sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Anatomia de um Rio

imagem de Hugo Martins *

Anatomia de um rio - l rafael nolli


Às margens desse rio asfixiado
habitado pela merda expelida das casas
e o ácido excedente das indústrias
homens pararam por um instante –
testemunharam seus reflexos no espelho;
outros
velaram toda uma noite atrás de um peixe.


Nessas águas espessas
violentadas pelo óleo das auto-estradas
oprimidas pelo caldo dos bueiros
mulheres lavaram a roupa e as mágoas;
outras se aliaram ao corpo do rio
para ajudar as flores a resistirem ao inverno
e os tomates a se rebelarem contra a seca.


Às margens desse rio viciado
picado pela agulha dos hospitais
assaltado pela indigestão dos restaurantes
meninos caçaram animais que por ali se aventuravam
ou simplesmente ficaram ao vento –
que não tinha o cheiro senão do campo que percorria.


*
M C Escher






























www.rafaelnolli.blosgpot.com











Meus camaradas, essa ilustração foi feita por um grande amigo aqui de Arachá, ilustrando um conto meu. Infelizmente o conto se perdeu. Por sorte, nos resta a bela imagem. Abraços!



*

21 comentários:

Héber Sales disse...

Realmente uma belíssima ilustração. Gostei. Um abraço.

jugioli disse...

Linda ilustração.
Gostei de vir conhecer esse espaço.

JU

adelaide amorim disse...

Muito bons, poema e ilustração. Também ando mordida de poluição e fim de mundo - que afinal podia ser tão bom de viver :(

mariagomes disse...

Resta a bela imagem e o poema melhor ainda!

maria

Cris disse...

gostei da visita!

volte sempre!

abraço

Paulo Viggu disse...

Ando com a alma guardada na montanha. Ando pela cidade, vez em quando, veloz. A saudade é a mesma. Abraço - Paulo Viggu

Adriana disse...

"picado pela agulha de um rio" é a parte que mais gosto, ainda que triste e densa.É um rio morto, reflexo da cidade, pena.Muito bom poema, descrito com a metáfora da agonia.
http://anndixson.blogspot.com

liv disse...

OLÁ rAfael,faz tempo!Vida virtual é um ir e vir.Mas nunca esquecendo dos blogs de fundo e conteúdo.Apreciando este poema denso,a falar de uma realidade angustiante.Denunciar para que um dia acordemos dessa nossa pasmaceira suicida.Entre o amor e a dor...resta-nos os poemas.abraço.liv

Samantha Abreu disse...

Tua poética é bela, querido!
é verdadeira.

Um beijO!

Francine.VS. disse...

Agora assim, voltei para ficar! Estava morrendo de saudades daqui! Mesmo com o trabalho paralelo, meias férias, folgas e preparativos para outra viagem/carnaval, vou arrumar um tempo pra vir te bisbilhotar e postar minhas terapias, filmes, as novidades da Bahia e outras coisas! Adorei te ver! Seu blog continua um show!
Beijos e boa semana!
Francine

Flávia Muniz disse...

os costumes da sociedade nessa anatomia...

valeu!

Cássio Amaral disse...

Um retrato bem atual meu caro. Onde o capitalismo toma conta de tudo Nolli. Onde as transnacionais dominam e sabemos porquê.

O que acho interessante na sua escrita é sua inteligência aguçada e sua alma bem inteirada do contexto que vivemos.

Um abraço. E vamos em frente!

Héber Sales disse...

Cadê tu, Nolli? Tirou férias? Abração

anjobaldio disse...

Caro Rafael, alguns links simplesmente sumiram de meu blog, inclusive o seu. Mas logo ele retornará. Cara, tinha perdido aquelas perguntas que você me enviou sobre artes plásticas na net, mas também já achei e breve te mandarei as respostas, tá bom? Um grande abraço.

Leonardo Mendes disse...

Retribuir à visita agradou muito meus olhos. Imagem e sua ligação com o poema muito bem feitos.

Obrigado pela visita;

abraço!

daufen bach. disse...

Olá meu caro!
aqui te visitando, lendo tua poesia.
Uma pena perder o conto, se tinha
a mesma qualidade da poesia, trate de encontrar. (brincando).

Essa temática social e magnífica,
nao se trata de versos tolos.
Parabéns!

Um grande abraço a ti.

daufen bach.

Patrícia Lara disse...

Olá, Rafael!

Vim agradecer a sua visita no meu blog e tb as palavras, tão simpáticas, a minha tradução e tb ao meu poema.

Muito obrigada!

Adorei o seu espaço e tb a maneira como se expressa.

Belíssima poesia!
Realidade nua e crua! Parabéns!

Um agrande abraço.

Patrícia Lara

Adriana disse...

Poema forte, preciso, intenso. Especialmente estes versos:"meninos caçaram animais que por ali se aventuravam
ou simplesmente ficaram ao vento –
que não tinha o cheiro senão do campo que percorria." Gostei muito.

Ceci disse...

OI, RAFAEL, NESSE POEMA ME ENCONTRO, pois sou apaixonada pelo rio que inundou minha infância de beleza e que foi asfixiado e degolado:
"Que consolo me dá o Reno
Mosela ou mesmo o Danúbio,
se meu Paraíba morreu?
Rasgaram suas entranhas
cortaram sua cabeça.
sufocaram seu desaguar!
esquartejado ficou!"
O assunto vale bem uma blogagem coletiva, EM DEFESA DOS RIOS com desdobramentos.
Abraços

Renata de Aragão Lopes disse...

A imagem parece uma fatídica carta de tarô. Maravilhosa!

E seus versos retratam, uma vez mais e com a costumeira originalidade, uma realidade lamentável.

Excelente postagem!

Flávio Otávio Ferreira disse...

Engraçado, Nolli! Também tive um conto que se perdeu, embora tenha me rendido uns trocados num concurso, não tenho a mínima ideia se existe algum vestígio deste conto! Espero que não! A propósito, o Hugo tem sempre umas sacadas bacanas! Admiro o trabalho de vcs! Excelente Poema!!!