sexta-feira, 2 de maio de 2008

A Casa

foto: Rafael Nolli

A casa

Dos homens que a ergueram
não restam sequer testemunhas:
um pó de memória que seca a garganta.

De como retiraram o barro das distâncias
e o emularam em célula não restou a sujeira
nas roupas ou o câncer que os consumiu.

De como em fornos cozinharam os miolos
e o caldo das montanhas, nada sobrou:
talvez uma cratera que junte água salobra
ou uma ficha em arquivo de manicômio.

De como chegavam em casa –
felizes por ainda terem os dentes na boca –
nada se sabe. Se há quem o recorde,
não há de dizer algo que valha.

De como suportavam as horas
tendo um copo de lágrima
e um cão para lamber as feridas das mãos
coisa alguma se relata –

ninguém anotou nada em lugar nenhum.
Por certo, os filhos dos que a ergueram
virão derrubá-la.

Disso, todos são testemunhas.



*

11 comentários:

Cássio Amaral disse...

Preciso brother.

Foto e versos no tom certo.

Abração.

Túlio Henrique Pereira disse...

Nossa, estou surpreso. Pra falar a verdade ao dar uma olhada superficial pelas imagens e pelo seu blog anterior pensei muito se leria algo ou não, mas fui surpreendido, e confesso: coisa rara na poesia atual. Realista, exata, poética e contemplativa. Poderia discorrer um ensaio sobre este único poema, mas prefiro aguardar a chegada do livro. Um abraço Rafael.

Mary disse...

Sabe que às vezes eu me incomodo com a falta de sensibilidade das gerações que simplesmente 'se livram' de patrimônios por conta da mesquinharia? São poucos os que dão valor merecido às coisas que foram construídas e vividas com sacrifício, suor e lágrimas!
Beijos.
;)

_Maga disse...

dos pais só os filhos. E uma tentativa desesperada de fazer algo.. nem que seja desfazendo tudo. Um abraço (muito bom o poema! parabéns!)

jobofevi disse...

Um belo poema e uma triste realidade. Boa tarde amigo.

Cecília Borges disse...

Poema forte!
A poesia muda dessa casa e dessa gente você anotou.

Bj grande!

Vieira Calado disse...

Um belo poema, amigo!
Um abraço.

SAMANTHA ABREU disse...

Me lembrou 'saudosa maloca', que é uma música que sempre me emociona muito (já ouviu na voz de Elis?). Talvez por essa mistura de construção com suor, história de vida e de luta.
Me emociona muito... lembranças de vida, essas coisas.
Um beijO!

Paola Vannucci disse...

Nolli,

a tragetória humana, e a incertza do que nossos filhos poderão ter , fazer ou agir......

Vim aqui me atualizar nas suas palavras

beijo

Maria disse...

e me lembrou de Construção, do Chico..."Ergueu no patamar quatro paredes sólidas,tijolo com tijolo num desenho mágico,seus olhos embotados de cimento e lágrima..."

Foto e a A Casa dizem muito...
bjks

Ricardo Valente disse...

Gostei bastante! Abraço!