domingo, 22 de junho de 2008

Variações sobre um mesmo tema

Dino Valls - Tacere

1 a)
Quisera ter sido um poeta de amor,
não sofrer visões do Pequeno Príncipe tomado
de sonhos homossexuais em meio aos baobás
ter as virgens maometanas em torno:

a inspiração morna em minha cabeça
feito um colo em que se afunda,
ou um seio onde se perde.

Quisera, sonho romântico, gonçalviniano,
ser dono dos dizeres verdadeiros sobre o amor:
não ver os olhos das mulheres com espanto
(como se fossem os olhos de Nietzsche ou o cano
de um revólver).

Acreditar, quisera tanto,
nos gozos, nos suspiros, nas declarações
não amar os homens que ornaram seus
pescoços com guilhotinas, as mulheres
que misturaram seus fogos
______________ aos fogos
das fogueiras da inquisição:
odiar para sempre a Igreja e a sua Santa Ignorância.

Quisera ter sido um poeta dado ao culto de Eros & Vênus
e não visualizar os últimos anjos que restaram
esconderem-se em meio às nuvens,
se desemplumando à seco, em desespero insano.

Quisera estar entre os laureados,
os poetas que o amor visita a pena
e o sentimento é uma constante
em seus crânios iluminados pela palavra
ser desses que os pequenos burgueses lêem à noite,
em seus quartos, depois de comerem o caviar
que o diabo amassou.



*

10 comentários:

Cássio Amaral disse...

Quisera eu ser um guerrilheiro como você que pega a metralhadora e atira só no âmago da verve versos que refletem a guerrilha de um poeta com P maiúsculo.

SAMANTHA ABREU disse...

pois eu acabo de crer: o amor nunca rende grandes poemas, como este.
Se assim o fosse...tadinhos dos burgueses!
rs.

poema anti-poema belíssimo, querido!
Um beiJO!

Juliana Carvalho disse...

OMG... você usou o contexto e ousou tirar de mim de um modo estranho toda e qualquer palavra ou expressão que eu poderia usar pra te definir ou exaltar, me deixou muda, sem fôlego numa cadeira sentada olhando perplexa para esta tela. Mas eu me esforço e digo: sim, não há como negar, você é poeta, e estou encantada³ com seu talento, com os elementos que compuseram a obra de arte que você me deu o prazer de apreciar!
Golpe baixo, muito baixo, a história, a poesia, a arte, os sentimentos... a explosão cultural e de sensações. Obrigada por estes momentos ;)!

anjobaldio disse...

Muito bom.

Fabrício Brandão disse...

Meu caro poeta!

São poemas como este, que desengavetas aqui para nosso deleite, verdadeiros reforçadores de sua veia sensível. Ao poeta, cabe esse ofício dual de se deitar com a beleza e o estranhamento sobre um tudo.

Obrigado, de coração, por fazer parte dessa estrada chamada DIVERSOS AFINS!

Abraços em poesia!!

Chica disse...

Queria eu ser burguesa e depois de comer o caviar que o diabo amassou, posto que deve ser delicioso, ler-te até dormir.
No entanto o destino não me compadeceu com a burguesia e quando eu te leio minhas pupilas se abrem infinitamente.

Abraço, poeta!

Juliana Carvalho disse...

Vou te linkar okey?

Cecília Borges disse...

parabéns!
é bom ver nossas letras voarem!

atualize :)

Sônia Marini disse...

Poema forte, como é sua marca.A ponta da faca sempre na ferida.
Fui ver o diversos e afins. Muita gente boa por lá. Parabéns!
beijos

Sônia Marini disse...

Ops..."Diversos Afins"