sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

XXXVI

31/12/03

...e é, na mesa, que nos diferimos. É na ceia que nos diferenciamos. Esse ano que passa nos mostra mais uma vez que é a mesa (repleta ou escassa) que nos divide em pólos distintos.


... logo, a criança que debruça na lata de lixo estacará um instante para ver os fogos... senhor, zelai pela nossa miséria. Que as latas de lixo amanhã amanheçam repletas! Que assim seja!

Mas que seja hoje, senhor, pois esse ano-velho amanhã será tão velho quanto os ossos do peru que o cão enjeitou, e que apodrecem na horta... tão velho quanto a fome do menino de ontem, debruçado, um lixo... amém.


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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Planos de Vôo

Imagem de Hugo Martins


1 – os motivos


Sempre haverá um rompimento

ou discussão envenenada.

Por um momento, bem sabemos,

motivo é o que menos há.


Sempre haverá uma dor de perda

que só se perdendo para esquecê-la.

E há, sempre há, motivo obscuro

nunca suposto, jamais revelado.


Sempre haverá demissão inesperada,

concepção indesejada, inoportuna,

surgida em hora ingrata pela mão de sujeito

sem-nome, sem-vergonha, sem-cara.


(Nenhum que justifique ou que explique)


2 – a forma


É público, porém limpo –

outros verão o espetáculo,

não aqueles de apreço.


(Em casa, o sangue manchará

cortinas, desvalorizará o imóvel.)


É público, porém limpo –

outros verão o show, serão

aqueles que por um ou dois dias

deixarão de dormir,

beberão café em excesso,

terão um cigarro queimando os dedos.


Serão aqueles que esquecerão logo,

que comentarão via telefone,

especularão pela mãe – pobrezinha! –

e levarão o episódio às manicures.


É público, porém limpo.

Logo a ambulância fará o seu serviço

e a chuva ou as varredeiras, o seu.


(Em casa, o sangue entupirá

o ralo e excitará o cão.)


3 – o viaduto

a) Demolir seria insano, já que é via importante que oxigena o corpo da cidade. Demolir seria pôr fim a engenharia respeitável, amputando a paisagem. Bem sabemos que sempre haverá outros métodos a serem utilizados: a corda e a faca preenchem o cardápio.

Demolir seria insano, já que é veia vital que irriga o coração da cidade. Demolir seria incinerar o dinheiro do contribuinte, aleijando o cenário. Bem sabemos que sempre haverá outras formas convidando ao ato: revólver dormindo debaixo do travesseiro, mata-rato na prateleira final do supermercado.


b) Policiar se mostra inútil – seria o mesmo que montar base sobre os ossos dos cavalos ou à estátua de um elefante cinzento.


Policiar se mostra inútil, posto que se trata de região rica em possibilidades: os rios convidam ao afogamento e as margens barrentas à decomposição.


E quando tudo estiver sitiado, sobre a cômoda desaparecerá uma dezena de comprimidos da mãe.


4 – a rota

Nenhum semáforo que avermelhe

ou placa de trânsito que obrigue


(O sol

projetando a sombra)


Caminho pouco imaginativo

de paisagem em baixa resolução


(O vento

desmanchando o penteado)



5 – instante


Último pensamento

incapaz de ser compartilhado

pela brutalidade do pouso:

nada é mais belo que o pôr-do-sol

dourando as bordas do abismo.



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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O mesmo título de uma obra de Knut Hamsum



Seria aceitável se estivéssemos
firmados em um deserto de sal
devorando o pneu dos tratores.

Se fôssemos aniquilados por
terríveis gafanhotos bíblicos
estragando os olhos das mulheres.

Seria aceitável se nos achássemos
em terras incultas dentando os arados
e enferrujando os ossos dos homens.

Se vivêssemos sobre um chão
diurético, por décadas incontáveis
afogando as auto-estradas e os silos.

Seria aceitável se nos restasse uma terra
imprestável para sepultar os chacais,
dia-a-dia corroendo as mãos das crianças.

Se habitássemos um solo indisposto,
nauseado das sementes, asfixiando o céu,
estrangulando a paisagem.




* Da coletânea POETAS EN/CENA 3
Reunião de poemas de poetas brasileiros no V Belô Poético.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Estúdio Raposa - Portugal


Meus camaradas, alguns de meus poemas podem ser ouvidos na voz de Luis Gaspar, no audioblog português Estúdio Raposa. Feliz demais ao ouvir meus poemas, me deu um ânimo novo em ler, ler e produzir. Só tenho a agradecer a Luis Gaspar por esse presente! Um abraço a todos!

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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Meus poemas por aí


O mesmo título de uma obra de Joseph Conrad

Basta um instante e tudo muda
no coração da cidade.
A hemorragia de gente pára
para avistar um corpo estirado no chão.

Agrupam-se em torno da cena
pintada no asfalto com cores em excesso –
são amplificados, ecoam nas paredes:
lembram uma picada de inseto.

A sacola largada do alto do prédio
se agarra aos fios de alta-tensão –
onde a força dos rios corre
transformada em cavalos excitados –

e súbito desprende para alçar novo vôo.
Os carros voltam a gritar, impacientes,
exigindo descanso aos seus músculos de aço:
clamam pelo conforto das garagens.

O minuto seguinte, engasgado no letreiro digital,
é vomitado sobre a cabeça de todos.
Logo, a gaze encharcada começa a gotejar.
Um instante, e volta a bater o coração da cidade.



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* Dois poemas de meu novo livro, Comerciais de Metralhadora, podem ser lidos na Revista Eletrônica Paralelo 30, confiram:
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Visitem! Um abraço, meu camaradas!
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domingo, 9 de agosto de 2009

Revistas Eletrônicas

foto de l. rafael nolli






Acaba de sair do forno um novo número da Revista Diversos Afins - literatura, fotografia, ensaios e entrevistas, tudo feito com muito esmero. Vocês podem conferir um poema meu por lá: http://diversos-afins.blogspot.com/2009/07/trigesima-quinta-leva.html



Um texto muito bacana sobre minha poesia, um ensaio que muito me deixou feliz, vocês podem conferir na Revista Eletrônica Falópios (Escrito pela amiga, a escritora Larissa Marques): http://falopios.blogspot.com/2009/08/rafael-nolli.html




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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Os Agentes B

Dino Valls - la nave de los locos

para Rodrigo de Souza Leão
(04/11/1965 - 02/07/2009)


1 – TOP SECRET

O poeta trazia um chip escondido no corpo.
Aos 23 soube que era rastreado –

numa sala escura um monitor Toshiba
piscava uma luz verde que era ele:

se súbito virasse à esquerda
e corresse até o tênis acabar eles saberiam.

Mergulhar por dias em piscina, de escafandro,
ou enfiar o dedo na tomada não adiantava –

era a prova d’água, imune ao curto-circuito.

A luz continuaria piscando, indicando
aos agentes que ele estava onde estava.

Com a faca arrancá-lo seria em vão.
Outro seria posto no lugar do primeiro –

à noite, pelo pai; ou num ato violento por eles.

Novamente internado, voltaria
com a tecnologia re-implantada –

up grade da versão dois ponto zero,
mais moderna, com sinal via satélite.

2 – Fuga e outros movimentos

Certo dia, perseguido por todos,
desceu correndo os treze andares da CEF,
contando cuidadosamente cada degrau.
(Diante do impasse, quase voltou para conferir)

Os macacos em seu encalço
– mordendo o calcanhar do tênis Nike –
seria uma prévia de tantas outras perseguições.
(Análogas às exibidas na Sessão da Tarde)

Aquele era o momento de lamentar não ter fu-
gido com Rimbaud – companheiro de manicômio
onde trocavam figurinhas do time do Flamengo.
(Álbum Campeonato Brasileiro, 1989)

3 – Necrológio

Acordou vinte anos depois
– ressaqueado de Haldol –
seu nome inscrito no obituário.

Levantou da cama
– a hora havia chegado –
e comunicou a todos que iria morrer.


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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Rodrigo de Souza Leão

Cássio Amaral, Rodrigo, Eu, Ricardo Wagner

Quando fomos ao Rio de Janeiro para tentar, sempre tentar, vender uns livros de poemas, eu não esperava nada além de uma brisa marítima soprando forte, de um trânsito infernal. Clichês pisados e repisados.
E foi nesse passeio que conheci, pessoalmente, Rodrigo de Souza Leão. Já gostava muito de sua poesia. O cara nos recebeu muitíssimo bem e nos propiciou um papo sem igual, nos mostrando uma visão lúcida sobre a poesia contemporânea. Fiquei triste quando me informaram que ele havia morrido.
A passagem na casa de Rodrigo valeu a viagem e muito mais. O podle – que não era azul – chato pra caralho, as pinturas feitas com o chuveirinho do banheiro, cigarro, cheetos e coca ligth: tudo guardado para um poema futuro.
Rodrigo deixa uma obra vasta que merece leitura atenta. Um poeta vigoroso.



MEU PAI QUE NÃO ESTÁ NA FOTO


Comi distância nas pálpebras
Fechadas de minha razão
Pude sentir a minha Loucura
Sempre sorrindo de dentadura

Oro aos sãos que me querem
Tateando o Horizonte dentro
Daquela noite eterna
Em que me deitei em mim

Pra sempre quis estrelas
Quem sabe irei ser um dia
Aquela que adiante guiará
Meu pai no mar da poesia

*Rodrigo de Souza Leão





terça-feira, 2 de junho de 2009

Retrato Falado #1

Imaginá-lo pensando em um céu esterilizado, completamente desabitado, não é exercício de muita poesia. Não há poesia alguma em vê-lo esmagado pela solidão.

Seus planos sangrentos, encharcados de crueldade, nem devem ser mencionados. Nunca matará ninguém.

É tomado de pesadelos que acorda: seus projetos de esfaquear pelas costas, incendiar casa com gasolina, atropelar e fugir, nunca sairão do papel. Logo o sangue congela nas veias.

No fundo do poço o escape que lhe ocorre é cavar.

*

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Comerciais de Metralhadora

(*Infelizmente, não sei quem é o autor da foto)




Um último hot-dog para Saddam Hussein



Quem hoje vai à forca
não é apenas aquele que o nome serviu
para nomear os cães raivosos,
apelidar os agressivos e tarjar os aptos à violência.

Quem hoje caminha para a mais justa das mortes
– talvez uma morte muito leve
para o peso de seus crimes –
não é apenas aquele que com seu bigode
é estereótipo de ditador,
pintado nas telas de Hollywood
como uma espécie de Carlitos satânico.
Avesso de herói: bufo,
cômico,
flatulento.

Sim, a sentença é categórica:
não lhe darão o balaço que merece,
um terceiro olho na testa,
posto que é soldado e
como tal deveria ser executado.

Será ao modo dos medievos:
com corda no pescoço,
língua roxa, baba morna e espasmos finais terríveis
de gado em matadouro:
platéia rompendo em aplausos diante de um
cadáver que será servido em banquete
à opinião pública.

Suplício televisionado aos países civilizados do globo,
com direitos exclusivos cedidos às grandes redes
de entretenimento e de news:
jornalistas dentro de ternos cinzas
confusos se devem sorrir ao noticiar o fato,
ou se graves como guarda-chuvas a degola
mereça uma voz empostada e imparcial.

Sua morte sendo noticiada em meio
a propagandas de programas esportivos,
anúncios de produtos para o combate às rugas
e reclames de cartões de crédito
com juros assustadoramente baixos e humanos.

Cidadão Kane organizando a grade,
negociando com os patrocinadores a divisão
latifundiária dos intervalos supravalorizados pelo show –
todos suplicando por closers
e recursos cinematográficos
que remeta o expectador à necessidade
imediata do consumo.

Letreiros enormes de pasquins anunciando,
equivocadamente,
o bota fora de Saladino,
o enforcamento dos muçulmanos,
o sumiço do Profeta –
pequenas matérias de última hora
confundindo o Corão
com o manual do terror fundamentalista.

Esse que em juízo
mostrou descrença diante de um tribunal
sem autoridade para julgá-lo
esteve ainda ontem escrevendo poemas,
não sobre as armas químicas
que utilizou sobre seu próprio povo,
mas a respeito de como o homem
deve proceder com as mulheres:
pequenas odes machistas, sobre cama & cozinha.

Esse homem que com toda a razão
renega o promotor, os jurados
e o sistema armado para condená-lo,
há poucos dias não passava de
um simples velhote imundo,
piolhento,
enfiado num buraco no deserto,
fugindo das águias estadunidenses
vindas dos sopphing-centers do norte,
vestidas com o que há de mais moderno
nas grifes bélicas.

Esse homem com uma agenda odontológica repleta
de compromissos com a obturação das cáries
e a operação dos canais
em nada recordava
o senhor distinto que de farda
convidou seus filhos para assistirem
o assassinato de seus opositores.

Em nada lembrava
aquele que esteve metido em golpes de estado
e no massacre dos próprios genros.

Em nada recordava o inteligente e cruel ser
que empreendeu uma constante guerra no Golfo Pérsico.

Não recordava o aliado dos xás do Irã
que intentavam com a guerra barrar a revolução islâmica.

Não recordava aquele que simplesmente
decidiu pela anexação do Kuait para matar –
mergulhado em sangue –
a sua sede de petróleo.

Duvido que algo no mundo mude
após o espetáculo pop de sua derrocada
(que nada tem a ver com a derrocada do povo iraquiano,
que humildemente resiste até a vitória):

a tv se cansará de noticiar
cristãos fundamentalistas
comemorando a vitória da democracia ianque;

se cansará de discursos judaicos inflamados
defendendo a propriedade privada
e o neoliberalismo;

se cansará dos palestinos ortodoxos e dos brandos
discutindo, muitas vezes com a voz das baionetas
e a língua de fogo da AK 47,
os pormenores para uma convivência dicotômica.

E a paz no mundo será a mesma paz que há agora,
pois hoje cai um genocida,
mas é outro que o derruba.




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sexta-feira, 27 de março de 2009

Memórias à Beira de um Estopim

capa e contra-capa do livro com ilustração de Hugo Martins


IV
28/08/03
____Nem parece que há horas atrás carros-bomba e homens-bomba se misturavam nos noticiários, entre propaganda de cigarros e furos de reportagem. A cidade dormente mal lembrava que, entre estilhaços e concretos, o terrorismo consolidava-se dentre os feitos decorrentes do século.
____Na cidade noturna, os homens esquecem que os bombardeiros e as balas perdidas são os únicos exemplares de aves que nos restou; que os navios e submarinos são os únicos peixes que nos sobraram.
____(Esses homens, quando acordam sobressaltados no meio da madrugada, põem-se a fornicar, por que, para eles, a noite existe somente para se reproduzirem. Esses homens despertarão cedo, antes da alva, como se o amanhã fosse previsível e a morte uma impossibilidade.)


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

ÓPERA-ROCK SOBRE O CÁRCERE DE ABAETTUBA

Jan Saudek


4 – parte final



cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível

(talvez seja o vizinho
ou nós mesmos – algo nos diz)

e rua por rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum





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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Anatomia de um Rio

imagem de Hugo Martins *

Anatomia de um rio - l rafael nolli


Às margens desse rio asfixiado
habitado pela merda expelida das casas
e o ácido excedente das indústrias
homens pararam por um instante –
testemunharam seus reflexos no espelho;
outros
velaram toda uma noite atrás de um peixe.


Nessas águas espessas
violentadas pelo óleo das auto-estradas
oprimidas pelo caldo dos bueiros
mulheres lavaram a roupa e as mágoas;
outras se aliaram ao corpo do rio
para ajudar as flores a resistirem ao inverno
e os tomates a se rebelarem contra a seca.


Às margens desse rio viciado
picado pela agulha dos hospitais
assaltado pela indigestão dos restaurantes
meninos caçaram animais que por ali se aventuravam
ou simplesmente ficaram ao vento –
que não tinha o cheiro senão do campo que percorria.


*
M C Escher






























www.rafaelnolli.blosgpot.com











Meus camaradas, essa ilustração foi feita por um grande amigo aqui de Arachá, ilustrando um conto meu. Infelizmente o conto se perdeu. Por sorte, nos resta a bela imagem. Abraços!



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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

BALANÇO GERAL SOBRE O ANO DE 2008


tela de Lorenzo Mattotti

Neruda voltou a ser o meu grande poeta. Não sei por que, mas vinha me afastando dele ultimamente, enquanto pensava comigo o quanto nos falta – para a nossa poesia – mais reverências a esse poeta. Isso é algo que me marca nesse ano, que foi, possivelmente, o ano que menos li em minha vida. Creio que o trabalho tenha me impedido de certos prazeres; logo o trabalho que é exatamente o que eu queria para mim. São coisas da vida. Ainda assim foi o ano em que li A Revolução dos Bichos, livrinho de meia dúzia de páginas que me marcaram como um coice, além de um certo Morravagin, de Blase Cendrars, que me impressionou bastante. Apenas uma releitura me permiti: Humano, Demasiado, Humano – o tio Nit continua entre as minhas prioridades.
Passando parte desse ano a limpo me vem à memória uma espécie de embrutecimento – deve ser a idade, ou algumas pedradas que caíram do céu. Não me lembro de ter chorado em cima da página de nenhum livro, derramada nenhuma lágrima sobre um poema – ainda que William Carlos Willians tenha me tirado o sono por um bom tempo; sequer de algum filme me recordo com olhos marejados: e foi um ano de bons filmes, dentre eles um Fellini visceral e um apaixonante Je vous salue Marie. Espécie rara, com certeza, esse embrutecimento.
Ainda nesse terreno, por vezes lodoso, outro número me assusta: escrevi, no máximo, uns cinco poemas. Disso eu não pretendo reclamar, porque venho planejando a muito condensar a minha obra, escrevendo só mesmo quando for inevitável. A blogosfera trouxe a liberdade de publicação e paralelamente disseminou uma cultura de leitura imediata e descartável. Isso nunca fez a minha cabeça – não acredito no poema eterno, romântico, que sobreviverá a morte do corpo físico do poeta e atravessará os séculos arrancando suspiros de donzelas, no entanto estamos vivendo um tempo de consumo imediatista em que o poema só vale enquanto é lido. Pior que isso só mesmo uma febre tifóide.
Escrever um verso semanalmente, religiosamente, nunca me pareceu exercício de grandes resultados. Com cinco poemas fecho o ano com um balanço positivo – ao menos são cinco poemas que me agradam, que sei que foram colhidos nas pessoas e não nos livros. Não que eu tenha algo contra o conhecimento livresco, mas reforço a minha visão de que poesia é um instrumento de transformação social, e não um bicho de laboratório, produto sintético, sem sangue e suor, que vive no dicionário esperando que venha um vulto sagrado para ordená-las magicamente. Buscar a qualidade e não a quantidade é uma meta que pretendo continuar seguindo, ainda que para isso tenha que deletar um poema por mês, ou abortá-lo semanalmente. E o povo, na rua, que passa por mim, trás consigo uma poesia inexplicável, pedindo para ser escrita.
Esse que seria o ano do Chico acabou me surpreendendo. Chico foi o que mais tocou na minha vitrola – sim, eu tenho uma vitrola – mas tive a minha fé renovada na guitarra elétrica. Culpa de uma epifania ao ouvir certa música do Sabbath, mais exatamente a grandiosa & wagneriana “Lonely is the Word”. No plano das realizações, seria o ano em que voltaria a tocar bateria e provavelmente montaria uma banda, deixaria a barba crescer e incomodaria os vizinhos com violentos golpes nos tambores. Nada disso ocorreu e nada mais me resta falar sobre esse assunto.
Duas estruturas não se abalaram em mim. E saio mais forte e confiante em minhas posturas ideológicas. Ateu, sim. Por mais que Isaías tenha me tocado com sua poesia, prossigo totalmente descrente e feliz com essa condição, ainda que tenha sido um período em que fui muito cobrado por isso. Comunista. E lamento por aqueles que não o sejam – o que poria as coisas em seu eixo mais rápido. Isso basta e diz tudo, o resto pode ser observado em meu livro Memórias à Beira de um Estopim. O lobo e o cordeiro comerão em um mesmo pasto, mas quem tornará isso possível será o próprio homem, esse ser pequeno e falível e não uma força invisível, infalível, abstrata. E terá, com certeza, gosto de aurora.
No campo do amor, continuo serenamente apaixonado, completando cinco anos de namoro, mergulhado em um relacionamento estável, construído em um solo seguro. Sem grandes discussões ou problemas de qualquer ordem, pretendo que assim se estenda pelo ano vindouro.
Esse foi o ano em que me formei. O pior dos três anos de curso. O que salva são os amigos que fiz, infelizmente distantes, a maioria em suas cidades natais. Foi o ano decisivo para fortalecer laços de amizade e para desmanchar aqueles que o nó já vinha se afrouxando. Fica uma saudade do clima e, sobretudo, das pessoas; a escola é o meu ambiente, é nele que me saio melhor e é dele que venho tirando o meu sustento, já que a poesia não vende, e o poeta valha menos que um zibazol. Apenas uma grande mágoa guardo da faculdade, mas sou prodígio em curar essas feridas – um pouco de tempo, merthiolate e Band Aid me bastam.
Por vezes foi um ano estúpido, ignorante. O predomínio da intolerância me tirou o apetite muitas vezes – um pouco de Voltaire, ou de humanidade faltou para os porcos que estão no comando. Diante da TV ou navegando pela Net me vi enfurecido com a estupidez dessa guerra no Iraque, sem propósito, essa matança que não respeita nenhum código, que vem marchando sobre o povo indiscriminadamente, apenas para alimentar uma república às portas da falência – a economia baseada na indústria bélica deve encontrar o seu fim, ou em breve o mundo será consumido por esse ódio. Temo muito que o ano de 2009 seja o ano em que veremos o maior dos massacres desse imberbe século – Israel com suas costas quentes invadindo a faixa de Gaza por terra, com o seu arsenal, seus tanques. Isso me causa arrepios. Espero sinceramente não ver isso.
Veremos o que será desse 2009 que começa com uma crise econômica que se arrasta pela Europa e pelos EUA e que pode estender os seus tentáculos sobre o nosso continente, que vem se transformando muito rapidamente, em diversos pontos para melhor – temos democracias em processo de solidificação, lideradas por presidentes atentos com os problemas sociais, em especial o caso da Venezuela e da Bolívia. Não nego que existam alguns erros, algumas falhas, isso é certo, mas ainda assim são os melhores que já chegaram lá: estendo essa visão ao Brasil.
Para finalizar, um sinal me parece muito bom. Esse ano se inicia com o aniversário de 50 anos da Revolução Cubana, um grande motivo para celebrar.
Uma abraço a todos e feliz 2009.




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