terça-feira, 13 de junho de 2017

Duas notas de rodapé


1
Qualquer coisa cheira mal
em sua permanência aqui na Terra.
Algo de estúpido se passa
nas reuniões onde se decidem os infartos;
algo não compreensivo ocorre
na comissão que coordena os atropelamentos.

Deus, ou quem estiver no comando,
só pode mesmo ser um cara muito piedoso,
ou andar terrivelmente mal assessorado.
Perdoa-se a burocracia que deve haver
e a longa fila de processos a julgar,
talvez má fé ou corpo mole dos juízes –
o que não é de se surpreender.

Ainda assim somos obrigados a nos perguntar:
por que não se tão urgente? Se tão óbvio?
Não existe melhor hora do que agora.
Para ontem é tarde demais.
Antes tarde.

2
O espaço anda tão escasso
que ocupá-lo por ocupá-lo
não parece nem um pouco válido.

Se livrar de uma ou outra caixa
(aqui usamos a velha metáfora)
que pouco tem nos acrescentado
não pode ser algo assim tão abominável.

Se ao menos guardasse algo
convinha talvez guardá-la.
Que está vazia não resta dúvida,
ácaros, ácaros, ácaros,
aos milhares,
aos milhões, como em toda velha caixa.

O que se perde?
Uma cabeça a menos no senso demográfico.
Um nome encabeçando o obituário.
Talvez uma breve nota de pesar no jornal (desperdício
de papel em tempos de aquecimento global).

Foda-se se tem uma mãe para chorá-lo.



Um comentário:

Nadine Granad disse...

Oi, Rafael!
Nossa, precisei ler várias vezes...
... E a cada nova leitura, vamos associando com tantos fatos que nos cercam!

Beijos! =)