sábado, 18 de fevereiro de 2017

Uma rosa, apenas


1
o entregador
– jovem em seu uniforme –
carrega consigo uma flor 
segue a segurando pela cabo
(que displicência!)
com as pétalas voltadas para baixo

é possível que perca alguma!
uma pessoa pensa ao observá-lo

pouco antes do momento da entrega
– aqueles segundos de ferro –
retomará a postura e, com a mão livre,
ajeitará a gola da camisa

sem perceber que seu rosto organiza
(colocando um par de músculos à prova)
seu melhor sorriso

2
a mulher
– que nunca foi amada –
carrega consigo uma flor
presa junto ao corpo
como se levasse um filho:
não um filho nascido: 
um que se faz em segredo no útero

quem a enviou?
– ainda que feia e de poucos atributos –
não há como saber
(& o entregador tão pouco pode revelar)

“para cada pé, há um sapato!”
alguém que observa pensa;
“para cada panela, uma tampa!”

talvez nem ela saiba – e convenhamos –
é possível se tratar de um engano
(e não de um admirador secreto)

ou de uma peça pregada pelas amigas
(e não de um amante)

ou ela mesmo se presenteou
(a solidão, por que não,
que companhia!)

mas como está feliz
nota-se pela forma
– discreta –
que olha para a flor
enquanto aguarda o ônibus










Nenhum comentário: