o sangue dos inimigos
apagar o fogo que devora a noite])
*
*
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Resposta a um poema de Maiakóvski
Eu não sou o homem feliz que talvez exista.
![]() |
“Liubliú” (Amo), poema anel de Maiakóvski dedicado a Lília Brik - versão tipográfica de El Lissitski (1923) |
"Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz."
Vladimir Mayakovsky, citado em "Maiakovski: vida e obra" - Página 9, Fernando Peixoto - J. Alvaro, 1969 - 313 páginas
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011
O mesmo título de um poema de Konstantinos Kaváfis
(e um plágio confesso, evidentemente)
![]() |
| Behemoth e Leviathan - tela de William Blake |
Vencidas as montanhas
eles rumam à cidade.
Quilômetros a serem devorados
e o ar já se torna irrespirável –
um bafo antediluviano
lambendo a pele do campo.
A caminho, calcinando a paisagem,
vão comendo a pata dos cavalos –
mera ilusão para a fome que carregam
sobre o lombo de animais elétricos.
Vencidas as montanhas
eles rumam à cidade.
Distâncias a serem consumidas
e o chão já se comporta mal –
a terra, cortada pela frieira,
expõe a carne de raízes retorcidas.
Em seus rastros, rios nauseados
vomitam sobre o próprio corpo –
peixes abortados à flor da água
oferecem as entranhas às moscas.
Vencidas as montanhas
eles rumam à cidade.
2
E não merecemos nada
além de sermos assassinados.
* do livro comerciais de metralhadora
* do livro comerciais de metralhadora
_________
PARA VER E OUVIR
PARA VER E OUVIR
À Espera dos Bárbaros - Constantino Kaváfis (1863-1933)
tradução de José Paulo Paes.O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.
e aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
Ah! eles eram uma solução.
*
domingo, 23 de outubro de 2011
Evocação inútil
sofrendo delírios por doses excessivas
de xarope para o pigarro e a tosse! –
dos trópicos , onde te perdi?
Ó fotocópia do pai
amassando com o calo dos pés
os caramujos da esquistossomose :
educado naturalmente por um brejo
povoado por destemidos vermes –
no pequeno peixe que resistia
expelidos pelos intestinos da civilização ?
Ó minúsculo sonhador
pelas placas de trânsito
e a convivência com as rádios AM –
nas axilas daquela cidade
e goiabas melhores do que homens ?
Ó incansável infante
das guerras televisionadas
dos vazamentos radioativos
discutidos nas mesas de bar –
a crer que a tua casa seria o próximo alvo ?
Ó ignorante de si mesmo
num dia esquecido por todos
Ó curioso moleque
interessado na decomposição dos ratos
na fratura exposta , no fogo nas petroquímicas –
no olhar no passo na voz
e retorno em seguida
do livro comerciais de metralhadora
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quarta-feira, 7 de setembro de 2011
2 [curriculum vitae]
Acaso tivessem nascido no Camboja
sobre a égide do Khmer Vermelho
teriam herdado terra & poder
Eram porcamente alfabetizados –
o pouco que sabiam, o sabiam mal,
exceto o tempero da dor e seus requintes
A eles restavam os prazeres gratuitos:
incendiar um supermercado e,
aos chutes, por fim à vida de um cão
Enquanto suas mães – em segredo –
lastimavam o dom da maternidade
e maldiziam o fruto do próprio ventre
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