domingo, 1 de julho de 2012

Inventário de um rio # 2



1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele


(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])

Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
com o cadáver de cão –
conduzia a inframundos
governados por Hades

(pouca era a sua água
e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um condenado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
com um azul de olho vazado])

2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade




6 comentários:

Adriana Godoy disse...

Nolli, tenho a impressão de que
"Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade" seja algo tão explosivo como uma granada, sem excluir a outra parte.

Bonito, triste, forte demais.

Bom sempre ler seus poemas. Beijo

Cássio Amaral disse...

Bem pancada como deve ser um poema.

Braços.

Flávio Otávio Ferreira disse...

Pegando um gancho no comentário da Adriana Godoy - embora o poema seja carregado de tristeza - um rio raquítico e doente parece culminar em subversão. O fato de roer as entranhas da cidade me parece um ato de esperança, uma tentativa de sublevar contra uma cidade. Uma luta paciente contra quem só fez explorar seu manancial.
Excelente trabalho, Nolli!

Joakim Antonio disse...

Tantos rios que nos foram vida e passam ao largo, no esquecimento, uns são até rios literais.

Abraços poeta!

livia disse...

OLÁ,POETA. SEMPRE LEIO SEUS POEMAS FORTES E POLITICOS(FAZ FALTA ESTA VISAO NOS DIAS TAO ESTEREIS.fAZ FALTA FALAS AUT~ENTICAS. o MUNDO SOBREVIVE AS LOUCURAS E A MENTE PEDE REFLEXAO.).aBRAÇO.

Mônica L. Costa disse...

Rafa,
Sua poesia cresce - além da denúncia, sempre presente. Está madura, tem lirismo, um lirismo adulto de quem burilou palavras e experiências. Antes havia uma raiva que atirava para todo lado; agora há um foco e finalmente, a aceitação da beleza. O título é perfeito, agora você é um poeta.

Beijos orgulhosos,
Monique