domingo, 8 de julho de 2007

Um Dia Desses

Tela de Dorothea Tanning

Como disse anteriormente, estou com um romance prontinho na gaveta. Toda a trama se passa em uma república estudantil, QG de um grupo de Intervenção Urbana - tudo regado a poesia, política, música, teatro, as deliciosas inconseqüências da juventude, etc, etc... O livro é organizado em capítulos curtos, havendo muitas colagens de trechos de livros que gosto, além de otras cositas más...
Vou publicar aqui um capítulo que acho significativo. Espero que vocês gostem. Abraços a todos!



                                  29     
            Permiti minha vida às ruas da cidade. Febre avassaladora movendo minha percepção pelo sombrio corredor humano: dínamo diabólico nos sugando para as polaridades obscuras do nada; Caronte, imenso imã escondido debaixo das montanhas ao norte do paraíso, ou de qualquer coisa impossível, nos atraindo como pequenos parafusos – as moedas sobre nossos olhos, os marcapassos, o ferro em nossas veias, nossos pensamentos de chumbo sobre a morte debaixo dos pneus dos carros ou da vida voando e cagando estanho derretido sobre nossas cabeças.
            O corpo fechado, incapaz de conter o halo de ira que escapa pelos poros, ilumina o dia, se confunde com o néon das fachadas das lojas, se mistura aos faróis dos ônibus e se perde entre o clarão do fósforo riscado. 
            Permiti minha vida à correnteza de carne humana escorrendo pelas vias da cidade: as idéias coletivas sobre qualquer coisa dispensável se misturando num único cardume que é devorado mais adiante, para renascer novamente após a travessia da rua. Alguém que chora passa despercebido, ainda que destoando da desarmônica orquestra magistral. Penso: “era o que todos estariam fazendo se os sapatos não ditassem o ritmo frenético da metrópole e as pernas insistissem em devorar o caminho”.
            Sobre minha cabeça, reclames do tráfego se mesclam aos sinais invisíveis dos celulares, às ondas do rádio e da tv, que se unem antes de comunicar aos homens a necessidade da pressa e do temor.
            Mais tarde não haverá mais minha vida, porém a cidade prossegue. Ergo o controle-remoto e mudo de canal.

19 comentários:

Caim disse...

Ae rafael... gostei do trecho do romance... Poste mais ai pra gente ler... grande abraço...

Clara Mazini disse...

Era o que todos estariam fazendo...
Você faz. E bem. Parabéns!

Sônia Marini disse...

Muito bom esse trecho. Aguça a vontade de ler o resto.
Também tenho problemas com títulos. Mas, acho que os meus são sérios. rs
Ah! Vou linkar vc lá no PULSAR, ok?
abraços

Paola Vannucci disse...

Nolli,

isso é algo psicológico que nos faz pensar e adentrar em conflitos com nós mesmo?
a vida e sua mistura de vidas e pensamentos reachadas de pensamentos tortos e maquiavélicos, hummmmmmmmmmmm

Gostei do começo......

MAnde pra mim a música do Pink Floyd, heheheehehehe

gosto muito....

vou comprar seu livro tá.

Não pare de escrever e de nos agussar.

Cassio Dias disse...

Sempre sublime e ácido !

Aguardemos então Comerciais de Metralhadora ...

Abraços !

Cássio Amaral disse...

contexto do seu texto é muito bom velho. Há nele um grito, um urro, uma bomba pra explodir. Não sei se Verlaine ou Válery que disse que a ira é impulso pra criação. Vejo-a numa dose bem legal aqui. Tem que publicar em papel.

Abraços.

Aline Rocha disse...

Oi, Rafael.
Que surpresa seu comentário.
Fiquei muito tempo seu usar o blog. Agora retornei.
Você ainda tem orkut? Voltei há pouco tempo. Você poderia me passar seu link para eu te adicionar.
Bom te ler ! Seus posts estão muito interessantes!!!

Um abraço,

Aline

Renata Belmonte disse...
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Mary disse...

Gostei do final... fica uma vontade de saber todo o resto... o q vem antes e o q vai acontecer depois. Acho q vou gostar de ler!!!!
Bjinhos.

Helder Hortta disse...

muito bom esse trecho, tem uma força de cidade e de atordoamento psicológico. Forte e conciso. exige um leitor atento.

abraço

Paulo Castro disse...

Nolli: Mallarmé em um evento em Oxford, conta ao ingleses sobre a morte de Victor Hugo e o que ela significava: Hugo acumulou em si todo o direito de fazer poesia e prosa. Um movimento de centralização. Após ele, essas duas instâncias se libertaram em fragmentos, explosão, havendo vários focos de interpenetração poesia-prosa. Isso é mais que prosa poética, isso que vc mostra aqui, não é retilíneo como versos alisados, é uma terceira coisa, um desses fragmentos de que falou o cara.
Quando li que era sobre uma república, política, pensei um sincero "xi, vem aí outro porcos com asas...". Outra greve na USP.
Que nada, eu estava enganado. Isso é literatura, ou seja, a palavra que se não tira o pé do chão, passa perfume ( mesmo que ocre ) nos dedos.
Abração.
°

douglas D. disse...
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*Caroline Schneider* disse...

Tens percepção de quem nasceu com poesia nos olhos... pra mim, o poeta é isso, vê tudo o que aos demais passa despercebido, a poética do espaço, seja ela boa ou ruim. Só por este trecho já dá vontade de ler o livro inteiro... Nolli, sabes que tenho o mesmo problema teu quanto aos títulos? Aff, é um parto dar título a qualquer coisa! Rsrsrsrs, mas gostei do título provisório! Agradeço os comentários nos meus poemas do blog e do manufatura! Sempre tens algo a me acrescentar! Beijocas estaladas!

Celia disse...

Oi, Rafael, bom reencontrá-lo em sua "casa nova". Vou linkar vc de novo. E seu livro deve ser muito bom, como tudo que vc escreve...Adorei a amostra grátis! rss. Um grande beijo

anjobaldio disse...

Obrigado pela visita lá no anjo baldio. Gostei de teu texto na 11 Leva do diversos afins. Grande abraço.

héber sales disse...

vamoembora nessa corrente então:
o link é de ida e de volta, meu caro.
abraço.

Flávio Otávio Ferreira disse...

Caramba... camarada fico boqueaberto, tenho muito que aprender viu? Este texto está muito bom, e não me espanta que o livro seja todo assim. Falando nisso, quero ter o privilégio de ler ambos: "Comercial de Metralhadoras" e "Um dia Desses"... Tenho me arriscado nos contos, mas minha escrita ainda tá muito imatura para tanto. Preciso estudar mais e, exercitar tbem. Abração!

Thahy disse...

intriganteee!:D

Lila Rose disse...

Companheiro, tu escreve muuuito bem, você sabe, né???

Caramba... vai postar outros pedacinhos depois????

Espero que sim. Aliás, estamos na fila aguardando sua comercialização.

Bisous!