sábado, 14 de novembro de 2015

Homenagem na XIII Feira do Conhecimento

Essa semana, fui homenageado na XIII Feira do Conhecimento do Colégio Atena, Araxá, MG. 

Alunos de 4 anos, em fase de alfabetização, trascreveram e ilustraram meus poemas. Também fizeram um retrato meu, com colagem em EVA. 

O melhor em tudo, essa é a turma do meu filho, Eduardo. Ele ficou absurdamente empolgado com os poemas, que foram escritos para ele, sobre temas que ele gosta: dinossauros, zumbins, etc.

O estande estava lindo demais, com exposição dos meus livros. Imaginem só o temanho da minha felicidade.

Algumas fotos a seguir!











domingo, 1 de novembro de 2015

Muito feliz com a minha primeira parceria com o Dudu (meu filho, hoje com 4 anos). Estamos preparando um livrinho bem singelo.


Aos poucos minando a força que possuía

O veado ferido, Frida Kahlo, 1946,


1
O marlim enfim descansa no assoalho do barco
com a barbatana partida por um tubarão e
diversas cicatrizes de outros encontros.
Um anzol já enferrujado preso à boca –
talvez de um embate com Hemingway.
Ter cruzado os oceanos com todas as marcas
será o último relato de tudo que
foi aos poucos minando a força que possuía.

2
O corpo do cervo caído
em pouco tempo não guardará as suas marcas
senão o fêmur partido por um urso
e a ponta da seta cravada entre as costelas.
No chão da floresta, brancos de susto,
seus ossos serão o último relato de tudo que
foi aos poucos minando a força que possuía.

3
O casamento minando aos poucos.



Rafael Nolli, 30/09/2015

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Um casal se apaixona no banco da praça



1
o casal no banco da praça
até então em encontros casuais
viria a descobrir naquele dia
que a noite
que existe desde tempos imemoriais
fora criada exclusivamente para eles

a mesma noite desde sempre
sendo aperfeiçoada aos poucos
através das eras geológicas
sendo organizada com cautela
para de repente chegar em seu auge

depois daquele dia, tudo ruiria,
e as estrelas começariam a se apagar
uma a uma, até não restar mais nada

2

a mesma noite que iluminou os oceanos vazios
a mesma sobre animais já extintos

a mesma noite que
anos a fio
levou os primeiros dos nossos
– imperfeitos, ainda com rabos –
a se abrigarem em cavernas
a passarem horas de medo
sobre os galhos das árvores

3
depois de cumprida a sua tarefa
– iluminar um casal no banco da praça –
a noite iniciava o seu declínio


domingo, 30 de agosto de 2015

Algumas imagens do Fliaraxá 2015...





sábado, 22 de agosto de 2015

Meus caros amigos, esse ano participarei da Fliaraxá. Será no dia 29 de Agosto, as 14h! O tema: "A literatura na história e a história na literatura".
 Se der, apareçam! Abraços!



Poema em camisa? Sim, senhor!

Essa semana lançamos uma camisa lindona. Com poemas da turma que participou da coletânea Fórceps (Coletivo Anfisbena 2013). Eu, Heleno Álvares, Flávio Offer e Cássio Amaral.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Paraíso

Colagem Paraíso. Rafael Nolli


1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do espaço sideral

nenhum dos dois sequer suspeitou


2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol
escorrerá sinistro & pesado
dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é só vale e vento

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome e sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral






Rafael Nolli. 15/08/15

terça-feira, 11 de agosto de 2015

10 poemas

Meus caros amigos, a Revista InComunidade comemora três anos de atividades. Tenho uma série de 10 poemas por lá. Um apanhado geral de tudo que fiz até agora!
Visitem!


http://www.incomunidade.com/v37/art_bl.php?art=41

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Elefante, por Adalberto Souza.

*
*
Amigos, o poeta Adalberto Souza, autor de Fantasmas não Andam de Montanha-Russa, escreveu uma resenha sobre o meu livro, Elefante. Confiram! 
Abraços!




Gosto de surpresas. Gosto de passar as páginas de um livro e de repente voltar para ler outra vez um trecho que ficou na cabeça. Gosto de um livro que continua comigo depois da leitura, falando e me fazendo pensar, como um parceiro/companheiro vai me acompanhando, ultrapassando o limite da última página e tornando-se íntimo do meu cotidiano.

Gosto da intimidade estranha que o livro proporciona, os versos, as conexões as tantas formas de ver a mesma coisa. Quando recebi o belo livro ELEFANTE (Araxá: Coletivo Anfisbena, 2012) do poeta mineiro Rafael Nolli, logo nas primeiras páginas esse ar impregnado de ansiedade, igual àquela que nos assola na antessala do dentista, quando ouvimos aquele som, temido, "daquela broca procurando cárie", fui pego pela poética do autor, uma sensação ofegante e com gosto de vida em cada um dos poros.

A poesia de Nolli é desautomatizada e livre de amarras, sua poesia, leva a encontros, leva ao sentir mais perplexo e pulsante. Sua poesia intercala com Belchior e Shakespeare, Paul Valéry e Pink Floyd, diálogos densos e chocantes que levam o leitor por caminhos labirínticos onde o fio condutor ao mesmo tempo que desnorteia, também serve de bússola.


O lirismo pungente é sem pastiches, apenas poesia, forte e simples. Os versos são curtos, são diretos, travestidos numa subversão das convenções teóricas. O autor mostra a palavra e o sentir: "palavra por palavra//para por de pé o poema://bateia roendo o leito do rio".

Uma leitura, um livro, um leitor arrebatado! Uma poesia a ser compartilhada.



terça-feira, 16 de junho de 2015

Comedìa

I - Inferno

Nenhuma pista ou clareira
para tentar a aterrissagem
ademais
o trem de pouso emperrado

Retornar ao lar
– oh estações oh castelos! –
e ninguém ter dado pela sua falta


II - Purgatório

A TV ligada para ninguém
– em consultórios ortopédicos –
o cheiro do tédio das atendentes
& o clamor dos telefones

A fila de mulheres pensativas
– nos pronto-socorros –
as crianças tossindo em seus colos
o senhor debruçado sobre as rugas

A ante-sala dos CTI’s
as antecâmaras das policlínicas
os  azulejos brancos,
o ventilador de teto
– nas salas de espera dos centros de radiologia –

e nos demais lugares onde a morte fareja


III - Paraíso


Praticamente nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida, treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa manhã de profunda ressaca. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito por Dante. Um saco! 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

A mão



um passo além da linha
e disseram que cortariam a minha mão

todos tiveram a coragem – ou a ousadia? –
e atravessaram

eu fiquei do outro lado acenando

gritando cuidado! cuidado!



do livro Poemas é um péssimo título

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Martelo, Gelado, Cinzel


Para Heleno Álvares
1
tomemos por exemplo um arqueólogo
que descobre uma cidade submersa
& em um infindável número de equívocos
interpreta tudo errado
& cria uma nova civilização

ou, percebendo as possibilidades do erro
refaz o mundo descoberto
para a glória de outros visitantes,
perplexos
perdidos entre as ruínas e o poema

2 (poesia = arqueologia)

cabe ao poeta descobrir a palavra
que passa rolando pelas cavernas do tempo
saber colhê-las entre detritos
– talvez o que há de melhor nelas –
ir aonde descansam
& instaurar o caos

3
fora isso
o poeta não passa do dono da festa
chapado de ponche
que desliga o som e manda todo mundo embora

ou o dono da bola
que acaba com o jogo ao ser driblado
ou mandado para o banco

fora isso
o poeta só arranha a superfície

descobre uma cidade submersa & grita
do alto de sua glória (ou burrice):
“é uma cidade submersa!”


20/01/2014


do livro Poemas é um péssimo título



sexta-feira, 8 de maio de 2015

Lugar, território, paisagem


1
menina com flor no cabelo
parada na calçada
aguardando para atravessar
levanta o corpo na ponta dos pés
sobre uma sandália vermelha
(a batata das pernas enrijecida)
para ver sobre os carros
o outro lado da via

2
ao cruzar a rua
passa por tantas outras meninas
nenhuma que lhe devolva o olhar
ou congregue de sua alegria

quando alcança o outro lado
a trégua com os carros se rompe
e a rua é novamente inundada
pela feroz matilha

3
não vai se lembrar
de nenhum dos dois lados
ou do que viu entre eles
(ao olhar sobre os carros)
quando chegar a hora
de contar a sua jornada


21/01/2015


do livro Poemas é um péssimo título


quinta-feira, 7 de maio de 2015

O vendedor de algodão doce

 
grafitti de Paulo Zits
 o vendedor de algodão doce
se anunciava com um apito

senhor de diversas cáries
distribuía nuvem cristalizada
tingida de azul ou rosa

aceitava cascos de cerveja
que guardava em um saco de batatas

quando passava por uma criança
que não atendia ao seu apito
ou simplesmente não se interessava
saía resmungando

curvado sob o peso do fardo



25/01/2015

do livro Poemas É um péssimo título

quinta-feira, 30 de abril de 2015

23 h 56 min e 4,09 seg

Para Érico Baymma

1
dias ruins
por coisas pequenas
quase-nada
pingo no i na letra errada
tropeço no cadarço desamarrado

dias ruins
por grandes problemas
estouro de boiada
um caminhão entalado bloqueando a paisagem
azia no banqueta das musas

dias ruins
por bobagens corriqueiras
coisas banais
azar no jogo
– dardo, RPG, carta –
ter que repetir a frase
(quando não se disse nada)

2
dias bons
por coisas pequenas
ou por nada
um sorriso (alado)
um pássaro pousado no retrovisor do carro

(ou por qualquer coisa fugaz rápida
como a queda de um meteorito
o bote de uma naja)

dias bons
por coisas grandiosas
que tomaram tempo
& cansaram o espelho
que consumiram a tinta do calendário

dias bons
por coisas improváveis inesperadas imprevistas:
encontrar um novo amor
ao pegar o caminho errado

(ficar perdido

até ter que mudar de casa)








* do livro Poemas é um péssimo título (para um livro de poemas)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Cidade dos sonhos



Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.

A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins,

arqueiros posicionados
no alto das colinas,

a infantaria
dinamitando as pontes.

Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.

No entanto,
antes que declarem o seu triunfo,

um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.

2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade,
que só existe em meus sonhos,
ficará entregue a própria sorte.

Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam,
ou eles migrarão para outros sonhos?

Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente, com as próprias mãos...

3

Saberei eu no sonho de quem?



*
do livro Poemas é um péssimo título

quarta-feira, 25 de março de 2015

Bula


Nenhuma história de amor.
Só palavras agrupadas
e algo que as coloque em (des)ordem:
um jogo semântico
uma brincadeira burocrática
métrica, rima, divisão silábica
trocadilho, gracejo, piada
qualquer coisa que lhe sirva de base
de desculpa, de álibi.
                  
Nada de vivo, nada que respire.
Só “um arranjo de carpinteiro”
“um trabalho de artesão”
ou outra dessas comparações horrorosas.

Talvez uma frase pronta possa ajudar:
“A palavra horrorosa /
é de uma beleza terrível”
e coisas desse nível para baixo.

Nada. Nada. Nada.
Só palavras aos montes
até formar uma pilha não muito alta:
ninguém vence vivo mais que uma página.

De repente uma última frase.
Sorrateira. Breve. Rápida:
“como o golpe de uma espada”
“feito corte de navalha”
ou outra dessas grandes bobagens.






do livro Poemas é um péssimo título

domingo, 1 de março de 2015

Saudade, a palavra


1
Saudade não se traduz
Ninguém sentia
senão os portugueses
que a espalharam:
pastores, poetas, pulhas

como a gripe, a varíola,
e a sífilis

(até o mundo todo
ficar contaminado).

2
Ninguém sente saudade em russo?
O que corre nas cartas de Maiakovisk?
O que sentiu Gagarin ao ganhar o céu?
Qual era a cor dos olhos de Lênin no exílio?

Uma palavra inaugura tudo?
Inventá-la, ou traduzi-la,
basta para (a palavra) colonizá-los?

3
Tudo, dizem os filólogos,
por errarem pelos mares
(nunca dantes)
deixando para trás as amadas
os filhos, o cachorro, o gato
– saudade é para quem fica

4
Mas e os outros, não erraram?
Gregos e persas pelo Egeu
Fenícios nas praias da China
Vikings cozinhando no Equador
A invencível armada posta a pique
Encharcando de sangue o Pacífico

5

Quanto desse sal?