sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Procura da Poesia

Coleópteros - foto: Rafael Nolli


Poema # 3
                                                 Para Flávio Offer

Procurando muito há de se encontrar.
Entre os homens que por um segundo
se esquecem de sua natureza e se atracam
– por uma palavra mal acentuada
         ou um gol anulado –
é o palpite mais razoável.

Talvez nem precise ir longe demais:


nada de chafurdar na lama –
onde o esgoto urbano descansa;


nada de vasculhar o sovaco da noite –
onde piolhos fugitivos da púbis se exilam:

por certo é ir longe demais, não
vale a viagem ou a sola de sapato gasta.

Talvez ela esteja por aí, na rua,
passando de chapéu a esconder o rosto,
maquiagem carregada mentindo a face;
ou oculta em uma casa distante e triste:
bastaria chamar no interfone e solicitar.

Quem sabe esteja ao nosso lado
(todo esse tempo ao nosso lado!)
sentada em um ponto de ônibus
aguardando uma condução que lhe dê fuga;
ou em uma mesa de bar
pedindo à saideira ou um psiquiatra.

Quem sabe esteja do outro lado da rua
(ao alcance de um chamado ou de um assobio)
indignada com os preços da carne;
ou esteja um lance de escada, andar acima,
lamentando a paisagem obstruída.

Procurando bem, com esmero,
sem trégua ou descanso,
tendo por certo que encontrada hoje
a busca recomeça amanhã.


* do livro comerciais de metralhadora

15 comentários:

Marcio Nicolau disse...

Encontrei hoje aqui.

Cláudia Cardoso disse...

Talvez a poesia, acanhada que é, escondeu-se por medo de expor o poeta. Beijos.

Dê o click disse...

Talveis realmente esteja camarada, pegando o onibus que o dê uma fulga.
A busca talveis recomece amanha!

Flávio Otávio Ferreira disse...

Execelente trabalho, camarada. Fico grato pela dedicatória. A poesia é isto mesmo, sempre se escondendo pelos vãos ou mesmo escancarada para que todos a possam notar; contudo, nem todos possuem o olhar apurado para garimpá-la, trazê-la a tona. Nem todos são capazes de ir em seu encalço e torná-la palpável, legível a quem queira percebê-la, tocá-la. Grande Abraço!

isaias de faria disse...

tamo no esncalço dela. boa poiesis!
abraço nolli
isaias

Cássio Amaral disse...

Rafael, nós procuraremos amanhã essa tão de poesia que é nossa loucura sempre.
Ótimo poema para nosso irmão Flávio.
Maeles e eu ficamos felizes com a notícias da gravidez da Sany.
Parabéns.
Muito bom poema o seu, como os de sempre.

Abração e saudade de vocês.

carmen silvia presotto disse...

Rafael a poesia é, e em ti ela não é fugaz, ela é pleana, ela é tinta, ela é tempo e espaço.

Um beijo e parabéns a ti e Amada pela vinda do mais belo poema, bom final de semana.

Carmen.

Graça Carpes disse...

Divulgando... Para que outros também a encontrem.
Bjo :)

Joakim Antonio disse...

Rafael, pelo jeito está encontrando-se sempre com ela :)

Perfeito!

Flá Perez (BláBlá) disse...

procurando bem sem procurar realmente há de se achar o que a gente nem sabe...
adorei!


bjbjbjbj

Fabrício Brandão disse...

A concatenação de palavras harmoniza sentidos por aqui. Aprecio muito sua forma de expelir incômodos tão nossos, meu querido poeta!

Abraços ternos!

Leila Andrade disse...

Nolli,
sem esta busca decerto que nossa vida seria muito sem sentido ou graça. Lindo poema!
Beijos.

Rubo Medina disse...

Rafael, sua poesia engajada é sempre muito boa, carregada de sinônimos que só descobrimos ao lê-la.
Abraços, sucesso.

luiz gustavo disse...

" um lenguaje que corte el resuello "

octávi(d)o de paz em seu "blanco"
- transblanco de haroldo -
conduz à meditação:

uma lâmina desventra
- úmida de aço -
a crença

de que relâmpagos

d
e
s
c
e
m

seguidos de tambores -

o trovão
murmúrio de fontes
desarranja os céus ?

por ali um odisseu
suscitaria o silêncio:

" a invenção do corpo "

o olhar invertebrado
sob um céu
cercado de arcanos

uma chuva de crisântemos
por todos os lados
reticulam as pálpebras
de um fundo amarelo
de topázio pálido

a vida é perversa -

indecifrável
a vida
in(di)visível

uma linguagem
que corte o fôlego

- o orvalho do desfolhado olho -

secá-las - as folhas -
e pisá-las sob os pés
e ouvir o ruído de uma fogueira

( arder as palavras solitárias )

" la hora es transparente ":

a vida é invisível
desnuda constelação
de temporais de vidro


www.escarceunario.blospot.com

Guilherme Prado Souza disse...

Sempre tento juntar as palavras... Vez ou outra sai algum escrito, mas a poesia, escorrega-me pelos dedos dos pés e acaricia meus calcanhares...
Abraços!

limbosocial.blogspot.com