quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

POEMA # 2

Foto: Rogério Felício: http://imagensdapoesia.blogspot.com/


POEMA # 2
para rafael borges martins


: impossível sem quebrar uns ossos,
talvez alguns golpes de navalha na face
(como um imprudente zagueiro
ou um barbeiro louco).

: improvável sem queimar algumas casas,
talvez algumas pessoas em praça pública
(como se fazia em nome de Deus
ou de homens alçados a).

: fora de cogitação sem pessoas,
talvez algumas que não existam
(como aquelas dos romances antigos
ou dos sonhos razoáveis).

: impensável sem amor pela vida,
talvez por uma mulher ou por um cão
(como se vê na rua aos sábados
ou nos bares à noite).





*

sábado, 1 de novembro de 2008

CONCURSO

Convite

Meus camaradas, um dia desses recebi um convite muito bacana para escrever um poema para o folder do Concurso de Redação e Poesia, do Centro Universitário do Planalto de Araxá. O problema inicial era escrever "sobre encomenda"; logo depois outro problema: um poema de tamanho estipulado. O concurso é divulgado em todas as escolas da cidade, entre crianças e adolescentes. Gostei do exercício. Segue o poema.... Abraços!



Poema

A um toque das mãos ter as pessoas,
poder ver na vida delas nossa vida continuada.
Pioneiras que antes de todos foram ao fundo
e dele regressaram com avisos, precauções.

A um toque das mãos ter as pessoas,
ser feliz com elas enquanto transitam –
estendendo a fronteira de nossa alegria
às ruas onde não eram aceitos os nossos passos.

A um toque, para o bem ou para o mal –
ter algo quebrado quando se embrutecem,
ser ferido quando se atracam,
quando se estilhaçam, ter algo partido.

A um toque das mãos ter as pessoas,
poder viver nelas o que não nos foi possível –
em seus pulmões o ar que nos foi recusado.
Seus sonhos e os nossos em uma mesma sala.

A um toque das mãos ter as pessoas,
ver nossa vida em suas vidas continuada.

Arte: Soreg (Revista Letras e Etc)

*

domingo, 31 de agosto de 2008

BELÔ POÉTICO


Camaradas, ocorreu no mês de Julho um evento muito bacana em Belo Horizonte - o Belô Poético! Tive o prazer de participar da coletânea Poetas En/Cena II, livro que circulou por lá. Infelizmente, não pude comparecer ao evento, por conta do trabalho - vida de professor é isso aí mesmo... O livro chegou em minhas mãos, uma edição muito bonita aliás. Aproveito o ensejo para publicar um de meus poemas que faz parte da obra. Abraços a todos!



Fábula segunda – esofagite

Todas as estatísticas sorriem para mim:
sou um entre as migalhas moídas pelo trânsito.

Meu nome corre entre os que matam
por gosto ou dinheiro –
capa de jornal sensacionalista, de ontem,
me explica como serei vítima de latrocínio.

Um merda sorri no algodão ariano de minha t-shirt,
e é vermelho o papel em que escrevo,
vermelhos os livros de história,
menstruados na estante.

Falo de amor contigo
em meu celular movido a lithium:
você me conta que nosso filho irá se chamar Citotec.

Somos felizes para sempre.



*

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Hiperbóreos

Pintura de Peter Max

Quisera que além das fronteiras
houvesse um outro mundo,
encravado debaixo desse mesmo céu –

onde homens como eu,
retirados do mesmo fosso,
tivessem aquilo que nos falta.

Por detrás de suas portas
tudo não fosse previsível e amargo:
a lida não exigiria o coração dos filhos,
o prazer da mulher anulado até segunda
_____________________[ordem,
as horas fraternas adiadas
para outro data, em outro lugar.

O dia, para acontecer, não necessitaria
mastigar a ponta de seus dedos
– beber o suco de sua imaginação
– minar o combustível de seus sonhos.

O dia, para funcionar, não exigiria
uma nova geografia nos rostos,
(uma imensa ferida aberta)
– o riso e o bocejo aniquilados
– o nome perdido em meio aos escombros
_______________________[da face
resistindo mumificado na foto do crachá.

Quisera que dobrando a linha próxima
houvesse uma outra terra,
mera continuidade dessa que por ora piso –

onde a lei não exigisse uma
travessia diária com o sol posto nas costas
afim de aquecer a piscina e corar as senhoras
de boa educação.

A ordem não obrigasse uma
rigidez marcial ao espetarem a lua no céu,
mantê-la acessa na janela das nights clubs
e pratear os passos de dança no gran hall.

Onde um decreto não impusesse
a manutenção e a conservação das estrelas
para acalentar o sonho dos pequenos
e ilustrar o triunfo dos bons moços.

Quisera que debaixo de seus tetos
houvesse mais que um fiapo de descanso
velado por um cão
ou um outro alarme estúpido qualquer –

que vencendo o limite adiante
existisse uma outra região,
habitada por homens como eu,
organizados num mesmo caldeirão –

onde os filmes de Chaplin
não fossem meros passatempos cômicos

e Chapolin Colorado não estivesse
lutando contra um demônio fictício.

Não fosse necessário afiar os dentes, as unhas,
sair de casa com uma faca no bolso da calça –

sem um dicionário de ódio no criado mudo
seria possível despertar, ir ao supermercado.

Quisera que após o perímetro adiante
houvesse um outro mundo,
situado no fim da rua que por aqui passa –

habitado por homens como eu.



*

domingo, 22 de junho de 2008

Variações sobre um mesmo tema

Dino Valls - Tacere

1 a)
Quisera ter sido um poeta de amor,
não sofrer visões do Pequeno Príncipe tomado
de sonhos homossexuais em meio aos baobás
ter as virgens maometanas em torno:

a inspiração morna em minha cabeça
feito um colo em que se afunda,
ou um seio onde se perde.

Quisera, sonho romântico, gonçalviniano,
ser dono dos dizeres verdadeiros sobre o amor:
não ver os olhos das mulheres com espanto
(como se fossem os olhos de Nietzsche ou o cano
de um revólver).

Acreditar, quisera tanto,
nos gozos, nos suspiros, nas declarações
não amar os homens que ornaram seus
pescoços com guilhotinas, as mulheres
que misturaram seus fogos
______________ aos fogos
das fogueiras da inquisição:
odiar para sempre a Igreja e a sua Santa Ignorância.

Quisera ter sido um poeta dado ao culto de Eros & Vênus
e não visualizar os últimos anjos que restaram
esconderem-se em meio às nuvens,
se desemplumando à seco, em desespero insano.

Quisera estar entre os laureados,
os poetas que o amor visita a pena
e o sentimento é uma constante
em seus crânios iluminados pela palavra
ser desses que os pequenos burgueses lêem à noite,
em seus quartos, depois de comerem o caviar
que o diabo amassou.



*

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A Casa

foto: Rafael Nolli

A casa

Dos homens que a ergueram
não restam sequer testemunhas:
um pó de memória que seca a garganta.

De como retiraram o barro das distâncias
e o emularam em célula não restou a sujeira
nas roupas ou o câncer que os consumiu.

De como em fornos cozinharam os miolos
e o caldo das montanhas, nada sobrou:
talvez uma cratera que junte água salobra
ou uma ficha em arquivo de manicômio.

De como chegavam em casa –
felizes por ainda terem os dentes na boca –
nada se sabe. Se há quem o recorde,
não há de dizer algo que valha.

De como suportavam as horas
tendo um copo de lágrima
e um cão para lamber as feridas das mãos
coisa alguma se relata –

ninguém anotou nada em lugar nenhum.
Por certo, os filhos dos que a ergueram
virão derrubá-la.

Disso, todos são testemunhas.



*

sábado, 12 de abril de 2008

Coletânea Trilhas

capa do Livro Trilhas - Coletânea de autores blogueiros, 2007




1) Interromperei por um tempo a publicação dos poemas da série Balada do Cárcere de Abaetetuba, para refletir melhor sobre os rumos que o poema está seguindo – venho tomando alguns conselhos com amigos, sobretudo o poeta e camarada Akira Riber Junoro, que me mostrou alguns pontos interessantes que estavam me escapando. Espero que em breve eu consiga postar o restante aqui.

2) Recebo essa semana a coletânea Trilhas, organizada pela Loba (Euza Noronha), querida amiga virtual, poetisa atuante que tem se revelado uma editora muito competente. Nesse livro se encontram três poemas meus, dois dos quais já configuraram por aqui. O outro, inédito até então, eu publico hoje.

Ps: Abraços a todos, e obrigado a Loba pelo convite. Parabéns pelo belo trabalho!


*



Bilhete Encontrado em um Buquê de Rosas

Se eu não te amasse, te mataria com prazer.
Te esqueceria numa cova rasa, em beira de estrada,
para que cães pudessem lhe desenterrar –
arrastá-la pelo asfalto em pedaços repletos de vermes
___________e de moscas.
*
Se eu não te amasse, te jogaria da ponte –
como se lê todos os dias nos jornais –
só para vê-la voar desesperada, sujar o chão
e menstruar a cara de merda dos passantes
___________e suas blusas impecáveis.

Se eu não te amasse, te sufocaria com o travesseiro
(seria perigoso dormir comigo). Te picaria
com a faca cega da cozinha. Pela noite,
prepararia uma travessa de yakisoba
__________e me tornaria canibal.

Se eu não te amasse, te atormentaria amiúde.
Faria com que Hitchcock dirigisse os teus
pesadelos. Te acordaria com sussurros de so-
cos no ouvido – se eu não te amasse,
__________seria isso que eu faria.


*

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Balada do Cárcere

andrzej jurczak


Ópera-rock sobre o Cárcere de Abaetetuba



3 – os detentos

Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu couve.

Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.

Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos

– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.

Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas

– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.

Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.

Aqui o sol é o mesmo para todos,
e o interruptor o apaga.







*

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Balada do Cárcere

andrzej jurczak


Ópera-rock sobre o Cárcere de Abaetetuba


2 – o carcereiro

Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.

(O trânsito é um problema que o incomoda:
busina, semáforo, lhe tiram do sério.)

Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.

(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)

Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.

(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)

Nada perturba o seu sono.



*

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Balada do Cárcere

andrzej jurczak




Meus camaradas, como comentado anteriormente, estou publicando hoje o poema sobre o Cárcere de Abaetetuba. Inicialmente dividido em três partes, o poema começa a tomar um corpo maior. Vejamos no que vai dar. Por fim, não custa repetir o quanto esse caso me chamou a atenção. A primeira impressão que tive foi que seria impossível não me manifestar. Refleti muito nesses dias como uma garota pode ser lançada numa cela masculina e mantida por um mês em companhia de vinte e tantos detentos... Porém, é inútil me explicar aqui: tudo que senti está no poema!
*



Ópera-rock sobre o cárcere de Abaetetuba



1 – os fatos

Tinha quinze anos e subtraíra um Rolex made
in China ou um CD by Zona Franca de Manaus.

Por isso fora jogada
numa cela úmida de suor e porra.

Uma cela ocupada por homens exemplares,
educados na arte da pederastia e da extorsão
– onde trocava um copo d’água por uma chupada.

Tinha quinze anos e roubara pouco mais
de uns reais, que não lhe pagavam a fome.

Por isso fora jogada
numa cela feita de aço, músculo, testosterona.

Uma cela abarrotada de orações sinceras,
de sífilis, de gonorréia
– onde trocava fiapos de colchão por tapas na cara.

Tinha quinze anos e roubara um pedaço de pão
ou uma carteira de couro de avestruz.

Por isso fora jogada
numa cela fedendo a desinfetante de menta e cu.

Uma cela decorada com frases de ódio
e estelares bocetas globais
– onde trocava um prato de comida por uma trepada.



2 – o carcereiro

Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.

(O trânsito é um problema que o incomoda:
buzina, semáforo, lhe tiram do sério.)

Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.

(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)

Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.

(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)

Nada perturba o seu sono.



3 – os detentos

Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu nada.

Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.

Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos

– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.

Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas

– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.

Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.

Aqui o sol é o mesmo para todos
e o interruptor o apaga.



4 – opinião pública

A língua áspera lambe a notícia
até que a menina morra envenenada

Amanhã, uma mais perversa enfeitará a página
e depois de amanhã uma nova desgraça
(nenhuma azedará o almoço).

Com um imã, afixar o jornal na geladeira
 não lhe parecerá estranho.



5 – o culpado

O dedo pode correr sobre a lista telefônica,
comer cada um dos nomes: nenhum será o dele.

O olho atento poderá sorver a página policial,
percorrer sem tropeço os livros dos cartórios.

Os passos podem excursionar pelas genealogias,
singrar das raízes profundas às folhagens.

A mão pode investir sobre todas as identidades,
freqüentar os volumes de centenas de bibliotecas.

A voz pode indagar pelas ruas, gritar nos museus,
visitar cada um dos nomes: nenhum será o dele.



6 – fim

cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível

(talvez seja o vizinho
ou nós mesmosalgo nos diz)

e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum


*