quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Balada do Cárcere

andrzej jurczak




Meus camaradas, como comentado anteriormente, estou publicando hoje o poema sobre o Cárcere de Abaetetuba. Inicialmente dividido em três partes, o poema começa a tomar um corpo maior. Vejamos no que vai dar. Por fim, não custa repetir o quanto esse caso me chamou a atenção. A primeira impressão que tive foi que seria impossível não me manifestar. Refleti muito nesses dias como uma garota pode ser lançada numa cela masculina e mantida por um mês em companhia de vinte e tantos detentos... Porém, é inútil me explicar aqui: tudo que senti está no poema!
*



Ópera-rock sobre o cárcere de Abaetetuba



1 – os fatos

Tinha quinze anos e subtraíra um Rolex made
in China ou um CD by Zona Franca de Manaus.

Por isso fora jogada
numa cela úmida de suor e porra.

Uma cela ocupada por homens exemplares,
educados na arte da pederastia e da extorsão
– onde trocava um copo d’água por uma chupada.

Tinha quinze anos e roubara pouco mais
de uns reais, que não lhe pagavam a fome.

Por isso fora jogada
numa cela feita de aço, músculo, testosterona.

Uma cela abarrotada de orações sinceras,
de sífilis, de gonorréia
– onde trocava fiapos de colchão por tapas na cara.

Tinha quinze anos e roubara um pedaço de pão
ou uma carteira de couro de avestruz.

Por isso fora jogada
numa cela fedendo a desinfetante de menta e cu.

Uma cela decorada com frases de ódio
e estelares bocetas globais
– onde trocava um prato de comida por uma trepada.



2 – o carcereiro

Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.

(O trânsito é um problema que o incomoda:
buzina, semáforo, lhe tiram do sério.)

Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.

(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)

Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.

(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)

Nada perturba o seu sono.



3 – os detentos

Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu nada.

Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.

Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos

– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.

Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas

– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.

Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.

Aqui o sol é o mesmo para todos
e o interruptor o apaga.



4 – opinião pública

A língua áspera lambe a notícia
até que a menina morra envenenada

Amanhã, uma mais perversa enfeitará a página
e depois de amanhã uma nova desgraça
(nenhuma azedará o almoço).

Com um imã, afixar o jornal na geladeira
 não lhe parecerá estranho.



5 – o culpado

O dedo pode correr sobre a lista telefônica,
comer cada um dos nomes: nenhum será o dele.

O olho atento poderá sorver a página policial,
percorrer sem tropeço os livros dos cartórios.

Os passos podem excursionar pelas genealogias,
singrar das raízes profundas às folhagens.

A mão pode investir sobre todas as identidades,
freqüentar os volumes de centenas de bibliotecas.

A voz pode indagar pelas ruas, gritar nos museus,
visitar cada um dos nomes: nenhum será o dele.



6 – fim

cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível

(talvez seja o vizinho
ou nós mesmosalgo nos diz)

e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum


*

22 comentários:

Thiago Henrique disse...

Adorei sua poesia principalmente pela as estrofes que ironiza a burrice da lei de deixa a mça na cela com homemns.

SAMANTHA ABREU disse...

É de dar calafrios.
A história é bárbara, de barbárie. E tão poucos a sentiram como você. Tão poucos levaram em conta mais do que uma noticia no jornal, um fato a mais no noticiário. Culpa nossa? Culpa da violência banalizada? Culpa do nosso descaso? Essa discussão vai longe e não é ela me que me interessa aqui, agora, nessa caixinha de comentários.

Teu poema: seco, estupidamente febril. E, por isso, pra mim, lindo.
Poema de verdade. Poesia nua, crua e repleta de febre humana, fervente.
Gosto assim.
Nada de firulas (o que eu faço muito, sei disso) e cheio de cutucões doídos.
Parabéns, Rafael.
um beijo.

tannuspri disse...

O poema nos mostra a nítida e chocante visão do mundo em que estamos inseridos.Aliás chocante para alguns,poucos e bons.Pois o resto já ta mais q acostumados! :(

Parabéns Rafael! Seu poema é a pura realidade!

Caim disse...

Quero "ver" como termina essa opera..
muito bom o texto sobre esse caso estranho que aconteceu e vazou na midia... foi soh a ponta do "iceberg"....

héber sales disse...

bacana, meu caro.
do ponto de vista formal, achei interessante a sonoridade das rimas internas.
quanto ao tema, merece mesmo um poema revoltado.
um abraço

Fabrício Brandão disse...

Meu caro amigo,

Seu poema faz eco a nossas indignações. É inconcebível como pessoas, na qualidade de agentes públicos amparados pelos ditames legais, permitam e mantenham uma situação como esta. A jovem de Abaetetuba é apenas uma amostra desse nosso distúrbio em lidar com as questões sociais, um certo anacronismo mesmo.

Agora, os olhos tupiniquins estão voltados às preocupações de quem será eliminado de um ridículo reality show. Esquecem que, todos os dias, o tal sistema que nos abocanha se encarrega de enterrar existências mais importantes para o nosso entendimento enquanto animais ditos racionais.

Belo e instigante, poema! Que venha a seqüência, então!

Abração!!

anjobaldio disse...

Muito bom mesmo. Grande abraço.

Márcia(clarinha) disse...

"Tinha" 15 anos...
Que lei é essa?
Um marginal "de menor" mata e os tortos direitos humanos lhe dão guarida.
Que lei é essa?
Parabéns poeta!
dias lindos
beijos

Leila Lopes disse...

A injustiça deitada em cama larga. E o teu poema nos traz a largura e a indignidade, a sombra maléfica do descaso ao humano.

Desejos de um ano cheio de poesia aqui e alhures.
Beijão, querido.

anjobaldio disse...

Ôi Rafael, dá uma olhada no vídeo TATURANAS lá no meu blog. Grande abraço.

Maria disse...

o olhar da indignação, da perplexidade, diante da obliquidade do dia-a-dia, transformado em bela e contundente poesia...grande beijo

Grazzi em ContRo disse...

Eu só vi a menina e chorei.

FINA FLOR disse...

estrelares bocetas globais foi demais...... tive que rir.... rs*

beijos, querido e bons ventos em seu ano,

MM.

Rodrigo Poeta disse...

*Cara você mandou uma pedrada...Muito boa poesia.Só essa arte mesmo para nos proporcionarmos a uma lição real ou a fantasia...Você mostrou nos versos uma lição real de impunidade e do caos, que é o nosso país! Abraços fraternos camarada poeta! SALVE A POESIARTE!

Rodrigo Poeta de Cabo Frio-RJ.

Analuka disse...

Sim, a situação é horripilante, repulsiva, e, por isso, às vezes penso que o mundo "real" é mais sombrio do que o pior dos pesadelos!... Como o ser dito "humano" é capaz de tanta frieza e brutalidade, é o que me pergunto, ao pensar em tragédias como esta...
Abraços.

Ana D disse...

Parabéns Rafael, vc tem estilo e suas palavras muita personalidade . Quero completar que a imagem é impressionante. Um post intenso !

jobofevi disse...

Fiquei muito feliz pela visita. Estamos montando um sitio da nossa companhia de teatro, na próxima semana lhe mandarei o endereço. ficariamos muito honrrado se você escrevesse sobre o teatro brasileiro pelo menos uma vez por semana. Nossa companhia é nova mas estamos trabalhando com muita seriedade durante toda a semana, Queremos fazer teatro com proficionalismo e amor. Prewcisamos muito do apoio e de pessoas como você. Um grande abraço.

jobofevi disse...

Parabéns. você tem muita senssibilidade. A arte tem que estar sempre do lado do oprimido e excluído. O artista não tem obrigação de fazer revolução mas a sua arte tem que ser revolucionária.

van disse...

O que pode o artista diante de tamanha crueldade e desprezo humano?Denunciar.O poema retrata a violencia social,as relaçoes de força e poder do Estado e o cidado,do homem e da mulher;da guria(menor)e dos adultos.Num Estado de direito,leis é absurdo o descaso policial,do delegado(a lei)que abusa do peder e atira mulher aos homens(naquela condiçao);a juiza pouco fez como expressao de guardã da lei.Ser pobre,mulher é (parece)um crime! As cadeias continuam cheias,a crise social(emprego)violencia policial,corrupçao;politicos usando o poder para se auto-servirem(altos salarios)impunidades.Um país com este desnível de justiça gera este horror.Nao calr,é a saída.Bom trabalho em sua ópera ,ela nos diz que algo precisa ser feito e mudado neste Brasil de muita lei e pouca Justiça.

Drikaflor disse...

A ironia maior é que uma mulher compactuou com esse menosprezo de democracia e direito. Renato Russo bem falou "Que país é esse?"...eu vou mais longe...que mundo é esse? que lugar é esse? Que seres humanos são esses? Dá medo viver...

amei aqui...putz...beijão
www.drikaflor.zip.net

Lisa Alves disse...

Nossa, Rafael, muito forte! Infelizmente crianças são diariamente jogadas em varios tipos de submundos... Esse foi um caso que a mídia mostrou, mas temos tantos e tantos casos nesse nosso Brasil e mundo que são tão assustadores quanto. Aqui na barragem perto de Brasilia encontraram crianças mortas sem alguns orgãos: olhos e rins. Não, não permitiram a divulgação nacional.
beijos

Lidiane disse...

Isso foi navalha na carne.
Carne que não é minha, não é sua. Mas que dói na consciência de cidadão no conforto passivo da vida.
Poesia também é grito preso na garganta.

Aplauso pra você, Rafael.