quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O mesmo título de uma obra de Knut Hamsum



Seria aceitável se estivéssemos
firmados em um deserto de sal
devorando o pneu dos tratores.

Se fôssemos aniquilados por
terríveis gafanhotos bíblicos
estragando os olhos das mulheres.

Seria aceitável se nos achássemos
em terras incultas dentando os arados
e enferrujando os ossos dos homens.

Se vivêssemos sobre um chão
diurético, por décadas incontáveis
afogando as auto-estradas e os silos.

Seria aceitável se nos restasse uma terra
imprestável para sepultar os chacais,
dia-a-dia corroendo as mãos das crianças.

Se habitássemos um solo indisposto,
nauseado das sementes, asfixiando o céu,
estrangulando a paisagem.




* Da coletânea POETAS EN/CENA 3
Reunião de poemas de poetas brasileiros no V Belô Poético.

14 comentários:

Cássio Amaral disse...

Detonante!

Braços.

isaias de faria disse...

nolli meu velho, poema muito bem estruturado e belo. nossa produção tem q continuar mesmo q devagar mas sempre . muito bom, meu amigo, não tem o q contestar e nem ha como não aceitar, a natureza dá seu troco a nos.

f@ disse...

Olá Rafael,

Bem possível o deserto de sal… que me en canta…
Tal como a força com que corrói o pneu…

Os olhos das mulheres tb facilmente os gafanhotos pintavam mas o olhar …não sei…

Agora dentar arados seria aceitável … talvez o esqueleto humano + esforçado não teria vontade de aniquilar o sol e o solo…

O Homem já estrangula tanto a paisagem que se estrangula a si mesmo…

Esse teu poema é um grito que todos precisamos escutar…
Adorei….

!nfinito beijinho

jorge vicente disse...

fabuloso, meu bom Poeta!!!!!

grande abraço
jorge

tenório disse...

'Se habitássemos um solo indisposto, nauseado das sementes, asfixiando o céu,estrangulando a paisagem'.

Magistral, camarada!

ah, depois entre no meu blog, postei um dos seus poemas.

Barone disse...

Belíssimo e forte.

Eliane F.C.Lima disse...

A poesia continuará viva, enquanto a sensibilidade for capaz de ver o que está ali para ser visto. E dito.
Abraços,
Eliane F.C.Lima

tenorio disse...

Grande Nolli! Queria te fazer um pedido: eu escrevi um poema aqui que realmente não sei se presta. Sabe quando nos acomete uma cegueira de contexto, de critério, de julgo? Sabe que te considero um mestre, não é? Seria demais pedir que o lesse e me dissesse com sinceridade se o poema vale algo? Juro que não sei se, certas frases, flertam com o ousado ou com o piegas. Me dá um help? Se sim, para onde envio-o? Enfim, abraço

Tenório

tenorio disse...

Ai, ai... pelo seu silêncio, poema deve não prestar, né? Risos. Vamos abafar o caso? Deixo-o onde o seu conteúdo já está: no lixo.

Enfim, e novamente vou por a cara à tapa: fiz um blog, onde vou publicar meu romance em capítulos virtuais...

Seria um prazer enorme receber sua visita por lá! Qualquer olhar que lance por lá, já vai ser uma baita ajuda.

É isso, camarada!

garciavaimorrer.wordpress.com

Sociedade Mutuante disse...

Prezado L. Rafael Nolli, obrigado pela estadia em nossas instalações culturais. Volte sempre! Felicitações Mutuantes!!!

Paulo Viggu disse...

É esse fundo escuro nessa poesia como contraponto em sua entrelinha. Poeta-irmão Nolli - Saudade sua no Riodaqui. Abraço - Paulo Viggu

clarice ge disse...

Estava escutando/lendo, no Estúdio Raposa. Ali narrava que não és pródigo em dados biográficos. Como pode haver economia de dados de vida em alguém com a palavra tão rica?
Deve ser engano! Tu exerces a poesia de uma forma tão particular que isto já é algo que te destaca entre muitos e dá credibilidade a uma vivência cheia de dados.
abraço meu

_Maga disse...

Perfeito.

Seria aceitavel, se não fosse domingo, e não fossemos tão melancolicos.

Um grande abraço

ElLeNzYnHa!!!!!! disse...

Muito lindo Adorei