terça-feira, 20 de julho de 2010

Cidade Vazia

Para Betina Ribeiro Rodrigues da Cunha


arte: Hugo Martins

Nada se sabe sobre essa cidade vazia.
Para onde foram os seus não há pista.
Nenhum detetive seria capaz de descobrir,
nenhuma cartomante poderia ajudar.

O semáforo sorteia o verde e o apresenta,
carro algum se disponibiliza a avançar –
estúpido, só o faz mediante chicotadas.
O letreiro luminoso oferece sanduíche,

ninguém para matar a fome ou a sede –
que seja através do saque, às claras:
as portas abertas convidam ao crime,
o cofre bojudo dorme um sono pesado.

Seria um flautista arrebanhando gente,
ou uma promessa de vida melhor adiante?
Pista alguma se encontra que as comprove.
A cidade é a mesma de ontem. E não o é.

O Silêncio que nunca andou por essas ruas,
a Paz que ainda não havia se mostrado,
a Tranqüilidade definitivamente alforriada
são os únicos que por aqui restaram.

Um gás letal terá pegado todos de surpresa
enquanto dormiam ou escovavam os dentes?
Um deus vingativo terá vindo puni-los
pelos séculos de luxúria e lassidão?

Sol e chuva por fim vencerão a luta, come-
rão a parede das casas e a pele do asfalto...
A barragem saciada se romperá
afogando os prédios, soterrando os bairros...

São conjecturas apenas.
Nada se sabe sobre essa cidade vazia.

arte: Hugo Martins
*

21 comentários:

Cássio Amaral disse...

SINCERAMENTE É UM POEMA DIFÍCIL COM PENDOR DE FÁCIL, É UM POEMA QUE URRA MUITO ALÉM DO QUE NÓS PENSAMOS E ACREDITAMOS, UM POEMA QUE TEM IMAGENS DO BIZARRO COM A SITUAÇÃO ATUAL. MANO, MUITO BOM, E OS DESENHOS CASARAM MUITO BEM.
COMPREI MALA NA MÃO & ASAS PRETAS DO PIVA E MAELES COMPROU DOIS DA HILDA HILST.
SAUDADE SUA E DE CONVERSAR COM VOCÊ.
GRANDE ABRAÇO.

Graça Carpes disse...

"Seria um flautista arrebanhando gente,
ou uma promessa de vida melhor adiante?"

Eis aí, a esperânça o Poema!
:)

Flávio Otávio Ferreira disse...

Camarada, muito bom o poema!!! A cidade que parece adormecida ressurge das cinzas aos primeiros gemidos da aurora e o turbilhão de gente se atropela por um espaço que é o cenário súbito da tragédia cotidiana.
Abração!!!

jorge vicente disse...

eu sei.

é a minha cidade de todos os dias :(

grande poema, camarada!

abraço forte
jorge

isaias de faria disse...
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isaias de faria disse...

bom demais ler poemas seus. ele é algo q um poeta pode ver e falar como ninguém. e vc fez. da gosto de ler muitas vezes. abraços do amigo daqui.

tenório disse...

Nolli, é linda a sua conjuntura. Engraçado, tive uma sensação bucólica (tanto com o poema como com as imagens), uma sensação que normalmente é vinculada à boi, capim, igrejinha, cidade do interior. Parece exagero, mas seu poema me fez enxergar melhor a cidade por onde ando.

E pode não ter nada a ver com o assunto, mas esses dias comentei com minha esposa como os carros estacionados em filas duplas enfeiam a cidade, as praças, os lugares onde estão estacionados e ninguém mais percebe isso. Quero dizer, essa cidade vazia mostrou-se até bela para mim (como eu já desconfiava que seria).

Glauber vieira disse...

Interessante texto, pode ser um prenúncio do que o homem já está fazendo com suas cidades...

Joakim Antonio disse...

Talvez apenas não percebemos e já esteja vazia a muito tempo.

Parabéns pelo poema e pelo dia do escritor!

Luiz Alberto Machado disse...

Maravilha, Rafael, tudo muto demais por aqui, parabens. Adorei este seu espaço. Indicarei nas minhas páginas, aguarde.
Abração
www.luizalbertomachado.com.br

Vera Basile disse...

Muito bom Nolli! Quem nunca imaginou sua cidade assim?!...talvez como forma de parar o tempo...ou não deixar a cidade te engolir..
Adorei as ilustras!!
Abs

VALVESTA disse...

Esta cidade lembrou-me de um filme assistido, arma química teria devastado a humanidade e os sobreviventes estavam deformados, zumbis e monstros...
Mas talvez seja mesmo o destino da vida no planeta, o homem faz e desfaz em nome do progresso e do consumismo desenfreado... lixos e lixos humanos são amontoados nos montes e mentes... querem mesmo culpar deus por tudo isso, mas esquecem que Ele nos deu um paraíso nos o transformamos em inferno, mas ainda resta a esperança, Os planos de Deus ainda se cumpriram!

Wilson Guanais disse...

conheço essa "cidade".

abraço.

J.F. de Souza disse...

há que desenterrar a história
um dia
e os povos futuros
saberão mais que nós
dessa cidade vazia

daufen bach. disse...

Meu caro Nolli,

teus versos sempre diferenciados...densos!
maravilha de poema...é desses que sempre dizem: "gostaria de ter escrito"...rs.

cristal de uma mulher disse...

Um poema e porque não dizer um grande texto.

Uma obra ordinaria de verdades onde ida e vindas é o retrato da vida.

Abraços

Vieira Calado disse...

Na verdade...
muitas das cidades de hoje
estão cheias
de gente vazia!

Forte abraço

sidnei olívio disse...

Poema de grande visão! Obrigado, meu caro, pelo comentário do Poema Dia e por proporcionar um blog assim. Abração.

ju rigoni disse...

Rafael, palavra de tirar o fôlego tal o modo, como desenha a inquietação de um tempo repleto de vazio. "São conjunturas apenas" Mistério que é feito da mais profunda escuridão e, portanto, com mínima chance de desvendamento...

Poema denso. Necessário.

Bjs, poeta. Sempre feliz com a sua visita. Inté!

carmen silvia presotto disse...

Rafael, parabéns pelo teu espaço, lugar de muita Poesia e Arte.

E "cidade vazia", foi me desconstruindo até poder imaginar uma cidade futura, talvez agonizante pelo descaso à natureza... enfim, a Natureza parece dizer o que o poeta sente: por fim, sol e chuva vencerão a luta...

Uma abraço poético e quando der deixa rastros lá em Vidráguas (www.vidraguas.com.br)

Carmen Silvia Presotto

Marcio Nicolau disse...

este me parece um lugar que alguns de nós tem habitado.